Devido a uma burocracia do MEC nessa sexta-feira fui assistir à peça “Senhora dos Afogados” de Nelson Rodrigues. A direção de Antunes Filho e o texto de Nelson, geralmente, me agradam, mas a atuação do grupo Macunaíma sempre me decepciona. Foi assim em “A Pedra do Reino”, texto divertidíssimo de Ariano Suassuna, que ficou chato e cansativo na atuação desse grupo, e me fez perguntar cadê o Antunes Filho diretor dos Prêt-à-poters e de “O canto de Gregório”, que eu a-do-ro?
A montagem perde a depravação, já característica do texto de Nelson, e os momentos catárticos comuns da platéia. Ou seja, era um texto forte demais, para uma interpretação infantil demais e pudoresca demais. Com exceção das boas atuações do elenco central: Angélica di Paula (Moema), Lee Thalor (Misael) e Valentina Lattuada (D. Eduarda), e dos belos solos de piano; a montagem apela para clichês dramáticos e força risos da platéia - por exemplo, a avó que imita o choro de cachorro toda vez que sai de cena.
Para quem assistiu à Pedra do Reino e leu, ou chegou a ver a excelente montagem da Cia. Armazém de “Toda nudez será castigada”, o espetáculo era previsível. Tanto na encenação, porque os elementos e a forma da montagem eram praticamente os mesmos utilizados na peça cômica de Suassuana; quanto no texto, porque a história segue a mesma linha do drama de Herculano, um viúvo semicasto, que quebra a promessa feita ao filho de não ter outra mulher na vida além de sua mãe.
E qualquer um, que estudou o mínimo, de teatro sabe que todos os elementos colocados no palco têm um significado. Eu estava achando a figuração, de Rosângela Ribeiro, perfeita: todas as personagens de personalidade obscura vestiam preto, e os que, na visão de Nelson, eram vítimas dessas personagens e/ou da sociedade vestiam figurinos de outra cor; até que eu reparei que uma das personagens do coro de vizinhos calçava uma plataforma prata (!). Por que raios esse cara usava um sapato à la drag queen? Esse foi um detalhe que fez toda a diferença para eu decretar que vai demorar, e muito, ou vai me fazer pensar 457 mil vezes antes de ver uma peça que tenha qualquer ligação com o grupo Macunaíma.
É arte: ir ao teatro ou fazer qualquer atividade cultural por livre e espontânea vontade.
É fato: é ingenuidade do MEC tentar desenvolver um gosto cultural em universitários por meio de uma obrigação de horas complementares. Já cansei de visitar exposições e museus e ver pessoas fazendo cooper pelo espaço atrapalhando os interassados, depois ir ao balcão de informações pedir um carimbo de que esteve ali para comprovar as tais horas, que na realidade foram nem cinco minutos.
:: Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. Drama. Direção de Antunes Filho. 90 min. No Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245, Consolação, tel. 3234-3000). 6ª e sáb. às 21h e dom. às 19h. Até 27/07. R$ 20.






É triste mesmo , quando observamos uma obra ser “estragada”.
Às vezes, é a cabeça da gente que tá “estragada”…
Se obra foi “estragada” ou se cabeça está “estragada” é uma questão de gosto. E como disse Ary Barroso: “gosto se discute sim!”
Eu não gostei dessa montagem da peça, mas ouvi dizer que a do CCSP foi muita boa. Carlos, você assistiu a alguma? Viu essa do Antunes? O que achou?
amiga, eu preciso ir hoje… vc me deixou com mais preguiça ainda.
Achei bastante interessante sua crítica. Não sei se é porque não entendo muito de teatro, mas saí insatisfeito da apresentação. A colagem de elementos tão diferentes resultou numa peça que não é nem comédia nem drama, nem algo interessante intermediário. Também não entendi a troca das cores da roupa dos irmãos. A montagem foi ousada, mas o resultado não me contentou.
Concordo plenamente que tudo que se usa em cena tem seu signo.
Mas não concordo que um personagem que representa o povo, de certa forma a opnião púplica não possa usar um sapato de plataforma. Qual o problema, se um personagem que representa a opnião publica usa plataforma ou não!
Acho que este espetáculo em especial tem muito mais coisas a ser observadas em uma crítica do que isto, uma vez que uma critica séria não se limita as preferências estéticas que gostariamos de ver em cena ou não, mas sim se a uma coerência entre as opções que foram escolhidas para se contar uma história.