Arquivar

Posts Etiquetados ‘Ex-Libris’

minha estante excêntrica [2]

No post anterior, disse como é minha Estante Excêntrica, segue um trecho sobre a de Anne Fadiman:

Minha Estante Excêntrica contém sessenta e quatro livros sobre explorações polares: narrativas de expedições, periódicos, coleções de fotografias, trabalhos de história natural e manuais de navegação.  

Nesse capitulo ela também comenta a Estante de outros:

A Estante Excêntrica de George Orwell continha uma coleção encadernada de revistas para senhoras da década de 1860, que ele gostava de ler na banheira. Philip Larkin possuía uma Estante Excêntrica especialmente vasta, abarrotada de pornografia, com ênfase em espancamento. O vice-almirante James Stockdale, tendo sabido que Frederico, o Grande jamais embarcava numa campanha sem seu exemplar de The Encheiridion, levou para o Vietinã obras completas de Epicteto, cuja filosofia estóica sustentaria-o durante oito anos como prisioneiro de guerra.

Se você também tem uma Estante Excêntrica, comente como ela é!

minha estante excêntrica*

Nesse sábado, em vez de exposições, cinema, ouvir música, ler ou ir ao teatro, tive que arrumar o meu quarto. Mais precisamente minha estante de livros. Em Ex-libris, Anne Fadiman dedica todo um capítulo para a Estante Excêntrica dela, que começa assim:

Sempre acreditei que a biblioteca de cada um contém uma Estante Excêntrica. Nela repousa uma pequena e misteriosa coleção de volumes, cujos assuntos não têm a menor relação com o restante da biblioteca, embora, uma investigação detalhada, revelem um bocado sobre seu dono.

Bem, como eu ainda não tenho uma biblioteca, só me restou ter uma Estante Excêntrica, quer dizer, não exatamente excêntrica. Na verdade, poderiamos chamá-la de variada, pois os assuntos mais diversos repousam lado a lado nas prateleiras. Enfim… Antes todos os meus livros estavam organizados como eles bem queriam, ou como minha mãe, que sempre detestou a desordem na minha escrivaninha, quis organizá-los. Mas nesse sábado, eu decidi colocar ordem na zona. Tirei todos os livros da estante e os empilhei pela cama e pelo chão. Espanei as prateleiras e cada exemplar na hora de colocá-lo em seu devido lugar. Planejei, primeiro, uma ordem cronológica: começar pelos juvenis, até os últimos adquiridos (que deveriam ser mais “adultos”). Não deu certo, meu gosto por contos de fada aumentou com o passar dos anos. Divisões simples: literatura estrangeira e nacional. Mas e as coletâneas de contos e os de jornalismo?  Senti falta de um curso de biblioteconomia depois de muito olhar as pilhas e não conseguir pensar em uma boa divisão. Mas a experiência de horas passadas na biblioteca ajudou, e a estante ficou assim: Primeiro os juvenis, depois os conto, inclusive os de fadas, que deram um gancho para literatura estrangeira, continuação perfeita para os de teatro (começando com as peças de Shakespeare), seguido por literatura nacional, que abraçou os livros de poesia, e relutaram em deixar os de teoria literária se recostarem, os quais não gostaram nada, nada de serem vizinhos dos sobre teoria da comunicação e jornalismo literário, que gostaram menos ainda de compartilhar o espaço com os de arte. Mas como os de arte são descolados, deixaram o mau humor dos jornalistas para lá, e chamaram os guias de turismo para completar a festa. Os de fotografia detestaram a brincadeira, pois tiveram que ficar separados. Ninguém manda eles serem grandes e servirem como ótimas paredes para o fim de cada prateleira. Agora eu tenho que confessar: não organizei os livros em ordem alfabética de sobrenome de autor, não. Deixei cada um ser vizinho de quem bem entendesse. Já basta ter que dividí-los em categorias, não é?

 

*título do terceiro capítulo de Ex-libris- confissões de uma leitora  comum.

ex-libris _ confissões de uma leitora comum

A minha paixão por livros e por arte é uma coisa que não sei de onde veio. Mas a de Anne Fadiman, com certeza, veio do sangue. Anne é uma pessoa apaixonada por livros, e declarou esse amor em Ex-Libris, Confissões de uma leitora comum. O qual ganhei de uma leitora nada comum, uma pessoa cujo lema de vida é bem próximo de: ler é viver. Eu que não tenho isso como um lema, mas gosto da atividade tanto quando ela, e quis logo devorar as páginas. E por isso fui repreendida:

- Karina, não disse que era para você ler no aeroporto? Assim como eu li

O pedido soou como uma ordem. Ex-libris é, diferente de “A Invenção de Morel“, perfeito para se ler em indas-e-vindas. E assim fiz. Entre a espera para embarcar e as 9h de vôo até Toronto, as confissões de Anne foram lidas.

Anne é uma jornalista, de família literata, que ama, sobretudo, livros. Ela é daquelas que dão vida a eles: dobra as páginas para marcar onde parou a leitura, conversa com os autores escrevendo nas laterais. Eles se tornam uma extensão da vida dela. E por meio dessa relação, como está escrito na orelha (um pouco amassadas por marcar as páginas em momentos que precisava mesmo parar): “a autora mostra como seus livros prediletos se tornaram capítulos de sua história pessoal e, em rara combinação de humor e erudição, discorre sobre temas como leitura em voz alta, plágio, dedicatórias e livros usados, entre outros.”

Ex-libris despertou em mim afeto, risos e uma certa implicância. Me apaixonei pelo marido de Anne, que a presenteou com 8,5 kg de livros de aniversário. Claro, eu adoraria ter um marido que me desse um presente como esse, mas o meu carinho por George veio pela identificação. Logo primeiro capítulo, ela conta que só se sentiu casada, quando eles casaram suas bibliotecas. E a descrição, de como George organizava a dele, fez com que eu me lembrasse da minha estante: “Seus livros se misturam sob a bandeira super abrangente da Literatura.” Nada de divisões na minha estante também. Cada livro se acomoda como quer. Qual é o problema de um Machado de Assis querer ficar ao lado das fotos do Cristiano Mascaro, que gosta de se acomodar ao lado de Nora Roberts?

O riso é quase inevitável quando ela fala das descobertas das palavras quando criança. Pois a minha descoberta veio nas horas trancandas, no banheiro, com o imenso dicionário de capa couro - o qual eu adorava folear a procura de palavras grandes e difíceis (para uma criança). Assim como a implicância também foi inevitável quando li: “devem existir escritores cujos pais não possuíam livros, e que buscaram refúgios em professores, livreiros ou bibliotecários. Mas eu nunca conheci nenhum”. Epa! Claro, eu não sou escritora, mas juro que senti uma vontade enorme de escrever para ela contando como nasceu a minha relação com a literatura. Assim, ela iria conhecer alguém cujos pais não possuem livros (excluindo os que eu dei de presente e manuais de mecânica), mas que adora gastar horas acompanhada por eles na rede no quintal. Ok. Talvez a implicância veio junta de uma inveja por não ter uma família como os Fadiman, que ela exalta o tempo todo dizendo quanto eles são bons e admiráveis leitores.

Bem, como se nota, junto com as confissões de Anne você vai confessando a sua vida de páginas e letras. Cada memória dela desperta uma sua, daquelas vividas com a sua ex-libris.

É arte: O projeto gráfico. Não sei se a Anne pensou nisso, mas Ex-Libris é o livro perfeito para quem gosta de ler a todo o momento e em qualquer lugar: o formato da obra é muito bom de pegar. Sem contar a fonte e os detalhes agradáveis e bonitinhos.

É fato: Assim que ler a primeira linha só vai parar quando a última palavra for lida. E vai sair correndo para reler aquele seu livro favorito e reviver sensações.

:: Ex-libris, Confissões de uma leitora comum, de Anne Fadiman. Jorge Zahar Editor. 164 págs., R$ 32,00.