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Archive for the ‘palavra dos outros’ Category

maysa: estudos [pra quem perdeu]

Só hoje, mais de 40 pessoas entraram nesse blog procurando pelo programa exibido ontem, na TV Cultura, Maysa: Estudos. Então, segue um vídeo com um pedacinho do programa.

E chega de Maysa por aqui!

maysa: estudos

Pra quem acompanhou a minissérie e está curioso para saber quem foi a Maysa de verdade, terá a oportunidade hoje (22/01/2009) às 22h10 na TV Cultura.

A TV Cultura homenageia a cantora Maysa e leva ao ar o último programa de TV que contou com a participação da estrela da música brasileira. Produzido por Antônio Abujamra e Dorival Dellias, em 1975, “Maysa Estudos” foi remasterizado recentemente e será exibido no mesmo dia em que se completam 32 anos da morte da cantora.   

Nesta produção, Maysa fala sobre sua vida, amores, fuga, processo de criação e carreira. Ela também canta a capela ao lado de um dos maiores músicos do Brasil, Paulo Moura. Ainda jovem, ele já era o gênio do saxofone e clarinete que o tempo consagrou.

Antônio Abujamra se recorda que, durante o programa, Maysa, apaixonada por Edith Piaf, ficava ouvindo num minúsculo gravador a cantora francesa. Além disso, segundo Abujamra, ao final do programa, Maysa estava completamente bêbada e caiu no centro do estúdio, fora do cenário. “Quiseram levá-la, mas eu disse que não. Mudei a luz na hora, os cabos das câmeras todos aparecendo”, relembra.

Quanto à exibição do programa na década de 70, Abujamra conta que “Helena Silveira, uma escritora maravilhosa que era crítica na época, considerou o melhor programa do ano e disse que era um corpo a corpo sensacional entre eu e Maysa, e que o empate fez com que ganhássemos o prêmio de melhor do ano”.

Durante o programa, Maysa canta músicas de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, além, é claro, de suas composições que marcaram época. No repertório, Preciso Aprender a Ser Só; Meu Mundo Caiu; Por Causa de Você; Se Todos Fossem Iguais a Você; Ouça; Dindi; Resposta

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PS — Esse foi o 100º post desse blog!

Ars Dolem Ars (Arte, dolorosa Arte)

Não sei se todo mundo faz isso. Mas toda vez que eu entro num blog, sempre vasculho a lista links do blogueiro. E foi assim que eu conheci Mistral Gagnant, e virei leitora das reflexões de Anna (que até inspirou uma troca de textos, com alguns amigos, sobre um possível passeio por nossas cabeças). Na quinta-feira, um post do Mistral Gagnant pautou novamente uma conversa com uma amiga, a Tainá, que comentou sobre um texto publicado nesse blog sobre arte. E, assim como a Tainá compartilhou o texto comigo, eu quero compartilhá-lo com vocês:
  
Ars Dolem Ars (Arte, dolorosa Arte)
 
Pergunta que ouvi no café hoje: “Mas é preciso sempre sofrer pela arte?”

Sinceramente?

Sim. Senão não é arte, é hobby.

Veja você: bailarinos criam joanetes e calos que sangram.

Tenistas tem tendinites horríveis nos ombros. Para não falarmos dos fundistas, dos jogadores de vôlei ou dos goleiros, cujas articulações sempre ficam por um fio (ou meio).

Escritores não dormem se não acham a palavra perfeita. E também sofrem horrores com tendinite e vista cansada, ainda por cima.

Para produzir algo que vai além de si mesmo, além do ir-e-vir cotidiano, dói. Ou dói no osso ou dói na alma. Se for fácil demais, tem alguma coisa errada na figura.

Por isso que muita gente se diz artista, mas pouca gente é mesmo artista. Porque ninguém deseja se auto-infligir dor. Mas só quem sabe – aqueles que amam o produto final apesar de tudo – aceita o preço. E se deixa machucar.

Mistral Gagnant, escrito por Anna lá por volta de 09:28 de 5 . 9. 2008
 
E aí, o que é arte? O que é fazer arte? O que é ser artista?

visita ao museu

[Texto publicado na Folha de S. Paulo em 30/07/2007.  Àqueles que freqüentam museus.] 

por Nelson Ascher 

 Depois de visitar uma instituição assim, eu novamente prometo pôr em dia minha leitura 

UMA DAS vantagens de não ser crítico ou historiador de arte é poder retornar inocentemente, por puro prazer, a museus como o Metropolitan de Nova York. O não-especialista pode, ao contrário do profissional, ir direto a uma tela favorita de Van Eyck, visitar em seguida o pátio espanhol ou o templo egípcio, deter-se diante de vitrais medievais, admirar armamentos renascentistas e assim por diante, sem ter que dar satisfação a ninguém, nem à sua consciência. Ou seja, para um leigo como eu, museus são antes um espaço de liberdade e prazer.

É claro que, quanto mais se saiba a respeito das obras a serem vistas, mais intenso e concentrado é o prazer que elas nos oferecem. É por isso que, depois de visitar longamente alguma instituição assim, eu novamente prometo pôr em dia minha leitura acerca, digamos, do maneirismo ou do impressionismo e juro que, tão logo volte para casa, vou também terminar os livros do Gombrich, do Panofsky, ou mergulhar na biografia do Goya publicada recentemente pelo Robert Hughes.

E tudo mais ou menos em vão. Pois distante da força gravitacional das obras, outras leituras, aparentemente mais urgentes, se interpõem, exigindo minha atenção. O acordo ao qual acabo chegando comigo mesmo é o de deixar os textos acima para serem lidos um ou dois meses antes da próxima viagem. Mas, por um período semelhante depois de ter percorrido um acervo como o de cima, o fascínio que esse exerce ainda é o bastante para que eu leia uma boa meia dúzia de ensaios pertinentes e vá aos poucos agregando na mente outros tantos miligramas de informação que, um dia, talvez me sejam úteis (e, se não forem, já me entretêm agora).

Quando jovem e arrogante, eu dividia o público de museus em duas categorias: uma minoria de estetas que estava lá porque gostava sinceramente de arte e a massa de turistas que só estavam batendo ponto, fosse por orientação do “Michelin” ou do “Fodor’s”, fosse por medo de, voltando à terra natal, serem considerados sacoleiros incultos. Tal divisão já não me satisfaz. Se não a maioria, pelo menos boa parte das pessoas que passeavam pelo Metropolitan parecia ser gente local, jovens, adultos e idosos que o visitavam sozinhos e, ao que tudo indicava, nem pela primeira, nem pela última vez.

É igualmente uma boa aposta a de que, em geral, essa gente não tem doutoramento em artes plásticas ou estética, não passa o restante de seu tempo debruçada sobre tratados eruditos, não saberia discorrer sobre as técnicas utilizadas na elaboração daquela estátua de bronze, nem conseguiria explicitar as linhas de força que ligam esta escola às demais. Algo, porém, os, ou melhor, nos leva até lá. Como a “beleza” é um conceito que, há mais de um século, ninguém minimamente prudente manuseia sem pinças e luvas de borracha, convém vasculhar o vocabulário em busca de outros. “Accomplishment” (algo como: “nível de realização”) é um termo capaz de indicar o que é que torna compulsivamente atraente uma criação humana. E, no caso das artes plásticas, tal “accomplishment” se torna não raro particularmente visível (é óbvio), ainda que o observador não consiga formular no que é que isso consiste.

Se há algo que, hoje em dia, torna necessária a visualização de “accomplishments” similares, é o fato de que, sendo produto de ciências e técnicas especializadas, a natureza das realizações do mundo atual permanece invisível para quase todos. Desfrutamos dos resultados, mas não entrevemos nem vestígio das “pinceladas” que os tornaram factíveis, e isso por várias razões, entre as quais a de que a verdadeira realização não se encontra onde muitos a buscam. O que aponta para o nível mais alto de realização do Ocidente, a pequena maravilha (inclusive de design) que é o iPod ou a barulheira confusa e repetitiva com a qual os ouvintes lhe preenchem a memória?

O vínculo entre intenção, concepção e resultado que até um vaso grego do período arcaico ou a escrivaninha de um aristocrata francês do século 18 exibem é o que reassegura aos freqüentadores de museus que o que chamamos de civilização não é conseqüência nem do acaso, nem da magia negra, mas, sim, de inteligência, talento e suor. E há, para completar ou coroar essa experiência ou constatação, a dimensão temporal. A perspectiva criada pela justaposição de obras e objetos provenientes de distintas culturas e épocas é o que, inconscientemente, às vezes, permite que nos situemos em relação a tudo que nos cerca. A profundidade resultante não é uma ilusão de ótica, mas a autêntica materialização epifânica da história viva que somos.