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Manuel Bandeira, em entrevista

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Quando se estuda jornalismo, a vontade de conseguir entrevistar alguém famoso, de preferência um jornalista famoso, é eminente. Mas, no meu caso, todos os que eu pensava em entrevistar eram impossíveis. Não estou falando de Pelé, Roberto Carlos, ou presidentes; mas sim de pessoas que são humanamente impossíveis por já não estar mais entre nós – e não estou falando de jornalistas mortos. Quando olho minhas prateleiras de cds e livros, noto que elas mais parecem um vasto cemitério de lápides coloridas.

Porém, depois de uma proposta de trabalho da faculdade, o sonho de entrevistar o cara que me ensinou a gostar de poesia se tornou possível. E eu nem precisei ir a uma sessão espírita.  Para entrevistar Manuel Bandeira, precisei apenas prazerosamente ler, com cuidado, seus poemas de versos muito vivos. Então…

Completando 40 anos de sua morte, Manuel Bandeira fala sobre a vida, infância, amizade e, claro, poesia.

artefato.k: Qual é a explicação para viver mais de 80 anos com tantos problemas de saúde?
Manuel Bandeira:
A vida é um milagre.
(…)
O tempo é um milagre.
O tempo infinito,
A memória é um milagre,
Tudo é milagre
Tudo, menos a morte,
- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

a.k: Qual sua melhor lembrança da infância?
MB:
Recife
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia  as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
A via com um aporção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabiam onde ficavam
Recife …
               Rua da União…
                                          A casa do meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife…
              Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.
 
a.k. Certa vez, você citou que devia sua poesia à tuberculose, pois na época do tratamento escreveu seus melhores poemas. Como você encara essa doença?
MB:
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia Ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.

a.k. Se assim é a tuberculose, a poesia é…
MB:
  [...]
O lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clows de Shakespeare.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amantes exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

a.k. O escritor Mário de Andrade é conhecido de todos por sua obra. Mas quem era Mário de Andrade para Manuel Bandeira?
MB:
Mário
  Inteligência
  Sabor
  Surpresa 
 [...]
          Mário cigano
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares.

a.k. Quando trabalhou no jornal Correio da Manhã, qual notícia mais te marcou?
MB:
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro  da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou  no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

a.k. Uma pessoa que escreveu tanto sobre a morte faz planos para o que vem além da vida?
MB:
Depois de morto, quando eu chegar ao outro mundo
Primeiro quererei beijar meus pais, meus irmãos, meus avós, meus tios, meus primos.
Depois irei abraçar longamente uns amigos – Vasconcelos , Ovalle, Mário…
Gostaria ainda de me avistar com o santo Francisco de Assis.
Mas quem sou eu? Não mereço.
Isto feito, e abismarei na contemplação de Deus e de sua glória,
Esquecido para sempre de todas as delícias, dores, perplexidades
Desta outra vida de aquém-túmulo.

a.k. Qual seu maior desejo?
MB:
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
[...]
Te esperarei com máfuas novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

a.k. Como gostaria que fosse seu último poema?
MB:
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionadas
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dois suicidas que se matam sem explicação.

 

É arte, É fato: os trechos dos poemas foram retirados do livro Estrela da Vida Inteira, reunião completa das poesia de Manuel Bandeira. Contém os livos  Cinza das horas, Carnaval, O ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da manhã, Lira dos cinqüent’anos, Belo belo, Opus 10, Estrela da tarde, Mafuá do malungo e Poemas traduzidos.

:: Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira. Nova fronteira, 422 págs. R$ 49.

  1. Ione Bonfim
    16/03/2008 às 22:15 | #1

    gostou da mesclagem. Poesia e perguntas tem uma excelente sincronia. Vc sempre me emociona. Beijos, manda para alguém de revista ler isso !!!

  2. Gabriela
    17/03/2008 às 22:36 | #2

    Eu adorei. Agora vc podia fazer um com o Mario Quintana. Quero dizer, nem sei se você gosta do Mario Quintana…

  3. 28/03/2008 às 17:16 | #3

    Céus, entrei 39587406 vezes no seu blog antigo e nada! Pensei que tinhas desistido do mundo blogueiro. Fico feliz em ver que estás por aí, e com essa postagem bonita ainda por cima!

  4. tonollica
    29/03/2008 às 19:17 | #4

    Lindo, Ká! poesia faz sempre bem a alma, e Bandeira é mestre, né.

  5. Patricia Martins
    02/08/2008 às 12:04 | #5

    Parabéns, amei… meu coração se encheu de alegria, minha alma se ampliou, enfim… Como você pôde fazer isso?
    Bandeira é assim, mexe, rola e brinca com o sentimento de todos… Ler Bandeira é fazer parte de uma nova ordem e sair do caos…
    Muito obrigada pela oportunidade de ler a “entrevista”. Eu ri e me sensibilizei ao mesmo tempo… Era isso que você queria?
    Você conseguiu!!!!!
    Agora, aceite a idéia da Gabriela e faça uma “entrevista com Mário Quintana, por favor!!!! Adoro aquele mal humor bem humorado e a quietude dele que nos transforma.

  6. 02/08/2008 às 12:21 | #6

    Obrigada, Patrícia.

    Já “entrevistei”, sim, o Mario Quintana: http://artefatok.wordpress.com/2008/05/10/mario-quintana-em-entrevista/

    Espero que goste.

  7. Priscila
    21/08/2008 às 14:21 | #7

    Oi, nem sei quem és, mas já sou fã do que fazes!!!!

    Muito boa sua “entrevista”.

    Por favor, continue nos presenteando com sua criatividade!!!

    Priscila

  8. Marilu Santana
    28/10/2008 às 11:38 | #8

    Adorável! Continue com entrevistas deste nível e terás em mim, mais uma leitora cativa. Abraços,
    Marilú

  1. 29/12/2008 às 13:20 | #1
  2. 31/05/2009 às 14:05 | #2