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Posts Etiquetados ‘drama’

a última gravação de krapp e um ato sem palavras 1

a última gravação de krapp

Alô, alô! Planeta Terra chamando, planeta Terra chamando! Essa é mais uma edição do diário de bordo de Lucas Silva e Silva, falando diretamente do mundo da lua…

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Para quem tem mais ou menos a minha idade, a fala acima é muito próxima, chega a ser nostálgica. Especialmente para alguém que teve seu primeiro gravador gradiente, e hoje, como jornalista, o gravador é um dos objetos mais importantes (junto com uma caneta bic preta e bloquinho de anotações).

Talvez por toda essas circunstâncias, a história de Krapp tenha me tocado. Claro que as minhas memórias com o gravador nada têm a ver com a história da personagem de Beckett. Krap é um homem só. Completamente só. E agora, velho, só tem suas gravações para lhe fazer companhia. Seu único diálogo é consigo, com seu passado. Tal afastamento e reclusão ganham ainda mais força com o cenário de Fernando Melo da Costa. Uma tenda isola o artista do palco e o afasta ainda mais do público. Não restando dúvidas que Krapp está só. Reouvindo suas memórias.

um ato sem palavras 1umatosemplavra1_crédito-foto-GugaMelgar

Uma luz ofusca a visão. Uma luz forte assim como eu imagino que seja a luz do deserto. Sérgio Brito vive no palco aquilo que foi meu pesadelo durante anos. A impossibilidade de pegar uma garrafa d’água que está muito perto. Esse ato sem palavras chega a ser muito mais expressivo do que o monólogo anterior. E me faltam palavras para explicar o quão forte é.

É arte: a vigoridade de Sérgio Britto. O ator tem 85 anos, mas você só lembra disso no fim do espetáculo quando ele se mostra visivelmente esgotado.

É fato: essa foi a primeira peça de Beckett que vi. Agora eu entendi porque eu nunca consegui ler suas peças, e nunca foi por falta de tentar.

:: A Última Gravação de Krapp e Ato sem Palavras 1, de Samuel Beckett. Drireção: Isabel Cavalcanti. Com Sérgio Britto. Sesc Santana:   Av. Luiz Dumont Villares, 579 – Santana – Norte. Tel. 2971-8700. R$ 5 a R$ 20 .

o casamento de rachel

Já disse que aqui que amo dramas familiares. Amo! Por essa preferência de temática seria impossível não gostar de O casamento de Rachel. No entanto, o que mais chama atenção no filme é a linguagem. A impressão é que você não está vendo uma obra cinematográfica, mas sim, um daqueles vhs empoeirados de registro da família feitos pelo seu pai, que acabou de comprar uma filmadora e não quer perder um respiro da vida dos filhos, da intimidade do lar. E atribuo a esse recurso o impacto do filme. As pessoas na sala do cinema se debulhavam em lágrimas. Claro, e também à boa atuação dos atores. Todos pareciam tão naturais que era difícil acreditar que tudo era ficção. Acho que é melhor ficção de caráter documental que já vi.

É arte: a trilha sonora. A marcha nupcial em estilo rock’n roll é genial.

É fato: apesar das instalações não serem das melhores, o Cine Lasar Segall é uma boa opção para ver filmes que já saíram de cartaz na maioria dos cinemas e por um preço bem justo. Paguei R$ 5 (meia), no domingo, para ver o filme.

:: O Casamento de Rachel, EUA, 2008. Direção: Jonathan Demme. Drama. 114 min.

o leitor

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”

Antes de eu começar a ser alfabetizada na escola, eu pedia para minha mãe me ensinar comoescrever algumas palavras, por exemplo: liquidificador, travesseiro, paralelepípedo. Ela sempre me questionava se eu não queria aprender alguma mais fácil. E a resposta era sempre negativa: “Não, mãe, eu preciso aprender a mais difícil primeiro. O que fácil a tia vai ensinar pra todo mundo mesmo.” Ai que criança petulante, né? Mas não imagine que isso me fez ser uma aluna à frente das outras, nada disso. Quando começaram as aulas de leitura, eu tinha muito medo. Primeiro, eu achava que seria impossível eu aprender a ler, mesmo sabendo escrever palavras teoricamente difíceis. Segundo, quando eu aprendi, eu tinha horror de ler em voz alta. Morria de vergonha de gaguejar em público ou errar uma palavra, uma pontuação. Só superei a leitura em voz alta depois de participar uns anos de um grupo de teatro. Mas ainda sim, por mais que eu me sinta à vontade hoje para dramatizar um texto, eu prefiro a leitura silenciosa, a leitura pra dentro.  Amo, no entanto, que contem histórias pra mim. Não é à toa que fui fazer faculdade de jornalismo: para ouvir e contar boas histórias – mais ouvir, sempre!

Tudo isso para (talvez) tentar explicar por que gostei tanto de O leitor. Um filme sensível, um roteiro fantástico e uma atuação merecedora de Oscar — Kate Winslet está di-vi-na. Mais que uma história de amor de um jovem de 15 anos, Michael Berg (David Kross e Ralph Fiennes se alternam no papel), e uma mulher 18 anos mais velha, a cobradora de bonde  Hanna (Kate), o filme também trata de uma paixão pela leitura, pelo mundo das letras e do prazer de conhecê-las — poder dar sentido a elas juntando “a” mais “b”. É impossível, para quem é chegado num livro, não se encantar com o relacionamento de Micheal e Hanna, que, entre uma transa e outra, se rendem a Odisséia, Lady Chatterley, As avenuras de Tim-tim etc. Hanna ensina os prazeres da carne para Michael em troca dos prazeres da mente, fazendo-o ler de tudo para ela. Porém a “Fräulein Elza”, de Michael, guarda um segredo… Agora vocês terão de ver o filme e depois comentar o que acharam. :-)

É arte: a fotografia, e não é à toa que concorreu ao Oscar nessa categoria. Mas também não posso deixar de comentar a caracterização de Winslet quando idosa. As rugas na face, as mãos, os pés judiados… in-crí-vel!

É fato: se o roteirista conhecesse um pouquinho de literatura brasileira, talvez teria colocado Amar, verbo intransitivo, de Mario Andrade. Eu adoraria ver intertextualidade, na telona, do texto de Bernhard Schlink e do Mario. Imagina, Micheal contando para Hanna o romance de  Fräulein Elza, uma professora contratada para iniciar na vida sexual de forma limpa (sem ser com prostitutas), e do menino Carlos?

:: O Leitor (The Reader), Alemanha/EUA. 2008. Direção: Stephen Daldry. Drama. 124 minutos

nome próprio

 

Folga! Ai, como é bom sair da faculdade e, em vez de ir ao trabalho, pegar um cineminha. Combinei com uma amiga e fomos assistir Nome Próprio – filme baseado nos livros e no blog de Clarah Averbuck. Me interessei pelo filme quando li o post da Clarah na Bravo!. Como podia uma mulher ter uma relação com blogs tão parecida com a minha? Imediatamente fui ler o blog dela, Adios Louge. E notei que, realmente, só nossas neuras com a ferramenta se parecem, pois nossos assuntos são totalmente diferentes. UFA!

vivo porque escrevo

Apesar de Clarah negar, com fervor, que Camila não tem nada a ver com ela, é quase impossível não se lembrar dela ao ver as atitudes da personagem principal, interpretada por Leandra Leal. No mau-humor, na forma de falar, na personalidade. Bem, eu não conheço a Clarah pessoalmente, mas pelos seus textos no blog e por entrevistas que já a vi, nota-se que ela não é muito diferente da Camila.

É um filme forte, um batimento cardíaco, com pontos constantes, que se alternam com muitos altíssimos e outros baixíssimos. Camila se jogou na vida. A vive intensamente, ama intensamente, bebe intensamente. Esse desprendimento me encanta. Mas o preço que ela paga por ele me parece alto demais. Está sempre no limite entre loucura e a razão.

ninguém vive uma paixão impunemente

E toda perturbação de Camila, Murilo Salles soube como transmiti-la nos movimentos de câmera. É um vaivém bêbedo, que mistura o olhar do expectador e com o da personagem. Às vezes, tinha a impressão que tudo foi gravado por um amador com uma câmera chinfrim na mão. Impressão logo esquecida ao ver a sensibilidade do diretor em registrar detalhes, como a cena que Camila aparece refletida, toda encolhida, dentro da tela do computador. Gostei muito também das frases soltas, que dão mais poesia ao filme. Afinal, esse é um filme de palavra. Por mais que a personagem central seja extremamente forte, boa parte o encanto está nas frases que Camila escreve na tela – quando ela reflete quem ela é: um ser só.

livros acabam. coloque também um ponto final nessa história.

A palavra é um refúgio, não só da Camila, mas de todos que são dependentes da escrita. Essa dependência é o que torna difícil entender que, às vezes, é preciso colocar um ponto final, não só na ficção, como na realidade.

 

É arte: a interpretação da Leandra Leal é mesmo de tirar o fôlego. Kikito de melhor atriz merecido.

É fato: a Leandra Leal é a melhor atriz do filme, mesmo. Os codjuvantes são muito fracos. O ator que interpreta Felipe beira o péssimo.

 

:: Nome próprio: Brasil, 2008. 130 min. Drama. Direção: Murilo Salles. Roteiro: Melanie Dimantas, Elena Soarez, Murilo Salles, Clarah Averbuck (romances)

a invenção da solidão

Escrevendo o post sobre Edward Hopper, me lembrei de um livro que li há algum tempo: A invenção da Solidão, de Paul Auster. É uma reflexão sobre a paternidade, na visão dele como pai do pequeno Daniel e como filho do Sr. Auster; e também das solidões que nós, humanos, “inventamos”. A história é muito bonita e há várias referências a personagens solitários, como Pinocchio. Mas o que mais marcou foi uma passagem sobre o quadro O quarto, de Van Gogh:

 

A primeira impressão de A. foi de fato uma sensação de calma, de “repouso”, como o artista descreve. Mas aos poucos, à medida que tentou habitar o quarto apresentando na tela, começou a experimentá-lo como uma prisão, um espaço impossível, uma imagem não tanto de um lugar para morar, mas sim da mente que foi forçada a viver ali. Observe ali. Observe com cuidado. A cama bloqueia uma porta, a cadeira bloqueia a outra porta, a janela está fechada: não se pode entrar e uma vez lá dentro, não se pode sair. Sufocados no meio dos móveis e dos objetos do dia-a-dia no quarto, começamos a ouvir um grito de sofrimento nessa pintura e, uma vez que ouvirmos, ele não pára mais. [...] O homem nessa pintura (e é um auto-retrato, em nada diferente do retrato de um homem, com olhos nariz e lábio e queixos) ficou o tempo demais sozinho, debateu-se tempo demais no abismo da solidão. O mundo termina na porta bloqueada. Pois o quarto não é uma representação da solidão, é a própria solidão.

 

Depois que eu li isso, um quadro nunca mais foi um mero quadro. Comecei a prestar muita atenção nas obras que gosto para ver além dos elementos artísticos, além do que está óbvio e o porquê da identificação. Ao folhear o livro e ler algumas frases sublinhadas, vejo que se aproxima a hora de lê-lo de novo.

 

É arte: as passagens das leituras de Paul Auster para o seu filho, Daniel.

É fato: os poemas de Paul Auster, contidos nesse livro, são bem fracos. A Gabriela, que é fã do escritor, me disse que ele já confessou que realmente poesia não é o seu forte e não escreveria mais versos. Boa decisão!

:: A invenção da solidão, de Paul Auster. 1999. Companhia das Letras. 200 págs. R$ 40,50.

a serpente

 

Eu e o Nelson. Nelson e eu. Quando eu estou na fase do “mau-humor”, nada me dá mais consolo ou alivia mais o estado de irritanção do meu espírito do que Nelson Rodrigues. Passei esse segundo bimestre indo para a faculdade em companhia de “A vida como ela é”, em vez de os tediosos textos de política, cultura brasileira e afins. Relapsa? Diria que não. Tentando, apenas, não enlouquecer com tantas provas e trabalhos.

 

E para brindar as férias, recorri novamente ao Nelson, chamando para o brinde a minha companheira de reclamações Maria Izabel. A comemoração “viva as férias” foi no teatro TUCA com a peça “A Serpente”, último texto que anjo pornográfico escreveu. E nenhum texto era mais propício que esse. Essa é a peça mais curta (sessenta minutos) que Nelson escreveu, o que combinou muito meu atual, e já clichê entre muitos, lema de que “menos é mais”.

 

Duas mulheres se apaixonam pelo mesmo homem. Duas mulheres que são irmãs, que se casaram no mesmo dia e dividem o mesmo apartamento. Duas irmãs que se dizem capazes de morrer uma pela outra. Duas irmãs que são protagonizada por outras duas irmãs: Débora e Cynthia Falabella. Guida (Débora) tem um casamento feliz, Lígia (Cynthia) mantém a sua alcova imaculada – não por vontade própria e sim por uma… impotência do marido. E ao saber do desespero da Lígia, que sofre por ter um casamento infeliz e ouvir os gemidos da felicidade conjugal da irmã, Guia oferece uma noite à Lígia com seu marido, para ela possa sentir a felicidade que seu marido a proporciona.

 

Depois desse, como diria Rosângela Petta, turning point, as relações entre as personagens ficam cada da vez mais tensas. Na platéia, quem não enlouquece com os atores no palco, ri de nervoso em momentos que são extremamente dramáticos. Essas reações são resultados da perfeita sintonia entre os atores, que dão a intensidade necessária não só a seus personagens, mas para todo o texto colérico de Nelson. Mérito também da direção de Yara Novaes, que teve sacadas geniais. Por exemplo, dar voz (em microfones) aos pensamentos das personagens como se elas estivessem falando para um auditório – mas que eu interpretei como aquelas reuniões das Mulheres que Amam Demais.

 

Sessenta minutos passados, eu, extasiada, aplaudo. Izabel vira para mim, e define muito bem a peça em uma palavra: “Forte!”.

 

É arte: o cenário e o figurino de André Cortez. Nada de vermelho, preto ou nudez, como muitos preferem nas peças de Nelson Rodrigues. André optou por um figurino romântico e elegante, e em variações de rosa, azul e verde. O cenário versátil brinca com a visão/sensação de horizontal e vertical do público.

 

É fato: quase trinta anos depois da peça ter sido escrita (1980) as pessoas ainda se chocam, e muito. Risos e exclamações vindos da platéia não condiziam com a dramaticidade do texto e a loucura vivida pelas personagens. Parece que ainda não estamos preparados para ver os extintos e pensamentos mais obscuros do ser humano no palco.

 

:: A Serpente, de Nelson Rodrigues. Drama. Direção de Yara Novaes. 60 min. TUCA (Rua Monte Alegre, 1.024, Perdizes , tel. 3188-4156). 6ª e sáb. às 21h e dom. às 19h. Até 20/07. R$ 20.

senhora dos afogados

Devido a uma burocracia do MEC nessa sexta-feira fui assistir à peça “Senhora dos Afogados” de Nelson Rodrigues. A direção de Antunes Filho e o texto de Nelson, geralmente, me agradam, mas a atuação do grupo Macunaíma sempre me decepciona. Foi assim em “A Pedra do Reino”, texto divertidíssimo de Ariano Suassuna, que ficou chato e cansativo na atuação desse grupo, e me fez perguntar cadê o Antunes Filho diretor dos Prêt-à-poters e de “O canto de Gregório”, que eu a-do-ro?

 

A montagem perde a depravação, já característica do texto de Nelson, e os momentos catárticos comuns da platéia. Ou seja, era um texto forte demais, para uma interpretação infantil demais e pudoresca demais. Com exceção das boas atuações do elenco central: Angélica di Paula (Moema), Lee Thalor (Misael) e Valentina Lattuada (D. Eduarda), e dos belos solos de piano; a montagem apela para clichês dramáticos e força risos da platéia – por exemplo, a avó que imita o choro de cachorro toda vez que sai de cena.

 

Para quem assistiu à Pedra do Reino e leu, ou chegou a ver a excelente montagem da Cia. Armazém de “Toda nudez será castigada”, o espetáculo era previsível. Tanto na encenação, porque os elementos e a forma da montagem eram praticamente os mesmos utilizados na peça cômica de Suassuana; quanto no texto, porque a história segue a mesma linha do drama de Herculano, um viúvo semicasto, que quebra a promessa feita ao filho de não ter outra mulher na vida além de sua mãe.

 

E qualquer um, que estudou o mínimo, de teatro sabe que todos os elementos colocados no palco têm um significado. Eu estava achando a figuração, de Rosângela Ribeiro, perfeita: todas as personagens de personalidade obscura vestiam preto, e os que, na visão de Nelson, eram vítimas dessas personagens e/ou da sociedade vestiam figurinos de outra cor; até que eu reparei que uma das personagens do coro de vizinhos calçava uma plataforma prata (!). Por que raios esse cara usava um sapato à la drag queen?  Esse foi um detalhe que fez toda a diferença para eu decretar que vai demorar, e muito, ou vai me fazer pensar 457 mil vezes antes de ver uma peça que tenha qualquer ligação com o grupo Macunaíma.

 

É arte: ir ao teatro ou fazer qualquer atividade cultural por livre e espontânea vontade.

 

É fato: é ingenuidade do MEC tentar desenvolver um gosto cultural em universitários por meio de uma obrigação de horas complementares. Já cansei de visitar exposições e museus e ver pessoas fazendo cooper pelo espaço atrapalhando os interassados, depois ir ao balcão de informações pedir um carimbo de que esteve ali para comprovar as tais horas, que na realidade foram nem cinco minutos.

 

:: Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. Drama. Direção de Antunes Filho. 90 min. No Sesc Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 245, Consolação, tel. 3234-3000). 6ª e sáb. às 21h e dom. às 19h. Até 27/07. R$ 20.

otávio e as letras

Saindo da faculdade, vi o cartaz do filme e a-do-rei. Não tive o mínimo de interesse em saber sobre o que se tratava, simplesmente queria ver o longa cujo cartaz exibia uma página de livro com todas as frases rabiscadas e o título em vermelho: “Otávio e as Letras”. E que bom que não li sinopses ou resenhas antes, pois nenhuma soube definir exatamente sobre o que era o drama de Marcelo Masagão. Na verdade, nem eu sei se entendi a story line do filme, mas sei que gostei. Gostei porque gostei de tudo: dos diálogos, da fotografia, da trilha sonora, da peculiaridade de cada personagem.

Otávio (Donizeti Mazonas), um cara estranho que sai todos os dias para almoçar com uma tia e espalhar, pela cidade, bombas de efeito moral – rolos que ele monta com recortes de jornais, revistas, livros e cartazes, nos quais, antes de montar o artefato, ele silencia todas as letras rabiscando-as. Clara (Arieta Corrêa), mora no mesmo prédio que Otávio, matem uma relação muito particular com quadros e gosta de fotografar a intimidade das vizinhas pela janela de seu apartamento. E Artur (Fabio Malavoglia), um taxista que mora em dos prédios vizinho ao minhocão, e nas horas vagas, como Clara, gosta de fotografar, não os vizinhos, e sim os detalhes da cidade. Os fragmentos do cotidiano dessas três personagens montam o drama, que registra a solidão e o vazio das pessoas que vivem em São Paulo. Aliás, muito bem perfilada nos detalhes do táxi de Artur e na conversa entre ele e Clara (vídeo). E, apesar de ser um filme em que se impera o silêncio, o enredo que pode ser resumido na fala de Otávio, em um dos poucos diálogos do longa, com Clara: “Eu moro no zero: o vazio, onde tudo termina”.

É arte: a trilha sonora do belga Wim Mertens.

É fato: ao sair do cinema, conclui: um filme não se faz pelo todo, mas por todos os elementos que dão sentido a quem o assiste.

:: Otávio e as Letras: Brasil, 2008. 83 minutos. Drama. Direção: Marcelo Masagão.

as invasões bárbaras

Está em cartaz, em poucos cinemas, “A Era da Inocência“, de Denys Arcand, o mesmo diretor de “As invasões bárbaras” e “Declínio do império americano”. Como eu ainda não assisti ao que está em cartaz, comentarei sobre o segundo filme do diretor: “As Invasões Bárbaras“, que, com certeza, vale muito a pena assistir. 

 

O câncer invade o corpo. A droga invade o organismo. A vida invade nossos pulmões quando inalamos o ar. Os filhos invadem nossas vidas

Assim vivemos, sendo invadidos o tempo todo, a cada segundo, a cada respiro, a cada picada de espinho da rosa. Algumas dessas invasões podemos dizer que são bárbaras. Porque são rudes, cruéis, feroz. Ou porque nos causa admiração, surpresa, espanto. Porque, simplemente, é Bár-ba-ro! (seja para o bem ou para o mal)

E assim é também o filme: “As invasões bárbaras”, de Denys Arcand. Rémy (Rémy Girard) está na fase terminal da invasão de um câncer. Seu filho ausente, Sébastien (Stéphane Rousseau), quer dar o melhor para o pai em seus últimos momentos na terra, e não impõem limites para isso. Engole os erros cometidos por Rémy no passado, seus princípios, corrompe pessoas, margeia a ilegalidade das drogas… tudo para que o pai possa viver até o último segundo como sempre viveu: tendo prazer, aproveitando, se doando ao seus desejos, sendo feliz

É nessa relação distante-próxima, de pai e filho, que o enredo é construído. Salpicado com algumas críticas ao imperialismo do capitalismo e ao moralismo da sociedade, o filme mostra que, apesar do pesares, o mundo não é correto, as pessoas não são corretas. Se a vida é curta, então, que seja intensa – pensa Rémy.

A vida está num instante, ela se faz em um momento, ela se vale de um momento. Do abraço no pai, da cena de um filme, do brinde, do recusar uma taça de vinho pois sabe que já não dá mais, da lágrima, de amigos – que não precisam ser corretos, só tem que estar lá… na hora certa.

É arte: A música tema: L’amitié, cantada por Françoise Hardy – Composição: Paroles: Jean-Max Rivière. Música: Gérard Bourgeois 1965.

É fato: As invasões Bárbaras é continuação de “O declínio do Império Americano”, em que você consegue entender melhor as atitudes e história das personagens. Mas este é um filme para quem gosta de muito diálogo e pouca emoção. É somente um filme introdutório para o que acontece no segundo.

:: As Invasões Bárbaras: Canadá, 2003. 99 minutos. Drama. Direção: Denys Arcand.

a vida dos outros

 

No meu dia (sabe aquele que as pessoas te ligam e te dão presentes?), decidi viver a vida dos outros (que também é de outros) indo ao cinema. Resolvi pegar a sessão que ia começar naquele instante. Sem saber do que o filme se tratava, entrei na sala escura e sentada na poltrona já havia esquecido o nome do drama. Foram 137 minutos, ou duas horas e 17 minutos, que não senti passar.

A luz apaga. Estou em Berlim, de novembro de 1984. O governo oriental busca assegurar seu poder por meio de um sistema rigoroso de controle e vigilância sobre os cidadãos. E para isso, conta com pessoas como o capitão Anton Grubitz (Ulrich Tukur), que busca ser promovido, com o apoio dos mais influentes círculos políticos da época. O capitão, por sua vez, utiliza um fiel agente do sistema: Gerd Wiesler (Ulrich Tukur), para vigiar secretamente e coletar evidências contra o bem-sucedido dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch) e sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). E, pelos olhos de Wiesler, passei a viver “A Vida dos Outros”.

O filme é denso/leve, gostoso de ser visto. Você é convidado a entrar nas cenas, passa a ser o espião junto com o Wiesler e, quando menos esperar, estará vivendo o cotidiano do casal de artistas. E, aos poucos, o cinza do uniforme de Wiesler, vai dando espaço ao azul de seus olhos; ou melhor, sua vida vazia começa a ser preenchida pela intensidade da vida do dramaturgo, pelas relações dele com a música, a literatura, o amor e a amizade. Assim como a nossa. Afinal, quantas vezes, nosso dia-a-dia sem graça e frio, como o do solitário agente, é abrandado por visitas de amigos, novos romances, livros, música e arte, que, muitas vezes (para não dizer sempre), são capazes de modificar até mesmo o que somos.

É fato: Durante o regime da RDA, cerca de quatro mil espiões vigiaram supostos subversivos, produzindo aproximadamente 120 mil relatórios, organizados segundo o codinome de cada agente.

É arte: Os poemas de Bertolt Brecht e “A Sonata para um homem bom”, de Gabriel Yared, composta especialmente para o filme.

:: A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen)
Alemanha, 2006. 137 minutos. Drama. Direção e Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck.