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Archive for the ‘na cabeceira’ Category

rilke shake

rilke-shake-gdeImagino que um livro de poemas é como um álbum de músicas: impossível de gostar de todos que estão lá dentro, mas se você gostar de cinco ou três (dependendo da quantidade) já valeu a pena.

Semana passada chegou às minhas mãos, por intermédio do meu professor-chefe,  o livro Rilkel Shake, de Angélica de Freitas. Quando ele leu o poema Família Vende Tudo para Julia e para mim, pensando em colocá-lo na próxima edição de Esquinas,  eu me identifiquei na hora.

Os versos de Angélica são bem-humorados, e arrisco dizer que são na verdade historinhas. Anedotas em forma de poemas

É arte: o projeto  gráfico. Parece um moleskine, o que dá uma intimidade aos poemas. É como se você estivesse lendo anotações que Angélica escreveu só para ela.

É fato: só escrevi um poema, que considero ok, na vida. Mas esses dias, acho que me deixei influenciar pelos poemas da Ju e pela leitura de Rilkel Shake, e tentei uns versos. É, não dá mais. Hoje minha poesia é imagem.

:: Rilke shake: Angélica de Freitas. Cosac Naify. Brasil, 2009. 72 págs. R$ 28.

xxi poetas de hoje em dia(nte)

capa_divulgacaoPoesia não é muito meu forte. Mas no passado já gostei muito – exceto das que falavam de amor. Quem me fez gostar de poesia foi Manuel Bandeira com sua Poética, a qual decorei, declamei e tatuaria o verso “não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.

Mas deixando o meu eu-lírico de lado, venho falar do eu-lírico da minha companheira de trabalho Ju Alquéres, cujo lado poeta atende pelo nome de Julia Almeida (piada interna). Dia 23 foi o lançamento da antologia XXI Poetas de hoje em dia(nte), na qual há alguns poemas da Ju – os mais interessantes diga-se de passagem.

Os poemas de Julia Almeida são como uma tatuagem: doem, rasgam, marcam e no fim, quando você acaba de ler, nota como é bonito. Julia gosta do tema dor, apesar de odiar senti-la. Por isso seus poemas tocam, tatuam. Porque ela machuca/tatua a folha de papel branco com as palavras diminuir aquela que é inevitável.

É fato: na dedicatória que Ju escreveu para mim, ela disse: “K., muito obrigada por ter vindo. É  bom ter você por peto. Espero que goste dos poemas e entre nesse mundo novo, um pouquinho diferente das artes plásticas!”. Será mesmo diferente? Olha só como esse poema da Ju é arte:

Esteia

Apota-dor
a agulha afiada espirra aquarelas
em meus glóbolos brancos

Dentrode mim
xilogravuras japonesas
pois eu sou de carne e madeira.

:: XXI Poetas de hoje em dia(nte): Aline Gallina e Priscila Lopes (org). Letras Contemporanea. Brasil, 2009. 157 págs.R$ 29.

sp-arte 2009

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Falar sobre valores com artistas não é uma tarefa fácil. A resposta será sempre a mesma: “prefiro não comentar”, “arte não tem preço”. Passei por isso recentemente em uma matéria que fiz para a Esquinas. No entanto, ontem fui à SP-Arte, principal feira de arte do país, e ali todos estavam por um único motivo: compra e venda de arte. Quer dizer, nem todos. Eu, que não tenho um puto na conta, fui só “dar uma olhadinha” mesmo.

Sabe loja de roupa, ou calçado, em que você mal pisa dentro e parecem dez vendedores loucos para vender alguma coisinha? Os stands de algumas galerias não eram diferentes. Bastava entrar para “dar uma olhadinha” numa obra e pronto! Chegavam neguinhos me dando cartões, me mostrando seus acervos e dizendo que se eu fosse artista que, por favor, aparecesse por lá.

Arte, para mim, é praticamente religião. Logo, ir a uma exposição é praticamente um ritual, um dever, como é para um católico ir à missa aos domingos. E foi uma sensação bem… estranha (?) ver imagens dos meus deuses e deusas à venda. Quanto era mesmo aquela gravura da Regina Silveira?

É arte: os desenhos do Christo que vi no stand de uma galeria espanhola. Se não fosse a SP-Arte, talvez eu nunca viria aqueles desenhos por aqui. O evento, apesar de essencialmente comercial, pode ser visto como uma grande exposição.

É fato: obra de arte é (também) uma mercadoria. Mesmo muitos não querendo ver como.Av. Paulista, 149 – Bela Vista – Centro. Telefone: 2168-1777. 3ª/6ª 10h/21h e sáb/dom 10h/19h.

:: SP-Arte - Pavilhão Bienal, Parque do Ibirapuera/ Portão 3. De 14 a 17 de maio

feriado = ficar em casa

 

 O crítico inglês Kenneth Tynan dizia que a cidade onde nasceu era um “cemitério sem muros”. E para mim, a cidade onde moro hoje (Barueri) é, com toda certeza do mundo, um “cemitério sem muros”. Então, nesses dias de feriado, que o povo todo viaja, eu decidi me esquecer em casa. Cinema ficou por conta dos filmes alugados do catálogo da locadora perto de casa: Perfume de Mulher, Paris Texas, Pulp Fiction, O Mesmo Amor, A Mesma Chuva, Obrigado por Fumar e Harry Potter & Ordem da Fênix (tá pensando o quê? Eu também curto um blockbuster).

 

 

 Entre uma sessão sofá e outra, rola uma disco. Reinvento todas as coreografias que John Travolta me ensinou nos Embalos de Sábado à Noite. E já que eu não tenho um Al Pacino para me conduzir [vídeo], enquanto limpo o quarto arrisco uns passos de tango com a vassoura, mas ao som de Gato Barbieri.

  

 

À noite antes de dormir, faço um bico como enfermeira do Chico Buarque, que chora sobre o Leite Derramado para mim.

 

 

 

 

Até que passar o feriadão sem sair de casa não é tão ruim, né?

Chico Buarque – Perfis do Rio

não achei a capa do livro com boa definição, mas essa combina com "é fato"

não achei a capa do livro com boa definição, mas essa combina com "é fato"

Eu tenho meu orientador oficial na faculdade para meu trabalho de conclusão de curso, o Celso – que é excelente, diga-se de passagem. Mas, na minha vida profissional e também pessoal, eu tenho uma orientadora particular, a Gabriela – que também é excelente, diga-se de passagem. E foi pelas mãos dela que tomei conhecimento da série Perfis do Rio, uma iniciativa da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, editado pela Relume Dumará.

Como já é de conhecimento geral da nação, estou fazendo um perfil de uma artista plástica, e para fazer um bom perfil é preciso ler perfis, claro. E, por conta disso, a Gabriela me emprestou dois perfis dessa série, o do Otto Lara Resende e o do Chico Buarque – este último foi devorado em três dias apenas nas minhas idas e vindas da faculdade.

O texto é ágil, leve, como um bom texto de revista, só que bem mais longo. Senti falta de algumas referências de levantamento de informação. Por exemplo: “disse Chico numa entrevista a uma revista”. Aí, eu me pergunto: “qual revista, quando?”. Mas acho que isso é implicância de estudante de jornalismo.

O primeiro capítulo começa assim:

“Pode fingir que eu já morri?” Chico disparou a pergunta com a cara mais séria do mundo.

Como eu queria que Regina Silveira me dissesse: “Finja que eu morri.” O mais provável, no entanto, seria ela dizer: “Cuidado, eu estou bem viva, e de olho em você.” Ela não é tão serena quanto o retrato de Chico nesse perfil. Mas, assim como o ele, é muito generosa e tem uma imaginação riquíssima — nem preciso dizer que estou aprendendo horrores estudando o trabalho dela, né?

Ainda no primeiro capítulo, Regina Zappa, jornalista e autora do perfil, explica ao artista o que é o perfil e o que precisa do cantor:

Precisava falar com pessoas próximas a ele, como a família, parceiros, amigos e companheiros de futebol e de palco. Precisava, além disso, e sobretudo, da sua disposição de falar. Portanto, precisava do artista vivo. Bem vivo.

O Chico chegou a dizer que achava ótima a idéia. Eu não ouvi isso da minha perfilada quando eu expliquei o projeto usando praticamente as mesmas palavras. Ela já até me chamou atenção sobre uma possível invasão que estaria cometendo na vida dela. O que eu não pude discordar, esse trabalho é meio invasivo mesmo. Afinal, você tem de entrevistar muitas pessoas em volta dessa personagem, acompanhar o máximo que puder a rotina dela para fazer o retrato mais próximo possível do real – mas acho que agora, depois de três encontros, ela está começando atender...

Não é uma tarefa fácil. É uma grande esforço jornalístico. Não só estou aprendendo muito sobre arte, como também sobre o fazer dessa profissão que escolhi. Entrevistar, cruzar dados  exigem muita apuração e persistência, pois as fontes, por mais gentis que sejam, não estão a sua disposição. Está sendo necessário sujar muito os sapatos.

É arte: o Chico todo, né? Não tem como dizer o contrário. Ele é um baita compositor, um baita escritor, um baita pai, um baita homem. Citando a Gabriela, again, ela sempre diz que gostaria de ter um Enrique Vila-Matas de estimação. Sem pestanejar, eu gostaria de ter um Chico Buarque de estimação.

É fato: eu ainda não superei a separação de Chico e Marieta. Não consigo não pensar em Chico sem Marieta, ou Marieta sem Chico. Isso faz a música Meu caro amigo perder o sentido. E eu gosto muito dessa musica, não mais do que Beatriz, que foi, salvo engano, feita para ela. Ah, eu fico triste, muito triste, quando penso que não estão mais juntos como marido e esposa. Então, eu finjo que são um casal para sempre! Tá, isso bem bobo, mas faz eu me sentir melhor.

::Chico Buarque – Perfis do Rio, Regina Zappa. Editora Relume Dumará, 1999, Brasil. 197 págs. Esgotado

ficções

Dizem que só achamos algo chato quando não entendemos. Logo, eu não entendo Borges. Por uma semana, sofri na leitura de Ficções. O texto é labiríntico: dá voltas e voltas e voltas e voltas e você se perde e volta ao começo e se perde de novo e quando você acha que está acertando o caminho, na verdade, você está ainda mais perdido. Mas como um bom brasileiro, você persiste e lê o conto todo. Finalmente, chega à última palavra. Então, para e pensa: “ãhn?”

No começo, eu voltava para ler tudo de novo até entender. Mas assim a leitura não rendia. Então, decidi seguir sem parar — quem sabe não melhorava com o passar das páginas. O livro só foi de fato me interessar quando cheguei na página 84 (edição da Abril Cultural, 1972). O conto A Biblioteca de babel foi o que li com mais voracidade e alegria (eu finalmente estava entendendo). Começa assim:

“O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas.”

Mas qualquer pessoa que goste de se perder nas prateleiras do universo provavelmente irá sorrir ao ler a descrição das lâmpadas desse lugar mágico: “A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas.” E sentirá mais medo dos inquisidores do que dos dementarores de Harry Potter.

Em uma passagem, Borges abre um parêntese e no fim diz:

Você, que me lê, tem certeza de entender minha linguagem?

Não resisti e respondi: “nos outros, não! Mas nesse acho que falamos a mesma língua!” 

 

Gostei também de O jardim de caminhos que se bifurcam – me prendeu do início ao fim. Agora, em todo labirinto que vejo, tento seguir a dica de dobrar à esquerda para ver se vai parar mesmo no pátio central. Do resto, no entanto, confesso que não guardo muita lembrança. Acho que minha ansiedade, em nível avançado no momento, somada ao  nervosismo daquele assunto, já muito gasto por aqui, não combinam com a leitura de uma obra de Borges. Ficções volta para a prateleira com o aviso: “Volte daqui a 10 anos, e sem pressa!”

 

É arte: uma frase de efeito de Funes, o memorioso: “Dormir é distrair-se do mundo”. É uma boa para colocar no msn às vezes, não acha?

É fato: pra quem for se aventurar na leitura de Ficções, talvez, seja interessante levar esse Guia. Pena que eu só descobri quando fui escrever esse post.

:: Ficções, de Jorge Luís Borges. 1941. Cia das letras. Contos. 176 págs. R$ 34

reforma ortográfica

Eu já estou cansada de ouvir pessoas chorando por terem de se despedir dos acentos, especialmente, do trema. “Ai, estou viúva do trema!” — juro que já ouvi isso. Mas eu não reclamo, não. Acho que toda simplificação é bem-vinda. Algumas já me disseram que nunca mais vão  conseguir pronunciar corretamente tranqüilo (agora tranquilo), idéia (ideia), averigúe (averigue). Gente, por favor, menos drama. Na reforma de 1971 caíram vários acentos e pronúnciamos todas as palavras direitinho: este (êste), somente (sómente), bebezinho (bebêzinho). Me diz, se nós, que já fomos alfabetizados sem esses acentos, sentimos falta deles? Nenhum pouco!

No começo, eu achei ruim acabar com os acentos diferencias: pára/para e pêlo/pelo, por exemplo. Mas agora eu já me acostumei. Afinal, são colocados em contextos bem diferentes. Eu só ainda não consegui entender muito bem a história dos hífens, mas eu tenho até 2012 para me adaptar. Logo, desculpe qualquer escoregão. Agora, de resto, acho que adaptação será rápida, pois eu não tenho qualquer apego com acentos.

Ah, essa reforma só me deixa triste por uma coisa: eu não queria me separar do meu mini-dicionário Aurélio que me acompanha desde que fui alfabetizada, snif…

receita de ano novo

receita-de-ano-novo

 

 

 

Desejar Feliz Natal e venturoso Ano Novo pode ser um hábito bobo, mas ainda assim bole com o coração da gente.

 

 

 

 

 

Neste ano, não mandei um “Feliz Natal”, mas recebi um do meu querido amigo Bruno, que, mesmo na  naquela piegas linguagem de boa-festas, boliu com o meu coração.

Não mandei porque acho que todo esse espírito natalino perdeu um pouco do sentido que tinha na infância. E sendo assim, por que enviar essas mensagens para pessoas queridas? Me sentiria falsa.

Bem, pensava assim até o dia 26, quando chegou um livrinho fofo que ganhei numa promoção do blog da Larissa. (Detalhe: eu nunca tinha ganhado nem par-ou-ímpar no pega-pega.) Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade, me fez  refletir sobre as comemorações do mês de dezembro. O livro tem poemas delicados, bonitinhos, engraçados, amargos, como rimas ricas, pobres e brancas; todos a respeito dos temas recorrentes de fim de ano: papai noel, ano novo, natal, promessas… na sublime visão drummondiana.

Não que eu tenha mudado de opinião, continuo achando todo esse “espírito natalino” uma hipocrísia, mas ler os poemas do Drummond, nessa época do ano, dá uma mexidinha dentro da gente e vontade de mandar um versinho diferente para cada pessoa  que dá sentido a nossa vida nos outros 363 dias.

O artefato.k deseja a todos os seus leitores CALMA! (em dose tripla para a pessoa que escreve esse blog, rs)

Cheguei ao ponto construtivo destas considerações. João Brandão, que às vezes é modelo de sabedoria relativa (a absoluta consiste em deixar a fantasia agir), contou-me que todo ano recebe um cartão nesses termos: ‘CALMA, RAPAZ.’
“‘E quem é que te manda este cartão?’, perguntei-lhe. ‘Eu mesmo. Entro na fila, compro o selo, boto na caixa. Porque se eu não fizer isso, ninguém o fará por mim. Ao receber a mensagem, considero-a mandada por amigo vigilante e discreto, e faço fé na recomendação, que eu não saberia me impor, diante do espelho.’ Pausa e continuação: ‘Tem me ajudado muito. Você já reparou que ninguém recomenda calma a ninguém, na época de desejar coisas? Deseja-se prosperidade, paz, amor, isso e aquilo (‘Tudo de bom pra você’), mas todos se esquecem de desejar calma para saborear esse tudo de bom, se por milagre ele acontecer, e principalmente o nada de bom, que às vezes acontece em lugar dele. Como você está vendo, não chega a ser um voto que eu dirijo a mim próprio, pelo correio. É uma vacina’.

Carlos Drummond de Andrade

 

É arte: as ilustrações de Mariana Massarini, que parecem ter saído direto dos livrinhos infantis.
É fato: ensaio uma entrevista com Drummond (assim como entrevistei Quintana e Bandeira). Na apuração, achei esse vídeo do poeta falando de si e de seu trabalho. Vale a pena pra quem quer conhecê-lo melhor.

 

 

:: Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade. 2008. Editora record. 128 págs. R$ 18,00.

fama & anonimato

 Regina Silveira está resfriada.cia_letras_fama

Essa notícia me fez, na hora, lembrar do livro Fama & Anonimato, que li assim que entrei na faculdade. O livro é uma coletânea de matérias/perfis do super jornalista, pai do New Journalism, Gay Talese. Dentre essas(es), está o perfil conhecidíssimo d’A Voz: Frank Sinatra está resfriado.

O texto e a apuração de Talese são de realmente tirar o chapéu. Ele faz um retrato tão detalhado de Sinatra que parece ter sido amigo íntimo do cantor durante anos, quando na verdade nem o entrevistou. Às vezes fico pensando se isso também não seria interessante no caso do meu trabalho. Visto que já entrevistei assistentes, ex-alunos, cinegrafista da artista e críticos de arte. Mas aí, perderia a lógica de ter escolhido um artista que estivesse vivo para contrariar a idéia burra, porém predominante, de que artista plástico só é reconhecido depois de morto. E outra, eu quero, e muito, entrevistar Regina Silveira, ter as minhas impressões mais reais possíveis sobre a artista e confirmar dados que levantei. Faz parte do processo. No apêndice, há o texto Como não entrevistar Frank Sinatra, em que o jornalista conta os bastidores do famoso perfil. Talese revela o horror que tem do gravador e dá a dica para conseguir anotar literalmente as aspas que considera ótimas:

É então que saco o meu caderno de anotações e digo “Mas isso é uma maravilha! Deixe-me anotar exatamente como vc disse?”

Bem, eu não uso essa tática e uso o “ouvido mecânico” — assim que Talese se refere ao gravador. Segundo ele, muitos, que usam o aparelho, desencanam do que o entrevistado está falando. Afinal, basta ouvir a fitinha depois. Mas eu prefiro “pensar” como Regina Silveira, a tecnologia está aí para fazermos uso dela. É um meio, não o fim. Gravo, sim, mas para me sentir mais segura quanto às aspas e observar bem o entrevistado enquanto fala, como gesticula, suas expressões. E tomo notas também durante a entrevista, para não esquecer de perguntar questões que surgem no decorrer. Enfim, não sei qual é melhor método. Provavelmente o dele, afinal, já se consagrou. Enquanto isso, como disse Humberto Werneck, eu sigo sujando os sapatos — um deles até já arrebentou.

É arte: os outros perfis de Fama & Anonimato. Não deixe de ler O perdedor, e toda parte II - A Ponte, que conta a história da construção da ponte do Brooklyn.

É fato: eu não sei exatamente quando Gay Talese escreveu o apêndice, mas ali ele já apontava o que estamos vivendo diariamente: o sucateamento do jornalismo.

 :: Fama & Anonimato, de Gay Talese. 2004.  Companhia das Letras – Jornalismo Literário. 536 págs. R$ 65,00.

os melhores contos de loucura

contosdeloucura

Com o fim do ano, fim de aula, inferno astral (eu não acreditava, mas eu não tenho outra explicação para os acontecimentos do mês de novembro), começo de TCC e outras cositas más. Eu pensei que ficaria doida. Mas acho que está tudo ok – ainda não rasguei dinheiro, pelo menos. Porém, mesmo estando lúcida, o tema loucura me atrai muito. Tanto que nas férias escolares de julho de 2007, eu li Os melhores contos de loucuras, organizado pelo Flávio Moreira da Costa.

Hoje, um ano e meio depois, peguei o livro na estante para escrever esse post, aí sim, quase fiquei louca. Dos 36 contos, eu me lembro com clareza de no máximo DEZ! Do resto eu tenho uma vaga lembrança. Contudo, eu me recordo direitinho da angústia e da depressão que senti ao ler alguns contos, e como fiquei perturbada ao terminar o livro.

Os contos estão divididos em Loucura e cotidiano, drogas, clínica e testemunho. Antes de cada um, há uma boa explicação de Flávio sobre o autor, o conto e o porquê da escolha. Um dos poucos que ainda permanece vivo na memória é Por dentro de um espelho, de Valeiéri Briússov. Talvez a explicação de esse ter sobrevivido seja o tema envolvido na loucura: o espelho. Uma mulher apaixonada por espelhos, um dia acaba trocando de lugar com o seu reflexo, e passa morar dentro dele. Desde pequena, sempre tive a curiosidade de saber como é o mundo do lado de lá do reflexo. 

Outro que também me causou impacto, mas ao mesmo tempo me enterneceu, foi Véra, de Villiers de L’Isle-Adam. Um velho conde extremamente apaixonado por sua mulher tenta negar a morte dela, e passa a viver com a defunta, tendo fé de que, um dia, ela ressuscite. E, por fim, as duas cartas de Van Gogh a Théo. A correspondência com o irmão revela um pouco do cotidiano do artista no hospício, pedidos de tintas e uma frase que… Enfim… Seria a primeira se eu fizesse um dia um livro de citações como Eduardo Gianetti.

Infelizmente tenho uma profissão que não conheço bem o bastante para me exprimir como gostaria.

Imaginem se ele conhecesse bem…

 

É arte: a selção de Flávio Moreira da Costa. Há texto de Tchekhov, Gogol, Pirandello, Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Machado de Assis.

É fato: o número de paranóicos está aumentando, segundo a matéria que li no site d’O Estado dias atrás.

 

:: Os melhores contos de loucura, de Flávio Moreira da Costa (org). 2007. Ediouro. 400 págs. R$ 49,90.