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Archive for the ‘neuroses de tcc’ Category

cildo

Não achei o trailer do documentário no youtube. Segue um trecho de um outro doc feito sobre Cildo Meireles só para quem não o conhece ter noção de quem estou falando.

 

É muito difícil fazer um documentário sobre artes plásticas, me contou um amigo, que aula para o curso de rádio e tv na Cásper. Porque se presume que trabalhos plásticos, com exceção de performances e vídeo-arte, sejam estáticos; e um filme precisa de movimento. Mas essa dificuldade a equipe dirigida por Gustavo Rosa de Moura tirou de letra no documentário Cildo, sobre o artista plástico Cildo Meireles.

 

Os recursos áudio-visuais foram muito bem utilizados, um casamento perfeito entre depoimentos do artista e imagens de suas obras. Como público comum eu gostei muito, muito, muito. Mas como jornalista, que está fazendo um perfil de uma outra grande artista, senti falta de outras vozes falando sobre o trabalho de Cildo, ou sobre ele. Por exemplo, eles mostram várias outras pessoas que trabalham com o artista, mas não colhem um depoimento. Sabe quando você sente falta de uma outra visão sobre o mesmo fato? Mas também é uma questão de proposta e estilo. O que não desmerece de forma alguma o documentário, vale a muito a pena ver – mesmo quem não gosta muito de arte. Eu mesma quero ver de novo, de preferência em uma noite mais tranquila [entenda lendo Batidores abaixo].

 

É arte: a iniciativa de se fazer documentários dentro do tema das artes plásticas e divulgar um pouco mais nossos artistas.

É fato: Cildo Meireles tem toda razão quando diz que é preciso estudar muito para falar de obras de uma artista conceitual. Eu sinto isso na pele, no sono, nas mãos, no grau dos óculos que aumenta, nas conversas com os mais próximos. Já me tornei um ser totalmente monotemático, vide por esse blog.

 

:: Cildo. Brasil, 2009. Direção: Gustavo Rosa de Moura . Documentário. 84 min.

 

[Bastidores]

 

Antes mesmo do festival É tudo verdade começar, eu combinei com a Tainá de ver o documentário sobre Cildo Meireles. Quarta-feira, eu não falava de outra coisa a não ser sobre o tal doc. A vontade era tanta, que eu fiz a Tainá chegar duas horas antes comigo para pegarmos os ingressos. Vai que tivesse uma imensa fila e eu ficasse de fora: NUNCA.

Ok. Duas horas antes foi um exagero, mas conseguimos os tickets. Na fila para entrar, tô no maior papo com a Tainá, quando, por um momento, viro o rosto e adivinha quem eu vejo? Sim, você acertou: Regina Silveira.

Tive a impressão que ela olhava para mim, porque, quando eu me virei, eu dei de cara com ela. Medo! Fiquei pelo menos uns dez minutos no dilema: “vou cumprimentar, não vou. Vou, não vou?” Quando eu me conscientizei que deveria ir, ela mesmo veio. Calma, não ao meu encontro, claro. Mas ela teria de passar por mim para entrar primeiro na sessão (no CineSesc pessoas acima de 65 anos, independentemente de serem artistas hiperativos, entram primeiro). Aí, nos cumprimentamos: dois beijinhos como de costume no Rio Grande do Sul… E não adianta ficar expectativa porque foi só isso. Quer dizer, para vocês, para mim, foi tudo isso.

o paradoxo do santo, regina silveira

paradoxo-copy

Nem o Abaporu mexeu tanto comigo. Se hoje eu vivo a neurose do tcc, boa parte da a culpa é dessa obra.

:: O Mundo Sem Molduras: Rua da Reitoria, 160 – Cidade Universitária. Tel, 11 3091.3039. 3ª/sáb. 10h/18h e dom16h/16h. A partir 26/03.

É arte: poder rever o mesmo trabalho, que aos 15 anos me fez ficar enlouquecida, e sentir uma emoção extremamente forte, como reencontrar um amigo que não via há anos.

É fato: eu nunca fui tão jornalista quanto estou sendo nesses últimos meses. É nessas horas que eu percebo que nasci para coisa, mas para falar de arte, claro!

tropel (reversed) regina silveira and the great attic

rs_tropel1

Ouço falar dessa exposição desde dezembro, quando entrevistei os assistentes da Regina e estava engatinhando nessa saga do tcc. Confesso que quando vi uma maquete de papelão (?) da obra, no ateliê, não curti muito, ou melhor, não me causava o mesmo impacto que os rascunhos de outros trabalhos, na mesa da artista, me causaram. Mas vendo agora as fotos, senti vontade de exclamar: PQP! E fico imaginando o impacto que Tropel deve causar ao vivo. Ai que vontade de voar para Koge…

Regina é a primeira artista a ocupar o espaço de 500m² do piso superior anexo aos antigos prédios do Kunstmuseet Koge Skitsesamling, o único museu da Dinamarca dedicado à arte em áreas públicas.  A mostra também conta com croquis, peças e filmes sobre a extensa carreira da artista, exibindo projetos com intervenções na arquitetura e nos ambientes urbanos.

É arte: a catarse provocada pelos trabalhos de RS.Veio-me agora à cabeça mudar o título do meu trabalho: “Regina Silveira, a artista catártica”, o que acham?

É fato: há mais de quinze dias sofro para escrever os primeiros 30 mil caracteres do primeiro capítulo do  tcc, que eu descobri, na última sexta, que pode ser aumentado para 50! Isso que dá passar os quatro anos de faculdade escrevendo, no máximo, três mil. Contrariando Drummond, escrever não está sendo cortar.

:: Tropel (reversed) Regina Silveira and the Great Attic,  Kunstmuseet Koge Skitsesamling. Koge - Dinamarca. De 07 de março até 09 de agosto.

nova arte nova

nova_arte_nova

Sabe qual é o problema de você começar a estudar a obra de uma grande artista? Você passa a procurar as mesmas qualidades, ou melhor, a mesma consistência em outros artistas – e se decepciona, claro. Você espera que todos tenham uma grande idéia por trás de cada trabalho, haja um zelo no fazer… Enfim, essas coisas que você encontra no trabalho da Regina Silveira, por exemplo.

E, a procura de novos artistas, eu fui ver o tal panorama de arte contemporânea no CCBB, Nova Arte Nova. Mas de novo e de coisa boa nova, ali, deu para contar nos dedos de uma mão. Mas não que os artistas não fossem bons, talvez eles até sejam, mas as obras estão fora do contexto. O que (eu acho) demonstra uma falha na curadoria de Paulo Venâncio Filho. Por exemplo, a geringonça barulhenta de Mariana Manhães (RJ), Liquescente. Exposta no meio de quadros e outras “obras de parede” o trabalho da artista parece apenas uma escultura barulhenta. Quando foi mostrada, porém, no Itaú Cultural, na mostra Futuro do Presente, ao lado de outras “máquinas-obras”, o trabalho dela parecia ter mais sentido. Outro trabalho que parece estar desconexo da mostra é o de Felipe Barbosa – várias casinhas de pombos, com as quais ele homenageia Volpi. Encostado na parede, próximo da passagem que leva para os outros andares, dá a impressão de ser apenas uma peça esquecida num canto — passa quase despercebido.

O que falta, na verdade é uma lógica da exposição, os trabalho estarem ligados por uma linha: por que eles estão ali? Só por que são artistas jovens? É muita pretensão falar que ali esta um panorama da nova arte contemporânea, sendo que falta muito, pra não dizer tudo, de uma vanguarda (será que posso dizer assim?) “super nova” da arte: a “arte digital”. A visita, talvez, valha a pena para quem quer se enfronhar nesse mundo e conhecer alguns dos jovens artistas que serão manchetes nos jornais de amanhã. Mas não ache que isso é o suficiente e, saindo de lá, você terá uma boa noção do que há de novo nas artes contemporâneas brasileiras. As exposições do Itaú Cultural sempre trazem ótimos artistas contemporâneos que estão despontando, as galerias de arte sempre fazem exposições com o que têm de melhor, sem contar as bienais, feiras de arte e outras mostras coletivas que existem por aí. Não adianta, pra conhecer o mínimo das artes visuais no Brasil tem que fazer como um bom jornalista, sujar os sapatos.

É arte: os trabalhos de Marcius Galan (SP) e Marcelo Silveira (PE). O primeiro brinca com o nosso olhar e sentidos com a Seção Diagonal, em que cria a simulação de um vidro — eu mesma passei a mão onde existiria o tal vidro várias vezes. O segundo traz a beleza. Respeitando as formas originais dos pedaços de madeira que encontra, M. S. poliu a matéria prima até ficar bem lisa as colocou em suportes de vidros, que também respeitam suas formas. Ninguém terá duvida que vidro e madeira são materiais que combinam.

obra de marcius galan

obra de marcius galan

obra de marcelo silveira

obra de marcelo silveira

É fato: falta conteúdo nas legendas. Não há o ano que as obras foram feitas nem a cidade ou estado que dos quais os artistas são. Da onde vem e de quando é a nossa arte nova? Eu não lembro de ter visto o ano das obras, idade dos artistas, nem a procedência dos mesmo. Apenas a galeria de cada um. Mas Bruno Teixeira afirma, nos comentários abaixo, que havia, sim, o ano das obras. Feita a retratação.

:: Nova arte nova: Centro Centro Cultural Banco do Brasil, R. Álvares Penteado, 112 – Centro. Telefone: 3113-3651. 3ª/dom 10h/20h. Grátis. Até 05 de Abril.

Chico Buarque – Perfis do Rio

não achei a capa do livro com boa definição, mas essa combina com "é fato"

não achei a capa do livro com boa definição, mas essa combina com "é fato"

Eu tenho meu orientador oficial na faculdade para meu trabalho de conclusão de curso, o Celso – que é excelente, diga-se de passagem. Mas, na minha vida profissional e também pessoal, eu tenho uma orientadora particular, a Gabriela – que também é excelente, diga-se de passagem. E foi pelas mãos dela que tomei conhecimento da série Perfis do Rio, uma iniciativa da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, editado pela Relume Dumará.

Como já é de conhecimento geral da nação, estou fazendo um perfil de uma artista plástica, e para fazer um bom perfil é preciso ler perfis, claro. E, por conta disso, a Gabriela me emprestou dois perfis dessa série, o do Otto Lara Resende e o do Chico Buarque – este último foi devorado em três dias apenas nas minhas idas e vindas da faculdade.

O texto é ágil, leve, como um bom texto de revista, só que bem mais longo. Senti falta de algumas referências de levantamento de informação. Por exemplo: “disse Chico numa entrevista a uma revista”. Aí, eu me pergunto: “qual revista, quando?”. Mas acho que isso é implicância de estudante de jornalismo.

O primeiro capítulo começa assim:

“Pode fingir que eu já morri?” Chico disparou a pergunta com a cara mais séria do mundo.

Como eu queria que Regina Silveira me dissesse: “Finja que eu morri.” O mais provável, no entanto, seria ela dizer: “Cuidado, eu estou bem viva, e de olho em você.” Ela não é tão serena quanto o retrato de Chico nesse perfil. Mas, assim como o ele, é muito generosa e tem uma imaginação riquíssima — nem preciso dizer que estou aprendendo horrores estudando o trabalho dela, né?

Ainda no primeiro capítulo, Regina Zappa, jornalista e autora do perfil, explica ao artista o que é o perfil e o que precisa do cantor:

Precisava falar com pessoas próximas a ele, como a família, parceiros, amigos e companheiros de futebol e de palco. Precisava, além disso, e sobretudo, da sua disposição de falar. Portanto, precisava do artista vivo. Bem vivo.

O Chico chegou a dizer que achava ótima a idéia. Eu não ouvi isso da minha perfilada quando eu expliquei o projeto usando praticamente as mesmas palavras. Ela já até me chamou atenção sobre uma possível invasão que estaria cometendo na vida dela. O que eu não pude discordar, esse trabalho é meio invasivo mesmo. Afinal, você tem de entrevistar muitas pessoas em volta dessa personagem, acompanhar o máximo que puder a rotina dela para fazer o retrato mais próximo possível do real – mas acho que agora, depois de três encontros, ela está começando atender...

Não é uma tarefa fácil. É uma grande esforço jornalístico. Não só estou aprendendo muito sobre arte, como também sobre o fazer dessa profissão que escolhi. Entrevistar, cruzar dados  exigem muita apuração e persistência, pois as fontes, por mais gentis que sejam, não estão a sua disposição. Está sendo necessário sujar muito os sapatos.

É arte: o Chico todo, né? Não tem como dizer o contrário. Ele é um baita compositor, um baita escritor, um baita pai, um baita homem. Citando a Gabriela, again, ela sempre diz que gostaria de ter um Enrique Vila-Matas de estimação. Sem pestanejar, eu gostaria de ter um Chico Buarque de estimação.

É fato: eu ainda não superei a separação de Chico e Marieta. Não consigo não pensar em Chico sem Marieta, ou Marieta sem Chico. Isso faz a música Meu caro amigo perder o sentido. E eu gosto muito dessa musica, não mais do que Beatriz, que foi, salvo engano, feita para ela. Ah, eu fico triste, muito triste, quando penso que não estão mais juntos como marido e esposa. Então, eu finjo que são um casal para sempre! Tá, isso bem bobo, mas faz eu me sentir melhor.

::Chico Buarque – Perfis do Rio, Regina Zappa. Editora Relume Dumará, 1999, Brasil. 197 págs. Esgotado

nova categoria: neurose do tcc

Demorou, mas foi criada! Taí, pra todos que desejam acompanhar as minhas neuroses tccísticas. Vale lembrar que isso não é o Memorial (diário de bordo que temos de entregar junto com o trabalho de conclusão de curso). Nessa categoria há apenas posts em que, por ventura, cito essa constante pauta da minha vida.

Categoriasneuroses de tcc

não sobre o amor

sutil2

19h30. Cai uma chuva fina incessante. Todos estão acompanhados de seus guarda-chuvas. O Teatro do Sesi recebe o público para uma mais uma sessão da temporada de comemoração dos 15 anos da Sutil Cia de Teatro.

20h15. Leonardo Medeiros se posiciona no cenário de Daniela Thomas para viver Victor Shklovsky, ou melhor, as cartas do escritor russo para Alya (que na vida real era a escritora franco-russa Elsa Triolet), vivida por Simone Spoladore.

Alya pede para Victor que não escreva sobre amor nas cartas enviadas para ela. Ele tenta, mas em todas há uma ironia e uma cobrança contrapondo sempre a idéia de amor da escritora: o amor é um sentimento leve. Todas as cartas do escritor russo são como a frase que abre a peça:

“Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo; a ironia devora as palavras.”

Ele realmente não consegue. O amor de Victor é pesado, doloroso; acho que até poderia dizer obsessivo e doentio. Daqueles que fazem mal, daqueles que só servem para escritores se encherem de tristezas para escreverem romances ao estilo de Amor de perdição. Para Alya, o que Victor ama, de verdade, é dizer o quanto, o quanto, o quanto a ama. Mas no terceiro quanto ela já está pensando em outra coisa, relata Alya em uma das cartas.

“Todas as cartas de amor são rídiculas”, já disse F. Pessoa. E o ator Leonardo Medeiros consegue passar esse ar de rídiculo-apaixonado-sofrido para sua personagem, mas com muita classe — devo ressaltar. Sobre a atuação de Simone Spoladore, ainda não sei o que dizer. Sinto que ela ainda não encontrou Alya. Mas, ao mesmo tempo, Não sobre o amor é um tipo de peça em que o texto (a palavra) é muito mais importante do que do que o ator. As protagonistas ali são as cartas, e não os escritores.

O cenário [leia É arte abaixo] e a iluminação, de Beto Bel, também ajudam, de certo modo, a apagar um pouco a atuação. O jogo de luz e as projeções, tão bem-utilizados, fazem o cenário se desdobrar. De uma plasticidade in-crí-vel.  Desculpem tocar novamente nesse assunto, já gasto por aqui, mas fiquei tão impressionada com a perfeição das  projeções e  dos efeitos de  luz – que desenham sombras no ambiente –, que foi impossível não me lembrar dos trabalhos de Regina Silveira.  

 

É arte: novamente o cenário de Daniela Thomas, que parece ter saído direto de um quadro de Magritte.  Quando estamos apaixonados tudo parece estar meio fora do lugar, a vida ganha uma outra ordem. E o cenário reflete esse sentimento tão… complexo? Essa ordem totalmente absurda dos móveis dá mais força ao texto. Como se aquele “absurdo” fosse a real ordem de tudo.

É fato: algumas cenas de tão ensaiadas transparecem uma artificialidade. O subir e descer de um móvel para outro, os passos, tudo tem ar de algo que foi extremamente calculado. Combina, no entanto, com o artificilismo das cartas de Victor Shklovsky. 

:: Não sobre o amor, Peça de Câmara de Felipe Hirsch e Murilo Hauser sobre a obra se Victor Shklovsky, Elsa Triolet,Wladimir Maiakovski E Lilia Brik. Drama. Direção: Felipe Hirsch. 80 min. Teatro do Sesi (Av. Paulista, 903, São Paulo, tel. (11) 3146-7439). 4ª/5ª e sáb. âs 20h (* Dia 20/02 – começará às 21h). R$ 10. Até 22/03.

ficções

Dizem que só achamos algo chato quando não entendemos. Logo, eu não entendo Borges. Por uma semana, sofri na leitura de Ficções. O texto é labiríntico: dá voltas e voltas e voltas e voltas e você se perde e volta ao começo e se perde de novo e quando você acha que está acertando o caminho, na verdade, você está ainda mais perdido. Mas como um bom brasileiro, você persiste e lê o conto todo. Finalmente, chega à última palavra. Então, para e pensa: “ãhn?”

No começo, eu voltava para ler tudo de novo até entender. Mas assim a leitura não rendia. Então, decidi seguir sem parar — quem sabe não melhorava com o passar das páginas. O livro só foi de fato me interessar quando cheguei na página 84 (edição da Abril Cultural, 1972). O conto A Biblioteca de babel foi o que li com mais voracidade e alegria (eu finalmente estava entendendo). Começa assim:

“O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas.”

Mas qualquer pessoa que goste de se perder nas prateleiras do universo provavelmente irá sorrir ao ler a descrição das lâmpadas desse lugar mágico: “A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas.” E sentirá mais medo dos inquisidores do que dos dementarores de Harry Potter.

Em uma passagem, Borges abre um parêntese e no fim diz:

Você, que me lê, tem certeza de entender minha linguagem?

Não resisti e respondi: “nos outros, não! Mas nesse acho que falamos a mesma língua!” 

 

Gostei também de O jardim de caminhos que se bifurcam – me prendeu do início ao fim. Agora, em todo labirinto que vejo, tento seguir a dica de dobrar à esquerda para ver se vai parar mesmo no pátio central. Do resto, no entanto, confesso que não guardo muita lembrança. Acho que minha ansiedade, em nível avançado no momento, somada ao  nervosismo daquele assunto, já muito gasto por aqui, não combinam com a leitura de uma obra de Borges. Ficções volta para a prateleira com o aviso: “Volte daqui a 10 anos, e sem pressa!”

 

É arte: uma frase de efeito de Funes, o memorioso: “Dormir é distrair-se do mundo”. É uma boa para colocar no msn às vezes, não acha?

É fato: pra quem for se aventurar na leitura de Ficções, talvez, seja interessante levar esse Guia. Pena que eu só descobri quando fui escrever esse post.

:: Ficções, de Jorge Luís Borges. 1941. Cia das letras. Contos. 176 págs. R$ 34

rogério rochlitz – cores

Eu sei que todos já estão cansados de me ouvir falar na sigla tcc. Mas as descobertas são sempre tão boas que sinto vontade de compartilhar com todos. Por exemplo, o cd Cores, de Rogério Rochlitz, o qual ele me deu porque  a capa foi ilustrada por Regina Silveira. Rogério é músico e já fez a trilha de alguns trabalho da artista,  como Lunar e Mil e um dias, por isso o entrevistei. Além da entrevista ter sido produtiva, o cd foi um ótimo presente.

Nunca fui muito fã de música instrumental, mas desde que o Yann Tiersen apareceu na minha vida, gosto cada vez de ouvir só as vozes dos intrumentos e outras experimentações de som. Cores tem algo do Hermeto Pascoal, da valsa de Tom e das Bachianas de Villa-Lobos — especialmente em Filarmônica Chipônia. E não teve como não lembrar do chorinho Atraente e dos maxixes de Chiquinha Gonzaga quando ouvi Mashish.

Cores é daqueles cds de que você gosta da primeira a última faixa e coloca no repeat para ouvir tudo de novo várias vezes seguidas.

É arte: e eu não diria o contrário, a capa do cd ilustrada por Regina Silveira [abaixo]. Detalhe: a silhueta é a mão da própria artista.

rogeriorochlitz-cores

É fato: eu acho Cores um trabalho mais maduro do que Carro de Boy (disponível para download), lançado em 2004. Gostei muito de Mendocina Uno, que tem uma pegada mais romântica de filmes da década de 40, mas o que predomina no cd são composições de influência nordestina.

:: Cores, de Rogério Rochlitz. 2008. Instrumental. S/Preço

maysa – quando fala o coração [nove capítulos depois]

Eu gostei muito da primeira semana da minissérie. Mas tenho de confessar que, na segunda, eu não tive muita paciência. Primeiro, aquele horário mais sem pé nem cabeça. Segundo, virou totalmente um trabalho feito de filho pra mãe. (O Jayme Monjardim precisa consultar um terapeuta urgente.) A minissérie não era sobre a Maysa? Pra quê tantas cenas do Jayminho chorando pela mãe? Bem que eu desconfiava que viraria um melodrama.

Eu não sei como a Maysa era, mas, pela versão televisiva, ela parecia ser mais uma pessoa mimada do que dona de uma personalidade forte. E acho que o JM não superou a separação dos pais. Ou será que alguém comprou aquela idéia de que, apesar de tantos outros amores, ela continuou apaixonada pelo André Matarazzo?

Esse fim de semana, depois de ver inteirinho o melodrama, li uma crítica do Lira Neto enviada pela Gabriela, que leu a biografia da cantora e concordava em gênero, número e grau com que o autor de Maysa: Só numa Multidão de Amores (editora Globo, 2007) dizia, e  um trecho diz assim:

Por vezes, há a tentativa de idealizar certos personagens e amenizar as asperezas da vida real. Como quando se coloca André Matarazzo sentado candidamente na plateia da cerimônia de entrega de um prêmio concedido a ex-mulher. Ele não estava lá.
Nas cenas da histórica temporada de Maysa em Buenos Aires ao lado de Bôscoli, Roberto Menescal e o célebre Tamba Trio, ela surge cantando bolerões rasgados. Uma pena. A minissérie sonegou assim ao telespectador a informação de que, justamente naquela viagem, Maysa se tornou a primeira cantora brasileira a cantar um repertório de bossa nova fora do Brasil.

Ruim, né? Claro, devemos tirar o chapéu para a produção. Mas a Globo também sempre arrasa em suas produções. Acho que o problema foi sentimental mesmo. A Maysa que estava ali era a Maysa mãe de um filho ressentido. Esses deslizes acontecem quando há um envolvimento muito grande com a personagem. Erros históricos, no entanto, são imperdoáveis, eu acho. Faltou um cuidado, ou melhor, uma falta de respeito com o público. Eu mesma compraria tudo que foi dito se não fossem as conversar com a Gabriela ao final de cada capítulo da primeira semana, nas quais ela me contava as fofocas desse universo. Por exemplo, a noiva de Ronaldo Bôscoli não era Beta nenhuma, e sim, a Nara Leão, que ficou sabendo do envolvimento dele com a Maysa pelos jornais.

Falar de alguém é muito complicado, ficar isento é complicado. A proposta do meu TCC, como já citei aqui várias vezes, é o perfil de uma artista plástica pela qual tenho profunda admiração, e ao redigir a primeira página sofri à beça com essa história de manter a isenção. O que, de fato, o JM não conseguiu. Mas a arte das músicas da mãe, dos cenários e figurinos e a espantosa semelhança de Larissa Maciel encantaram muita gente.