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Posts Etiquetados ‘entrevista’

mario quintana, em entrevista

mario quintana

 

Assim que publiquei a entrevista com o Manuel Bandeira, uma amiga comentou: “Agora você podia fazer uma com o Mario Quintana. Quero dizer, nem sei se você gosta do Mario Quintana…”. E naquele dia descobrimos que ambas gostavam, mas ambas também o conheciam bem pouco. Cada uma se limitava em seu poema favorito. Eu, Emergência, o que diz que “quem faz um poema salva um afogado.”, e ela, Bilhete, aquele que pede “ama-me baixinho”.
 
Depois disso, dispus-me a fazer a lição de casa para poder entrevistá-lo. E descobri que Mario de Miranda Quintana nasceu prematuro na cidade de Alegrete (RS), no dia 30 de julho de 1906. Foi o quarto filho do farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e de D. Virgínia de Miranda Quintana. A princípio, seu pai não queria que fosse poeta, mas se rendeu ao ler uma poesia do filho num jornal em Alegrete.
 
E não há quem não se renda aos seus versos delicados, singelos, mas de grande força e expressão. Os poemas de Mario Quintana, seja pela forma ou pelo conteúdo, são daqueles que nos fazem entender que “menos é mais”. Isso também é o que ele mostra nos versos dessa entrevista em que fala sobre poesia, ser poeta, leitores e críticos.
 
artefato.k: O que lhe estimula a escrever?
Mario Quintana:
Duas coisas ativam a minha poesia: a poluição sonora das cidades e o silêncio da cidade pequena.
 
a.k: O que é um livro bom?
MQ:
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes
Interrompemos a leitura para seguir – até onde?
 
a.k: Quem são bons leitores?
MQ:
O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.
 
a.k: Eu sou daquelas que adora autógrafos e dedicatórias de amigos na primeira página. Qual foi o autógrafo dado, ou a dedicatória recebida, que o senhor mais gostou?
MQ:
Uma menininha me perguntou: “O senhor pode me botar uma dedicação neste livro?”. Escrevi, então, “Para Helena Maria, com toda a minha dedicação”.
 
a.k: Clarice Lispector nunca relia suas obras depois de prontas, pois ela dizia que toda vez que relia queria mudar alguma coisinha. O senhor costuma reler o que escreve?
MQ:
Nunca me releio… Tenho medo enorme de me influenciar.
 
a.k: Todo artista odeia jornalista metido a crítico. Como o senhor recebe as críticas feitas por esses?
MQ:
Há críticos que, em vez de julgarem pelo
Que sou, julgam-me pelo que não sou.
É como quem olhasse um pessegueiro e
Dissesse: “Mas isso não é um trator?”
 
a.k: E se pudesse mandar um recado para esses maus críticos, ou aos que recusaram a sua indicação para a ABL, qual seria?
MQ:
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
 
a.k: O senhor sabe o que o público em geral diz sobre a sua poesia?
MQ:
“É bonito mas é triste” – frase que ainda se ouve da parte de senhoras que ainda lêem.
Não sei o que tem belo (não o “bonito”) a ver com triste ou o alegre – conceitos aliás tão relativos…
A beleza – que está acima dessas outras coisas, embora possa incluí-las –, a beleza não comporta adjetivos.
 
a.k: O senhor costuma atender encomenda de poemas?
MQ:
Ah, essa gente que me encomenda
Um poema
Como tema
Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro,
O que inquietamente procuro
Em minhas escavações do ar?
 
a.k: Poderia pedir para o senhor escrever um poema agora?
MQ:
Impossível fazer um poema
Neste momento.
Não, minha filha, eu não sou a música
– sou o instrumento.
 
a.k: E é fácil para esse instrumento compor uma melodia?
MQ:
Se nunca nasceste de ti mesmo, dolorosamente,
na concepção de um poema… estás enganado:
para os poetas não existe parto sem dor.
 
a.k: Tem alguma dica para novos poetas?
MQ:
Se alguém nota que estás escrevendo bem,
Toma cuidado: é o caso de desconfiares…
O crime perfeito não deixa vestígios.
 
a.k: Dizem por aí que o senhor é tímido. Concorda com isso?
MQ:
Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?
 
a.k: Quem é, então, Mario Quintana?
MQ:
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!
 
a.k: O senhor pode mandar um recadinho para uma amiga que adora o seu poema “Bilhete”?
MQ:
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda a frio o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil receio…
 
a.k: E para os paulistas que estão em casa nesse dia de frio e chuva?
MQ:
Um dia de chuva é bom para comprar livros de poemas… quem perguntar por que, de nada lhe adianta comparar um livro de poemas.

 

É arte, é fato: algumas das respostas foram retiradas do livro “Mario Quintana – Para viver com poesia”. O livro é uma copilação de frases e versos do poeta, que ajuda em um trabalho como esse. Mas não é útil para quem quer se aprofundar em sua obra, porque não há uma bibliografia para identificar de onde o conteúdo foi retirado – uma grande falha.

:: Mário Quintana – Para viver com poesia: de Márcio Vassallo (org.). Editora Globo. 120 págs., R$ 20.

paulo bruscky, em entrevista

Como postei no blog experimental do meu grupo na faculdade, o plasticamente:

Conheci o trabalho de Paulo Bruscky na 26ª Bienal, em que o artista montou um pedaço do seu ateliê na mostra – uma verdadeira zona. Depois, me deparei novamente com seu trabalho numa exposição no Itaú Cultura, Futuro do Prensente. Nessa, Bruscky expôs a série: “O Meu Cérebro Desenha Assim”. A retomada de uma performance iniciada na década de 1970, quando utilizava o aparelho de eletro-encefalograma para produzir desenhos.

E ainda sobre o mundo acadêmico, entrei em contato com artista plástico a fim de entrevistá-lo para um trabalho cujo tema era o ano de 1968. E ele aceitou, mas pediu que eu enviasse as perguntas por e-mail. Porém a facilidade eletrônica nem sempre é a ágil: a resposta chegou dias depois da entrega da atividade.

Contudo, a entrevista não perdeu a validade. Pois quem quiser conhecer o trabalho de Bruscky após ler a entrevista, é só correr ao MAC da Cidade Universitária, no qual está exposta sua primeira exposição individual em um museu: “Ars Brevis”, até o dia 28 deste mês.

 

artefato.k: Como você entrou para o Grupo Fluxus?

Paulo Bruscky: Através da arte correio, desde o início dos anos 70, e quando ganhei a bolsa de artes visuais da Fundação Guggenheim, em 1982, fui morar em Nova Iorque e tive contatos pessoais com alguns dos seus integrantes, como Dick Higgins, Ken Friedman e John Cage, entre outros. Posteriormente, fui residir em Amsterdam e entrei em contato com Klaus Gröh, Robert Rehfeldt e mais alguns integrantes do grupo Fluxus, além de ter participado de vários eventos com seus membros, tendo inclusive realizado uma performance com Ken Friedman.

 

a.k: Na sua opinião, como o grupo e a arte postal influenciaram as artes plásticas?

PB: Depois da Pop Art, foi o único movimento a nível internacional surgido, e teve uma força maior porque o subterrâneo do mundo todo estourou simultaneamente.

 

a.k: E como influenciou a forma de fazer arte?

PB: Na verdade, na arte correio o importante é a informação e o contato: é a vida na arte.

 

a.k: Quais eram os artistas com quem se correspondia?

PB: Robert Rehfeldt, Klaus Gröh, Ken Friedman, Clemente Padin, Horacio Zaballa, Edgardo Vigo, Jorge Caraballo, Guillermo Deisler, Mike Crane, grupo Texto Poético, Fred Forest, Antoni Muntadas e muitos outros.

 

a.k: A data “Maio de 1968″ completa 40 anos neste ano, como foi este ano para você?

PB: Acho que o ano de 68, independentemente de Paris, foi um ano importante da resistência, não só no Brasil como em toda a América Latina, com relação aos regimes ditatoriais e a arte correio teve um papel fundamental nessa luta e em mudanças de conceitos.

 

a.k: Estava realizando algum trabalho nessa época? Qual?

PB: Sempre trabalhei bastante nas minhas idéias, e é difícil citar apenas um trabalho, mas no período trabalhei muito com poesia visual, intervenções urbanas, objetos e trabalhos conceituais.

 

a.k: Chegou a ter alguma obra censurada?

PB: Tive grande parte da minha produção censurada, inclusive a minha própria pessoa; cheguei a ser preso três vezes pela ditadura militar.

 

a.k: Como era ser artista, produzir obras e realizar performances durante a ditadura?

PB: Era enfrentar o risco com a própria vida, porque só assim é que se mudam as coisas.

 

a.k: E qual foi a melhor obra que produziu até agora?

PB: A que eu vou fazer.

 

a.k: Há alguma que você não gostaria de ter feito?

PB: Tudo que fiz.

 

:: Ars Brevis: até 28/04. MAC, Rua da Reitora, 160, Cidade universitária. tel: 3091-3039. Terça a sexta: 10h às 18h, sábado e domingo: 10h às 16h. Grátis.

Manuel Bandeira, em entrevista

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Quando se estuda jornalismo, a vontade de conseguir entrevistar alguém famoso, de preferência um jornalista famoso, é eminente. Mas, no meu caso, todos os que eu pensava em entrevistar eram impossíveis. Não estou falando de Pelé, Roberto Carlos, ou presidentes; mas sim de pessoas que são humanamente impossíveis por já não estar mais entre nós – e não estou falando de jornalistas mortos. Quando olho minhas prateleiras de cds e livros, noto que elas mais parecem um vasto cemitério de lápides coloridas.

Porém, depois de uma proposta de trabalho da faculdade, o sonho de entrevistar o cara que me ensinou a gostar de poesia se tornou possível. E eu nem precisei ir a uma sessão espírita.  Para entrevistar Manuel Bandeira, precisei apenas prazerosamente ler, com cuidado, seus poemas de versos muito vivos. Então…

Completando 40 anos de sua morte, Manuel Bandeira fala sobre a vida, infância, amizade e, claro, poesia.

artefato.k: Qual é a explicação para viver mais de 80 anos com tantos problemas de saúde?
Manuel Bandeira:
A vida é um milagre.
(…)
O tempo é um milagre.
O tempo infinito,
A memória é um milagre,
Tudo é milagre
Tudo, menos a morte,
- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

a.k: Qual sua melhor lembrança da infância?
MB:
Recife
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia  as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
A via com um aporção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabiam onde ficavam
Recife …
               Rua da União…
                                          A casa do meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife…
              Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.
 
a.k. Certa vez, você citou que devia sua poesia à tuberculose, pois na época do tratamento escreveu seus melhores poemas. Como você encara essa doença?
MB:
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia Ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.

a.k. Se assim é a tuberculose, a poesia é…
MB:
  [...]
O lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clows de Shakespeare.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amantes exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

a.k. O escritor Mário de Andrade é conhecido de todos por sua obra. Mas quem era Mário de Andrade para Manuel Bandeira?
MB:
Mário
  Inteligência
  Sabor
  Surpresa 
 [...]
          Mário cigano
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares.

a.k. Quando trabalhou no jornal Correio da Manhã, qual notícia mais te marcou?
MB:
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro  da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou  no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

a.k. Uma pessoa que escreveu tanto sobre a morte faz planos para o que vem além da vida?
MB:
Depois de morto, quando eu chegar ao outro mundo
Primeiro quererei beijar meus pais, meus irmãos, meus avós, meus tios, meus primos.
Depois irei abraçar longamente uns amigos – Vasconcelos , Ovalle, Mário…
Gostaria ainda de me avistar com o santo Francisco de Assis.
Mas quem sou eu? Não mereço.
Isto feito, e abismarei na contemplação de Deus e de sua glória,
Esquecido para sempre de todas as delícias, dores, perplexidades
Desta outra vida de aquém-túmulo.

a.k. Qual seu maior desejo?
MB:
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
[...]
Te esperarei com máfuas novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

a.k. Como gostaria que fosse seu último poema?
MB:
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionadas
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dois suicidas que se matam sem explicação.

 

É arte, É fato: os trechos dos poemas foram retirados do livro Estrela da Vida Inteira, reunião completa das poesia de Manuel Bandeira. Contém os livos  Cinza das horas, Carnaval, O ritmo dissoluto, Libertinagem, Estrela da manhã, Lira dos cinqüent’anos, Belo belo, Opus 10, Estrela da tarde, Mafuá do malungo e Poemas traduzidos.

:: Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira. Nova fronteira, 422 págs. R$ 49.

Em nome da boa reportagem

[Entrevista feita para o Site de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (16/01/2007)]

Por Karina Sérgio Gomes, 2º ano de Jornalismo

“Imprensa atual está contaminada por jornalismo declaratório”

A banca avaliadora do livro-reportagem Tragédia no vôo 402, projeto experimental realizado pelos alunos Guilherme Massa Guimarães, Joyce Ribeiro Silva, Rafael Araújo Castro, contou com um dos mais famosos jornalistas brasileiros: Caco Barcellos, consagrado repórter da TV Globo e atual apresentador da série “Profissão Repórter”, exibida pelo Fantástico.

Após anunciar a nota dez conferida ao trabalho, o jornalista nascido em Porto Alegre concedeu uma breve entrevista ao Site. A conversa se dividiu em duas partes. A primeira ocorreu na sala Aloysio Biondi, enquanto Barcellos, sentado, abria e fechava incessantemente as hastes do óculos de armação de acetato azul. Mais tarde, o bate-papo prosseguiu em plena Avenida Paulista, até que ele chegasse ao estacionamento onde estava seu carro.

Autor de livros como Rota 66 – A História da Polícia que Mata (Record, R$ 41, 352 p.), vencedor do prêmio Jabuti de 1993 na categoria melhor obra de não-ficção, e Abusado – O Dono do Morro Dona Marta (Record, R$ 56, 588 p.) sobre a trajetória do traficante Marcinho VP, Barcellos conta sobre o início de sua carreira, como a série “Profissão Repórter” busca colocar em prática antigos valores do jornalismo, e sobre a importância dos livros-reportagens.

Como o Cláudio Barcelos deixou a faculdade de Engenharia para se tornar o jornalista Caco Barcellos?
Foi por acaso, como tudo na minha vida. Escrevia desde garoto, mas morria de vergonha de mostrar meu texto. Na faculdade de Engenharia, fui convidado a escrever para o jornal do Centro Acadêmico. Como na faculdade de exatas ninguém gosta de escrever, aceitei correndo. Na seqüência, um grupo hippie também me convidou para colaborar em uma publicação que vendíamos de mão em mão nas ruas. Um dia, um jornalista comprou esse jornal, gostou muito e nos convidou para fazermos um teste na Folha da Manhã. Logo me apaixonei pela profissão. Depois que virei estagiário, me perguntaram se eu tinha faculdade. Respondi que tinha, mas não revelei que era Engenharia. Ao final, eles disseram: “Olha, a gente quer te contratar. Traga os documentos da faculdade”. Aí eu pensei: “Meu deus! O que eu faço agora? Descobriram meu blefe!” Então corri até a faculdade, consegui fazer a transferência, apresentei o documento da faculdade de comunicação e deu tudo certo.

Qual a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma?
Tive a sorte de fazer o curso de comunicação já trabalhando na área. Minha grande faculdade foi a rua, mas acho que a faculdade tem um papel importante. Fico encantado com a qualidade da formação desses jovens com quem agora tenho a oportunidade de trabalhar [na série “Profissão Repórter”]. Reconheço que depende muito da postura de cada um, independente da qualidade da faculdade. Se você não tiver interessado em se formar com qualidade não adianta. Mas a gente tem que pensar no aluno que está interessado em uma boa formação, e para ele a ferramenta faculdade é indispensável. A decorrência disso é o diploma, mérito de quem se formou. Todas as profissões passam por esse processo, médicos, engenheiros. Você, como jornalista, não pode praticar medicina, nem engenharia. Então, por que eles poderiam praticar jornalismo? O importante é que a informação de qualidade não fique fora das redações pelo impedimento do diploma. Você pode trazer o cientista às vias do repórter, e o instrumento mais adequado a essa transferência é o trabalho da imprensa. Acho que a gente faz isso melhor do que os profissionais de cada segmento.

Como surgiu a idéia do programa Profissão Repórter?
A idéia foi minha. Há dez anos tenho o projeto de fazer reportagem com vários olhares simultâneos, e ao mesmo tempo revelar os bastidores do trabalho, os erros e os acertos, as dúvidas, as questões éticas. O jovem ali é um detalhe, não secundário, mas um detalhe. Não é um projeto focado em novos talentos, e sim na reportagem. Não há nada de novo no projeto. Trata-se de uma coisa muito antiga: o valor da reportagem, que está esquecida nas grandes redações.

Qual foi o critério de seleção dos participantes?
A TV tem um sistema de seleção de talentos muito profissional, o Estagiar. Avaliamos os 30 escolhidos nos últimos cinco anos, para selecionar quem participaria. Mas, independente disso, quem tiver um trabalho legal que queira mostrar pode enviar também. Houve dois participantes que a gente contratou a partir da obra feita. Pessoas que não conseguiram passar pelo Estagiar, mas trouxeram seus documentários.

Como é a experiência de avaliar um livro-reportagem feito por quem está saindo da faculdade?
O que você acha da iniciativa desses alunos? Acho que é uma iniciativa maravilhosa porque, como jornalista já experiente, sinto que os meios de comunicação não estão dando ênfase ao trabalho da reportagem. As empresas estão contaminadas pelo jornalismo mais ligeiro e leviano, pouco profundo, que é declaratório e baseado no fuxico. Isso prejudica a investigação feita pelo jornalismo mais sério e responsável, sobretudo quando lida com denúncia. Esses valores foram esquecidos. É uma prática antiga que a imprensa sempre deu grande importância: a investigação autônoma e independente. A iniciativa de valorizar o jornalismo investigativo, e um trabalho de fôlego como é o da reportagem, é super pertinente. Os livros-reportagens vendem muito mais do que os de ficção porque há uma necessidade de mercado. Elas [as editoras] torcem para que as revistas e os jornais continuem a menosprezar o repórter, pois estão contratando-os para serem escritores.

O livro seria então uma forma de “combater” esse jornalismo imediatista e sem embasamento?
Acho que as coisas podem coexistir. Não sou contra o jornalismo instantâneo, desde que seja responsável. A entrevista, por exemplo, é muito importante para o início de um trabalho, não para o produto final. Na entrevista você pode dizer maravilhas a respeito de uma pessoa, assim como pode dizer barbaridades. Cabe ao jornalista fazer um filtro. E esse filtro não se pode fazer ao vivo, tem que ser com fôlego, com trabalho. E não há tempo. Você pode precisar de quinze dias como de um ano, como já aconteceu comigo algumas vezes, mesmo na TV.

O que você acha de um de seus livros-reportagens, Abusado, ser obra de leitura obrigatória do vestibular da Faculdade Cásper Líbero?
Fiquei muito orgulhoso [quando soube da notícia], até porque as companhias são maravilhosas [além de Abusado, a lista possui obras de Manoel de Barros, Jorge Andrade, Mia Couto, Machado de Assis e Graciliano]. Fiquei muito feliz por uma faculdade de qualidade como a Cásper Líbero achar que meu livro pode contribuir para a formação de novos profissionais. É maravilhoso! Foi a melhor notícia que tive com o Abusado. Maravilhoso!

Você já trabalhou em jornais, revistas e na televisão. Há muita diferença na liberdade para se exercer a prática jornalística em cada meio?
Trabalhei em vinte redações e não há diferença nas coisas positivas e negativas. A gente tem que pensar em um conjunto, e cabe a cada um brigar pela independência de seu trabalho. Nunca cruzei com nenhum chefe que tenha impedido que eu desse o melhor de mim. Todos querem o seu melhor, e cabe a você, quando sentir que a sua criatividade estar sendo contida por algum chefe, pular o muro, avançar o sinal.

De que maneira seria possível solucionar uma situação de enfrentamento como essa?
Acho que o melhor caminho para fazer isso é a persistência. Digamos que um determinado chefe quer que você faça determinada matéria, e apresenta uma sugestão de pauta e 30 documentos que dão base para a sua reportagem. Depois você consegue dois mil documentos provando que aqueles do seu chefe são inverídicos. Cabe a você provar que sua pauta, agora, é melhor que a dele. Nunca, no meu caminho, um chefe disse “não, fique com trinta inverídicas e jogue fora as duas mil verídicas”. Às vezes não há o espaço merecido, mas ninguém lhe obriga a fazer o que você não quer, sobretudo sobre algo que não seja correto. Muita gente se queixa de determinada redação, mas o que conta mesmo é o talento, a garra e a persistência do trabalhador, que faz com que ele acabe achando o seu espaço, sempre.

Está satisfeito trabalhando na televisão?
Me orgulho muito de trabalhar na TV. É um privilégio que eu gostaria que muita gente tivesse, pois quem gosta de contar histórias gosta de ser ouvido, e a TV é um veículo maravilhoso. É legal você imaginar que pode contar uma história e ser ouvido por tanta gente. O jornalismo é uma profissão fascinante.