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Archive for the ‘teatro & dança’ Category

a última gravação de krapp e um ato sem palavras 1

a última gravação de krapp

Alô, alô! Planeta Terra chamando, planeta Terra chamando! Essa é mais uma edição do diário de bordo de Lucas Silva e Silva, falando diretamente do mundo da lua…

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Para quem tem mais ou menos a minha idade, a fala acima é muito próxima, chega a ser nostálgica. Especialmente para alguém que teve seu primeiro gravador gradiente, e hoje, como jornalista, o gravador é um dos objetos mais importantes (junto com uma caneta bic preta e bloquinho de anotações).

Talvez por toda essas circunstâncias, a história de Krapp tenha me tocado. Claro que as minhas memórias com o gravador nada têm a ver com a história da personagem de Beckett. Krap é um homem só. Completamente só. E agora, velho, só tem suas gravações para lhe fazer companhia. Seu único diálogo é consigo, com seu passado. Tal afastamento e reclusão ganham ainda mais força com o cenário de Fernando Melo da Costa. Uma tenda isola o artista do palco e o afasta ainda mais do público. Não restando dúvidas que Krapp está só. Reouvindo suas memórias.

um ato sem palavras 1umatosemplavra1_crédito-foto-GugaMelgar

Uma luz ofusca a visão. Uma luz forte assim como eu imagino que seja a luz do deserto. Sérgio Brito vive no palco aquilo que foi meu pesadelo durante anos. A impossibilidade de pegar uma garrafa d’água que está muito perto. Esse ato sem palavras chega a ser muito mais expressivo do que o monólogo anterior. E me faltam palavras para explicar o quão forte é.

É arte: a vigoridade de Sérgio Britto. O ator tem 85 anos, mas você só lembra disso no fim do espetáculo quando ele se mostra visivelmente esgotado.

É fato: essa foi a primeira peça de Beckett que vi. Agora eu entendi porque eu nunca consegui ler suas peças, e nunca foi por falta de tentar.

:: A Última Gravação de Krapp e Ato sem Palavras 1, de Samuel Beckett. Drireção: Isabel Cavalcanti. Com Sérgio Britto. Sesc Santana:   Av. Luiz Dumont Villares, 579 – Santana – Norte. Tel. 2971-8700. R$ 5 a R$ 20 .

dolores – mimulus cia. de dança [eu fui]

mimulus

Como ninguém se habilitou ao convite feito no post anterior, minha mãe acabou indo comigo — não porque ela gosta de dança, e sim por piedade mesmo. Apesar de não falar muito sobre essa área, a dança foi a primeira vertente cultural da qual me aproximei. Antes de decidir pelo jornalismo, ao 10 anos, tinha certeza de que seria bailarina. Mas a carreira foi curta, apenas dois anos, dos 8 aos 10. Minha mãe, a mesma senhora piedosa que foi comigo ao espetáculo, não foi nada piedosa ao me tirar das aulas de jazz dizendo que eu não levava jeito. No entanto, aqueles breves dois anos aprendendo a sambar, abrir espacate, virar estrelhinha com as pernas bem retas… deixaram marcas que me unem a dança até hoje. AMO DANÇAR! (mesmo não levando muito jeito.)

Apesar de não curtir muito Almodóvar (é, pode apedrejar), gostei muito do espetáculo. E, mesmo não conhecendo muito a respeito do diretor espanhol (só vi Fale com Ela, Tudo Sobre Minha Mãe e Volver), deu para notar que há muitos elementos de sua obra no trabalho da Mimulus: drama, sensualidade, ironia, sarcasmos e até humor. As coreografias feitas com colares e toalhas de banho são de tirar o fôlego; e a sincronia da equipe também – há momentos em que você tem a total impressão de que os corpos dos bailarinos se fundiram um nos outros. Ai que vontade que me deu de me matricular numa escola de dança…

É arte: o cenário. As cores quentes dos cenários dos filmes de Almodóvar estão ali na sua maior intensidade. E não sei se era essa a intenção, mas há uma tela de fio negros a frente do palco que dá a impressão riscos negros que às vezes surgem na tela do cinema.

É fato (comentário de mulherzinha): meninas, o que são aqueles bailarinos??????????? Quanta saúde! Vou me matricular nas aulas de dança de salão agora! :-)

:: Dolores – Mimulus Cia. de Dança — 11 e 12/4. Sábado, às 21h e domingo, às 18h. SESC Pinheiros (rua Paes Leme, 195 – 3095-9400). R$ 15,00.

dolores – mimulus cia. de dança

Feriado é um porre. Todo mundo vai para praia ou para o campo. (Alguém me explica o que tem de divertido para fazer no interior ou na areia?) Logo a cidade fica uma delícia: poucas pessoas na rua, sem trânsito. Parece que São Paulo é só minha, só minha mesmo! Porque eu não encontro um indivíduo para ir a um espetáculo de dança comigo.

Bem, acho que terei de assistir sozinha ao espetáculo Dolores, da Mimulus Cia de Dança,  inspirado no  universo sensual e irônico do cineasta Pedro Almodóvar, com trilha sonora de seus filmes. Ou será que alguém se habilita?

:: Dolores – Mimulus Cia. de Dança — 11 e 12/4. Sábado, às 21h e domingo, às 18h. SESC Pinheiros (rua Paes Leme, 195 – 3095-9400). R$ 15,00.

não sobre o amor

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19h30. Cai uma chuva fina incessante. Todos estão acompanhados de seus guarda-chuvas. O Teatro do Sesi recebe o público para uma mais uma sessão da temporada de comemoração dos 15 anos da Sutil Cia de Teatro.

20h15. Leonardo Medeiros se posiciona no cenário de Daniela Thomas para viver Victor Shklovsky, ou melhor, as cartas do escritor russo para Alya (que na vida real era a escritora franco-russa Elsa Triolet), vivida por Simone Spoladore.

Alya pede para Victor que não escreva sobre amor nas cartas enviadas para ela. Ele tenta, mas em todas há uma ironia e uma cobrança contrapondo sempre a idéia de amor da escritora: o amor é um sentimento leve. Todas as cartas do escritor russo são como a frase que abre a peça:

“Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo; a ironia devora as palavras.”

Ele realmente não consegue. O amor de Victor é pesado, doloroso; acho que até poderia dizer obsessivo e doentio. Daqueles que fazem mal, daqueles que só servem para escritores se encherem de tristezas para escreverem romances ao estilo de Amor de perdição. Para Alya, o que Victor ama, de verdade, é dizer o quanto, o quanto, o quanto a ama. Mas no terceiro quanto ela já está pensando em outra coisa, relata Alya em uma das cartas.

“Todas as cartas de amor são rídiculas”, já disse F. Pessoa. E o ator Leonardo Medeiros consegue passar esse ar de rídiculo-apaixonado-sofrido para sua personagem, mas com muita classe — devo ressaltar. Sobre a atuação de Simone Spoladore, ainda não sei o que dizer. Sinto que ela ainda não encontrou Alya. Mas, ao mesmo tempo, Não sobre o amor é um tipo de peça em que o texto (a palavra) é muito mais importante do que do que o ator. As protagonistas ali são as cartas, e não os escritores.

O cenário [leia É arte abaixo] e a iluminação, de Beto Bel, também ajudam, de certo modo, a apagar um pouco a atuação. O jogo de luz e as projeções, tão bem-utilizados, fazem o cenário se desdobrar. De uma plasticidade in-crí-vel.  Desculpem tocar novamente nesse assunto, já gasto por aqui, mas fiquei tão impressionada com a perfeição das  projeções e  dos efeitos de  luz – que desenham sombras no ambiente –, que foi impossível não me lembrar dos trabalhos de Regina Silveira.  

 

É arte: novamente o cenário de Daniela Thomas, que parece ter saído direto de um quadro de Magritte.  Quando estamos apaixonados tudo parece estar meio fora do lugar, a vida ganha uma outra ordem. E o cenário reflete esse sentimento tão… complexo? Essa ordem totalmente absurda dos móveis dá mais força ao texto. Como se aquele “absurdo” fosse a real ordem de tudo.

É fato: algumas cenas de tão ensaiadas transparecem uma artificialidade. O subir e descer de um móvel para outro, os passos, tudo tem ar de algo que foi extremamente calculado. Combina, no entanto, com o artificilismo das cartas de Victor Shklovsky. 

:: Não sobre o amor, Peça de Câmara de Felipe Hirsch e Murilo Hauser sobre a obra se Victor Shklovsky, Elsa Triolet,Wladimir Maiakovski E Lilia Brik. Drama. Direção: Felipe Hirsch. 80 min. Teatro do Sesi (Av. Paulista, 903, São Paulo, tel. (11) 3146-7439). 4ª/5ª e sáb. âs 20h (* Dia 20/02 – começará às 21h). R$ 10. Até 22/03.

avenida dropsie

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Fazia tempo que não ia ao teatro. Fazia tempo que não ia ao teatro sozinha. Fazia tempo que não me divertia tanto na platéia. Fazia um tempo aberto naquela tarde de domingo. E ao entardecer caiu aquele pé d’água. A mesma chuva que milagrosamente molhou o palco do Teatro do Sesi na peça Avenida Dropsie, adapção dos quadrinhos de Will Eisner.

Só o meu travesseiro sabe o quanto eu me culpei de não ter visto Av. Dropsie na primeira vez que foi exibida. Porque teatro é assim, né, ou você vê agora ou provavelmente nunca mais verá. São raras as vezes que uma peça volta em cartaz no mesmo teatro e com o mesmo elenco. Mas o raio caiu duas vezes no mesmo lugar, com a mesma intensidade e dessa vez EU VI!

Pense: quantos quadrinhos adaptados para o cinema ficam realmente bons? Poucos conseguem levar para as telonas a mesma intensidade e expressão do traço dos quadrinistas para as telonas. Agora, imagina levar quadrinhos para o teatro, com chuva e tudo? Por favor, quem souber de algum caso comente agora neste blog!

Não é uma peça contínua, são várias esquetizinhas retiradas dos quadrinhos de Eisner, por exemplo, Nova York: A Grande Cidade (1987), City People Notebook (1989), Pessoas Invisíveis (1992) e Avenida Dropsie – A Vizinha (1995). Se você é morador de uma cidade grande, como São Paulo, não tem como não se identificar com as situações vivenciadas no palco pelos atores Andre Frateschi, Duda Mamberti, Erica Migon, Guilherme Weber , Jorge Emil, Leonardo Medeiros, Magali Biff e Maureen Miranda, que chegam a interpretar dezenas de personagens — Guilherme Weber, por exemplo, dá vida a 27.

No texto do folheto da peça, o diretor Filipe Hirch diz: “No dia em que cheguei a São Paulo para  a temporada de Avenida Dropsie, chovia violentamente. [...] Da janela do 19º andar do meu hotel, São Paulo parece, como Will Eisner dizia, qualquer imensa cidade do mundo.”  Talvez por isso o texto do quadrinista americano sobre uma avenida da  imensa  Nova York se encaixou tão bem no palco de um teatro em uma avenida da quinta maior cidade do mundo. Até a nossa tradicional chuva de toda tarde do verão está lá. A Avenida Dropsie nunca foi tão Paulista.

É arte: o cenário criado por Daniela Thomas. Sabe aquela máxima já citada por aqui: “Menos é mais”?  É mais mesmo. Daniela colocou no palco apenas um edifício de 10 metros de altura com três andares. Não sei se a cenógrafa se baseou só nos quadrinhos de Eisner, mas alguma coisa ali, provavelmente graças aos efeitos de iluminação, me lembrou os quadros de Hopper, que, aliás, combinam muito bem com cidades grandes.

É fato: quem não comprou os ingressos vá correndo comprar agora. As entradas para essa temporada comemorativa de 15 anos da Sutil Cia. estão se esgotando muuito rápido. Eu comprei o último para apresentação de domingo passado de Avenida Dropsie e também o  último para apresentação de Não sobre o amor no próximo sábado. Corraaa!!!

:: Avenida Dropsie, de Will Eisner. Comédia. Direção e adaptação: Felipe Hirsch. 110 min. Teatro do Sesi (Av. Paulista, 903, São Paulo, tel. (11) 3146-7439). 4ª/5ª e domingo. R$ 10. Até 28/03.

hamlet

Não consigo acreditar que exista alguém que nunca tenha se perguntado pelo menos uma vez na vida: “Ser ou não ser: essa é a questão”. Eu já me perguntei muito isso, como também já cheguei muitas vezes a conclusão de que “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha sua [minha] filosofia.” Hoje outra frase desse personagem se faz presente: “Se não for agora, não será depois. Se não for depois, tem que ser agora. Se não for agora, será um momento qualquer. Estar pronto é tudo.” E para reviver essas frases fui ao Teatro Faap, com duas queridíssimas amigas, ver a montagem de Hamlet, de William Shakespeare, com Wagner Moura e direção de Aderbal Freire Filho.

 A duração do espetáculo me assustava: 170 minutos, mas a boa expectativa aliviava. Depois de todos acomodados, Wagner Moura aparece e dá um recadinho para platéia: “A peça tem 170 minutos de duração, e faremos um pequeno intervalo de 10 minutos. Bom espetáculo a todos!” A música sobe, a luz desce, Wagner se posiciona no palco e peça começa.

E quanta bobagem se preocupar com a duração. Os 170 minutos pareceram meia hora. Tá bom, menos, dona K. Mas eu nem os senti passar, verdade. A encenação de Wagner é tão… envolvente, que parece que o ator lhe convida a viver Hamlet junto com ele. E não deixa dúvidas sobre seu grande trabalho de preparação para viver o príncipe dinamarquês. Um exemplo: quando Hamlet se finge de louco para poder investigar a morte do pai, não só os trejeitos da personagem mudam, como também a voz, que se torna mais aguda e nasalada.

A influência do teatro de Bertolt Brecht nessa montagem também é notável. As coxias são trazidas para o palco e todos os atores ficam presentes o tempo todo. Os poucos elementos cênicos também ajudam a valorizar a interpretação dos atores – que também fazem o papel de contra-regra e cinegrafista. O uso de um telão e uma câmera – que faz o real papel de a câmera indiscreta, revelando os pensamentos mais obscuros de cada personagem –, me fez lembrar o que o meu professor de Técnica de Redação I, Welington Andrade, disse na aula de sobre a peça Ricardo II (é II mesmo, não é o III). “A própria personagem representa uma personagem o tempo todo.” Apesar dele ter dito isso sobre um outro texto de Shakespeare, acho que a idéia se encaixou muito bem em Hamlet. E ficou mais evidente com o recurso audiovisual – que foi muito bem utilizado.

Bem, não adianta eu ficar falando, falando, falando, acho melhor descrever como uma das minhas amigas, que não é tão ligada em teatro como eu, saiu da peça para vocês entenderem tudo o que eu senti. Elza sai com olhos arregalados e sem conseguir dizer uma palavra. Enquanto eu e Angelita, sua filha, tagarelávamos o tempo todo. Até que perguntei: Gostou? Ela responde: Nossa, eu tô sem palavras. Eu tô até agora sob o efeito de tudo o que vi. Elzinha estava inebriada por Hamlet, por Shakespeare.

É arte: o figurino, de Marcelo Pires, que parece ter sido comprado na loja Hering mais próxima, e dá uma literal roupagem moderna à peça.

É fato: achei que a primeira cena, em que vestem Wagner com a armadura do pai de Hamlet poderia confundir a platéia, pois depois, que se torna o Pai, são todos os atores e o Hamlet/Wagner, não a vestiu mais. Mas a Angelita entendeu esse começo como a demonstração do elo entre Hamlet e o Pai. Aceitável.

:: Hamlet, de William Shakespeare. Drama. Direção: Aderbal Freire Filho. 170 min. Teatro Faap (r. Alagoas, 903, São Paulo, tel. 3662-7233). 6ª/sáb às 20h, e dom às 18h. R$ 80. Até 28/09.

a serpente

 

Eu e o Nelson. Nelson e eu. Quando eu estou na fase do “mau-humor”, nada me dá mais consolo ou alivia mais o estado de irritanção do meu espírito do que Nelson Rodrigues. Passei esse segundo bimestre indo para a faculdade em companhia de “A vida como ela é”, em vez de os tediosos textos de política, cultura brasileira e afins. Relapsa? Diria que não. Tentando, apenas, não enlouquecer com tantas provas e trabalhos.

 

E para brindar as férias, recorri novamente ao Nelson, chamando para o brinde a minha companheira de reclamações Maria Izabel. A comemoração “viva as férias” foi no teatro TUCA com a peça “A Serpente”, último texto que anjo pornográfico escreveu. E nenhum texto era mais propício que esse. Essa é a peça mais curta (sessenta minutos) que Nelson escreveu, o que combinou muito meu atual, e já clichê entre muitos, lema de que “menos é mais”.

 

Duas mulheres se apaixonam pelo mesmo homem. Duas mulheres que são irmãs, que se casaram no mesmo dia e dividem o mesmo apartamento. Duas irmãs que se dizem capazes de morrer uma pela outra. Duas irmãs que são protagonizada por outras duas irmãs: Débora e Cynthia Falabella. Guida (Débora) tem um casamento feliz, Lígia (Cynthia) mantém a sua alcova imaculada – não por vontade própria e sim por uma… impotência do marido. E ao saber do desespero da Lígia, que sofre por ter um casamento infeliz e ouvir os gemidos da felicidade conjugal da irmã, Guia oferece uma noite à Lígia com seu marido, para ela possa sentir a felicidade que seu marido a proporciona.

 

Depois desse, como diria Rosângela Petta, turning point, as relações entre as personagens ficam cada da vez mais tensas. Na platéia, quem não enlouquece com os atores no palco, ri de nervoso em momentos que são extremamente dramáticos. Essas reações são resultados da perfeita sintonia entre os atores, que dão a intensidade necessária não só a seus personagens, mas para todo o texto colérico de Nelson. Mérito também da direção de Yara Novaes, que teve sacadas geniais. Por exemplo, dar voz (em microfones) aos pensamentos das personagens como se elas estivessem falando para um auditório – mas que eu interpretei como aquelas reuniões das Mulheres que Amam Demais.

 

Sessenta minutos passados, eu, extasiada, aplaudo. Izabel vira para mim, e define muito bem a peça em uma palavra: “Forte!”.

 

É arte: o cenário e o figurino de André Cortez. Nada de vermelho, preto ou nudez, como muitos preferem nas peças de Nelson Rodrigues. André optou por um figurino romântico e elegante, e em variações de rosa, azul e verde. O cenário versátil brinca com a visão/sensação de horizontal e vertical do público.

 

É fato: quase trinta anos depois da peça ter sido escrita (1980) as pessoas ainda se chocam, e muito. Risos e exclamações vindos da platéia não condiziam com a dramaticidade do texto e a loucura vivida pelas personagens. Parece que ainda não estamos preparados para ver os extintos e pensamentos mais obscuros do ser humano no palco.

 

:: A Serpente, de Nelson Rodrigues. Drama. Direção de Yara Novaes. 60 min. TUCA (Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes , tel. 3188-4156). 6ª e sáb. às 21h e dom. às 19h. Até 20/07. R$ 20.

senhora dos afogados

Devido a uma burocracia do MEC nessa sexta-feira fui assistir à peça “Senhora dos Afogados” de Nelson Rodrigues. A direção de Antunes Filho e o texto de Nelson, geralmente, me agradam, mas a atuação do grupo Macunaíma sempre me decepciona. Foi assim em “A Pedra do Reino”, texto divertidíssimo de Ariano Suassuna, que ficou chato e cansativo na atuação desse grupo, e me fez perguntar cadê o Antunes Filho diretor dos Prêt-à-poters e de “O canto de Gregório”, que eu a-do-ro?

 

A montagem perde a depravação, já característica do texto de Nelson, e os momentos catárticos comuns da platéia. Ou seja, era um texto forte demais, para uma interpretação infantil demais e pudoresca demais. Com exceção das boas atuações do elenco central: Angélica di Paula (Moema), Lee Thalor (Misael) e Valentina Lattuada (D. Eduarda), e dos belos solos de piano; a montagem apela para clichês dramáticos e força risos da platéia – por exemplo, a avó que imita o choro de cachorro toda vez que sai de cena.

 

Para quem assistiu à Pedra do Reino e leu, ou chegou a ver a excelente montagem da Cia. Armazém de “Toda nudez será castigada”, o espetáculo era previsível. Tanto na encenação, porque os elementos e a forma da montagem eram praticamente os mesmos utilizados na peça cômica de Suassuana; quanto no texto, porque a história segue a mesma linha do drama de Herculano, um viúvo semicasto, que quebra a promessa feita ao filho de não ter outra mulher na vida além de sua mãe.

 

E qualquer um, que estudou o mínimo, de teatro sabe que todos os elementos colocados no palco têm um significado. Eu estava achando a figuração, de Rosângela Ribeiro, perfeita: todas as personagens de personalidade obscura vestiam preto, e os que, na visão de Nelson, eram vítimas dessas personagens e/ou da sociedade vestiam figurinos de outra cor; até que eu reparei que uma das personagens do coro de vizinhos calçava uma plataforma prata (!). Por que raios esse cara usava um sapato à la drag queen?  Esse foi um detalhe que fez toda a diferença para eu decretar que vai demorar, e muito, ou vai me fazer pensar 457 mil vezes antes de ver uma peça que tenha qualquer ligação com o grupo Macunaíma.

 

É arte: ir ao teatro ou fazer qualquer atividade cultural por livre e espontânea vontade.

 

É fato: é ingenuidade do MEC tentar desenvolver um gosto cultural em universitários por meio de uma obrigação de horas complementares. Já cansei de visitar exposições e museus e ver pessoas fazendo cooper pelo espaço atrapalhando os interassados, depois ir ao balcão de informações pedir um carimbo de que esteve ali para comprovar as tais horas, que na realidade foram nem cinco minutos.

 

:: Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. Drama. Direção de Antunes Filho. 90 min. No Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245, Consolação, tel. 3234-3000). 6ª e sáb. às 21h e dom. às 19h. Até 27/07. R$ 20.

miss saigon

A história é quase aquela de todo romance clichê. Abril de 1975, Guerra do Vietnã, uma pobre menina tem os pais mortos na guerra e acaba indo trabalhar num bordel para ganhar a vida. Lá, ela, que ainda é virgem, encontra um soldado americano bonzinho. A primeiro momento, ele se recusa a se deitar com mocinha, afinal, ele é o soldado americano bonzinho. Mas bem, já que estão ali e ela faz questão… E na primeira noite eles se apaixonam, e ele promete levá-la para América, onde construirão o “American Dream”. Tudo lindo, ele tiraria ela da vida-fácil, iriam para um país sem guerras e viveriam felizes para sempre. OPS! Isso é uma peça, precisa de um clímax, mais que isso: é teatro, é uma história de amor; então, é drama. A mocinha ainda tem que sofrer para ficar com o mocinho. E, como sempre, por cilada do destino, eles vão se separar. Agora sozinha, a mocinha descobrirá que está grávida do mocinho. Oh, Meu Deus! Quem poderá ajudá-la? O Chapolin Colorado? Não, o Engenheiro!

Ok. Dei um tom jocoso para a sinopse da peça, mas “Miss Saigon” é um daqueles romances a la Camilo Castello Branco, em que todas as personagens sofrem, sofrem de amor e nada acaba bem.

A história é bonita, a produção não é tão grandiosa quanto à de “O Fantasma da Ópera”, musicalmente e coreograficamente não é melhor que “Chicago”, e não tem a graça de “My fair lady” (apesar de ser o menor musical dentre os citados). Não sei, mas não saí com a mesma empolgação dos anteriores em Miss Saigon – não sabia cantarolar nenhuma das músicas. Mas acho que foi o musical que mais me tocou. Emocionou, mas não encantou. Encanto devido à atriz, que estreava no palco: Cristina Cândido. Ela é a “Miss Saigon”! A voz, a delicadeza dos traços e gestos, a emoção… Cristina alterna com Lissah Martins, a Miss Saigon oficial; ela tem 22 anos e o musical é sua primeira peça, talvez isso explique a verdade de sua atuação, a entrega à personagem. Outro ator, que merece destaque, é Marcos Tumura, o cafetão chamado de Engenheiro. O Engenheiro é a personagem que quebra a dramaticidade da peça com a comicidade dada na medida certa por Marcos. É dele um dos melhores números do musical: “The American Drean” (vídeo).

“Miss Saigon” é um bom programa para um fim de domingo. Mas ainda estou na dúvida se vale o valor do ingresso. Talvez seja bom assistir para ter referências, repertório de musicais e produção. Porém, como espectador comum, não dá vontade de ir outras vezes.

É arte: A coreografia de “O Dia do Dragão”. Fogos, um dragão oriental e dança com fitas e bandeiras fazem, sem sombra de dúvidas, o melhor número de dança.

É fato: O helicóptero faz muita falta! Tentaram substituir a cena em que um helicóptero aterrissaria no palco por um jogo de luz e som. Que desastre! Quem está no camarote ou no balcão (ambas partes superior da platéia) não sentem a emoção da aterrissagem do veículo. Pelo contrário, não passam de luzes rodando e iluminando a platéia inferior e um barulhão de hélices.

:: Miss Saigon
Teatro Abril (av. Brig. Luís Antônio, 411, Bela Vista, região central, tel. 6846-6000). 1.533 lugares. Qua. a sex.: 21h. Sáb.: 17h e 21h. Dom.: 16h e 20h. Estréia 12/7. Em cartaz por tempo indeterminado. 140 min. 12 anos. Ingr.: R$ 65 a R$ 200.

Nudez premiada

[Crítica para o site de Cultura Geral]

 

Quarenta e um anos depois da primeira montagem, Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues, ainda causa incômodo pela forma escrachada de retratar uma sociedade moralista. A peça coloca o dedo na ferida e mostra, sem pudores, toda a nudez castigada pelos risos impróprios da platéia.

Última peça do Anjo Pornográfico, foi encomendada e recusada por Fernanda Montenegro por achá-la agressiva demais, em 1965.  A montagem em cartaz, do Grupo Armazém Cia. de Teatro conquistou o Prêmio Shell de Teatro (Rio) 2005 nas categorias melhor direção (Paulo de Moraes) e melhor iluminação (Maneco Quinderé), além de ter recebido as indicações em: melhor Atriz (Patrícia Selonk) e melhor cenário (Paulo de Moraes e Carla Berri). Agora chega a São Paulo, despertando risos, raiva e emoção do público.

O enredo foca a história da prostituta Geni. Ao se relacionar com Herculano, um viúvo semicasto, o faz quebrar a promessa feita ao filho: não ter outra mulher na vida além de sua mãe. Todos os acontecimentos são induzidos pelo inescrupuloso Patrício, irmão do víuvo, que conduz a história das personagens com atitudes amorais, inclusive o fim de Geni, logo revelado na primeira cena.

A direção premiada, de Paulo de Moraes, merece destaque por atentar a detalhes sutis – apenas as personagens ligados à prostituição usam sapatos, por exemplo. A versatilidade do cenário, sincronia nos movimentos cênicos, sonoplastia e iluminação deixam peça redonda. Os atores em total sinergia, resultado de um texto encenado em grupo, fazem com que a obra em si se sobressaia. O ritmo lento do começo aos poucos vai acelerando até chegar a um ritmo quase frenético, para um desfecho poético.

A “obsessão em três atos”, segundo seu próprio autor, é uma peça que propõe algumas reflexões sobre o certo e o errado. O que é permitido pela sociedade é realmente normal? Ou na vida mundana há mais “normalidade”? A peça atingiu sua maturidade sem virar careta ou perder a atualidade.