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Posts Etiquetados ‘exposição’

henri cartier-bresson: fotógrafo

Henri Cartier-Bresson não era um fotógrafo excepcional de arquitetura ou paisagem. Mas era um incrível ladrão de almas, como diria minha amiga Ana Cláudia Crispim. Agia como bons larápios, na surdina, de forma ligeira, sem qualquer luz (flash) para registrar seus “crimes”. CLIC! A vítima nem sentia que tivera sua alma aprisionada. Bresson agia dessa forma porque acreditava que desse modo conseguia capturar a essência das pessoas. Por isso se esgueirava entre os postes, segurava a câmera de forma discreta, e agia rápido na hora de enquadrar e apertar o botão. Ele dizia que ser fotógrafo era como ser um cozinheiro – um bom cozinheiro, diga-se –, tinha de saber exatamente a quantidade de luz que precisava deixar entrar para conseguir uma boa foto, assim como o cozinheiro sabe a quantia exata de tempero. E nas 133 fotos, pertencentes ao acervo da Agência Magnum e expostas no Sesc Pinheiros, Bresson mostra que essa receita ele sabia de cor e salteado.

É arte: o documentário sobre o fotógrafo em exibição no térreo.

É fato: livro de fotografia é muito caro. Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo foi publicado originalmente em 1979, e chega agora ao Brasil pela Cosac Naify,. O livro traz 155 selecionadas pelo próprio Bresson e custa: R$ 170! (Um excelente presente de aniversário, não? Faço anos dia 02/12 #ficaadica)

:: Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo – Sesc Pinheiros Térreo e 2º andar: R. Paes Leme, 195 – Pinheiros – Oeste. Tel.: 3095-9400. Terça a sexta, das 10h30 às 21h30.; sábados, domingos e feriados, das 10h30 às 18h30. Grátis!

cuide de você – sophie calle

Eu sou super adepta ao mundo virtual, mas não dispenso um contato ao vivo. Essa história de carta ou e-mail de amor é algo que não funciona bem, acho. Não tem cheiro, não tem textura, não tem som. Ok, ok, a carta tem textura e pode ser perfumada, e o e-mail pode ter som. Em suma: cartas ou e-mails não dispensam o contato pessoal. O olho no olho. Especialmente quando se trata em terminar relacionamentos. Bem, todo mundo já falou sobre  Sophie Calle e sua “107 respostas” ao amante que terminou o caso com ela por e-mail. Para não ser mais um comentário sobre assunto, segue abaixo um vídeo com o tal e-mail narrado por mim e ilustrado com imagens da exposição.

É arte: as fotografias. São muito bem produzidas e bonitas.

É fato: a exposição é um tanto desconfortável. Como exige que você leia o tempo todo, faltam bancos para se acomodar e curtir a leitura.

:: Cuide de você: Sesc Pompeia Rua Clélia, 93, Pompeia, (11) 3871-7700. Terça a sábado, 10h às 21h; domingo e feriados, 10h às 20h. Grátis. Até 7 de setembro.

PS – Mudei fiz de novo o off e mudei a trilha.

sem crise ou os 4 opositores

O que te moves?
A curiosidade
O que te opõe aos outros?
A vontade

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As repostas acima são minhas. As perguntas foram feitas a jovens artistas, cujos trabalhos compõem a mostra. As respostas de cada um foram colocadas ao lado das respectivas obras, o que preenchia os trabalhos plásticos com mais poesia. Sim, considero as repostas desses jovens verdadeiras poesias ao lado de suas obras.

A convite do meu professor-chefe, fui à abertura da exposição . Que delícia! É tão bom conversar com artistas jovens que ainda não criaram cascas ou tem discursos já pré-concebidos. Segundo o curador da mostra, Washington Delacqua, “resumidamente eles tratam dos reagrupamentos de imagens, de trabalhar com o vazio, do espiritual na arte e da construção da memória”.

Bruno Mendonça

O que te moves? Sinapse. O que te opõe aos outros? Proxêmica.

brunoReagrupamentos de imagens. Bruno Mendonça se apropria de imagens da mídia e aproxima as que, segundo seus critérios, possuem um diálogo. Um trabalho teoricamente simples, mas que revelam um olhar atento do artista para fazer as aproximações e criar diálogos entre imagens que, a princípios, pareciam incomunicáveis.

Camila Nassif

O que te moves? O espaço e o tempo. O que te opõe aos outros? As diferenças.camila

Trabalhar com o vazio. A primeira palavra/imagem (e essa comparação é um tanto cliché) que me veio a cabeça quando vi o trabalho da artista foi aranha. Com a habilidade de deusa Aracne, Camila tece redes unindo o teto e paredes com fios de linhas de crochê. E assim como as teias de aranhas, o trabalho da artista é delicado, sensível, quase invisível, como uma boa teia, que se mistura no ambiente, mas captura olhares atentos e alguns distraídos.

Felippe Moraes

O que te moves? O que nos ultrapassa. O que te opõe aos outros? O caminho.

felippeEspiritual na arte. Sabe a ideia de arte como religião? Felipe leva isso a sério. O trabalho da artista é repleto de espiritualidade. Um balanço, que ao mesmo remete a infância, alerta que para conseguirmos resultados (um sino tocar) é preciso de ação, impulsão, movimento. A obra “Monolito”, muito me lembrou as instalações de Kurt Schwitters.

Henrique de França

O que te moves? O que não pode ser esquecido. O que te opõe aos outros? O presente.henrique

Construção da memória. Henrique eterniza o presente e o passado em seus desenhos. Partindo de imagens fotográficas, às vezes  da própria da família (pelo o que me lembro do que ele me disse), o artista faz um registro autoral do que “não pode ser esquecido”.

rumos – trilha dos desejos

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Minha cabeça está cheia de referências. Está quase impossível ver uma obra e não me lembrar de algo que vi – conceitos, estéticas, performances, sons… tudo me lembra algo. Mas é preciso manter a humildade e ouvir. Não achar que só por que estou com a frequente sensação de déjà-vu quer dizer que já vi tudo, ou muito. Ainda tenho muito o que ver.

Tenho de me conscientizar que não posso comparar esses novos artistas com os que já marcaram história. Há um poema de Paulo Leminsky sobre o amor que diz: “sentir é lento”. E assim como o sentimento, fazer uma carreira, ter um trabalho de consistência, forte, também é um processo lento. Mesmo, hoje, quando o tempo passa depressa demais e somos cobrados por resultado cada vez mais cedo.

 

Alguns diálogos desses novos artistas com os que já habitam a minha mente:

 

:: As sombras materializadas de Felipe Cohen com as sombras de Regina Silveira;

:: As mesas de Luciano Zanette com o mobiliário de José Rufino;

:: As formas orgânicas de fórmicas de um colorido vivo como fortes cores e sinuosas formas de Leda Catunda;

:: As fotos de Sofia Borges com as fotografias da Cia de Foto;

:: As pedras em seu estado bruto do Grupo Empreza com os jardins e interesse pelos minerios de Amélia Toledo;

:: A temática dos apartamentos/público e privado de Ilma Guideroli, com a instalação Apartamento e Pronto pra morar de Regina Silveira.

 

É arte: As legendas do Itaú. O nome, ano de nascimento, local e ano da obra. Tudo ali para ajudar a localização do público no tempo e no espaço. E se você precisa de mais uma mãozinha para entender o trabalho do artista, há uma “bulinha”: um texto do curador a respeito da obra.

 

É fato: “Você estuda artes onde?”, pergunto a uma menina ao sair da palestra de Christine Mello, uma das curadoras da exposição.

            “Na Belas Artes. E você?”, pergunta ela.

            “Não, faço jornalismo. Na Cásper Líbero”, respondo.

            “Ué, o que você está fazendo aqui?”, questiona indignada.

São nessas horas que eu vejo que sou mesmo uma estudante de jornalismo intrometida no mundo das artes.

Itaú Cultural — Av. Paulista, 149 – Bela Vista – Centro. Telefone: 2168-1777. 3ª/6ª 10h/21h e sáb/dom 10h/19h.

o paradoxo do santo, regina silveira

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Nem o Abaporu mexeu tanto comigo. Se hoje eu vivo a neurose do tcc, boa parte da a culpa é dessa obra.

:: O Mundo Sem Molduras: Rua da Reitoria, 160 – Cidade Universitária. Tel, 11 3091.3039. 3ª/sáb. 10h/18h e dom16h/16h. A partir 26/03.

É arte: poder rever o mesmo trabalho, que aos 15 anos me fez ficar enlouquecida, e sentir uma emoção extremamente forte, como reencontrar um amigo que não via há anos.

É fato: eu nunca fui tão jornalista quanto estou sendo nesses últimos meses. É nessas horas que eu percebo que nasci para coisa, mas para falar de arte, claro!

nova arte nova

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Sabe qual é o problema de você começar a estudar a obra de uma grande artista? Você passa a procurar as mesmas qualidades, ou melhor, a mesma consistência em outros artistas – e se decepciona, claro. Você espera que todos tenham uma grande idéia por trás de cada trabalho, haja um zelo no fazer… Enfim, essas coisas que você encontra no trabalho da Regina Silveira, por exemplo.

E, a procura de novos artistas, eu fui ver o tal panorama de arte contemporânea no CCBB, Nova Arte Nova. Mas de novo e de coisa boa nova, ali, deu para contar nos dedos de uma mão. Mas não que os artistas não fossem bons, talvez eles até sejam, mas as obras estão fora do contexto. O que (eu acho) demonstra uma falha na curadoria de Paulo Venâncio Filho. Por exemplo, a geringonça barulhenta de Mariana Manhães (RJ), Liquescente. Exposta no meio de quadros e outras “obras de parede” o trabalho da artista parece apenas uma escultura barulhenta. Quando foi mostrada, porém, no Itaú Cultural, na mostra Futuro do Presente, ao lado de outras “máquinas-obras”, o trabalho dela parecia ter mais sentido. Outro trabalho que parece estar desconexo da mostra é o de Felipe Barbosa – várias casinhas de pombos, com as quais ele homenageia Volpi. Encostado na parede, próximo da passagem que leva para os outros andares, dá a impressão de ser apenas uma peça esquecida num canto — passa quase despercebido.

O que falta, na verdade é uma lógica da exposição, os trabalho estarem ligados por uma linha: por que eles estão ali? Só por que são artistas jovens? É muita pretensão falar que ali esta um panorama da nova arte contemporânea, sendo que falta muito, pra não dizer tudo, de uma vanguarda (será que posso dizer assim?) “super nova” da arte: a “arte digital”. A visita, talvez, valha a pena para quem quer se enfronhar nesse mundo e conhecer alguns dos jovens artistas que serão manchetes nos jornais de amanhã. Mas não ache que isso é o suficiente e, saindo de lá, você terá uma boa noção do que há de novo nas artes contemporâneas brasileiras. As exposições do Itaú Cultural sempre trazem ótimos artistas contemporâneos que estão despontando, as galerias de arte sempre fazem exposições com o que têm de melhor, sem contar as bienais, feiras de arte e outras mostras coletivas que existem por aí. Não adianta, pra conhecer o mínimo das artes visuais no Brasil tem que fazer como um bom jornalista, sujar os sapatos.

É arte: os trabalhos de Marcius Galan (SP) e Marcelo Silveira (PE). O primeiro brinca com o nosso olhar e sentidos com a Seção Diagonal, em que cria a simulação de um vidro — eu mesma passei a mão onde existiria o tal vidro várias vezes. O segundo traz a beleza. Respeitando as formas originais dos pedaços de madeira que encontra, M. S. poliu a matéria prima até ficar bem lisa as colocou em suportes de vidros, que também respeitam suas formas. Ninguém terá duvida que vidro e madeira são materiais que combinam.

obra de marcius galan

obra de marcius galan

obra de marcelo silveira

obra de marcelo silveira

É fato: falta conteúdo nas legendas. Não há o ano que as obras foram feitas nem a cidade ou estado que dos quais os artistas são. Da onde vem e de quando é a nossa arte nova? Eu não lembro de ter visto o ano das obras, idade dos artistas, nem a procedência dos mesmo. Apenas a galeria de cada um. Mas Bruno Teixeira afirma, nos comentários abaixo, que havia, sim, o ano das obras. Feita a retratação.

:: Nova arte nova: Centro Centro Cultural Banco do Brasil, R. Álvares Penteado, 112 – Centro. Telefone: 3113-3651. 3ª/dom 10h/20h. Grátis. Até 05 de Abril.

albers – pinacoteca do estado e instituto tomie ohtake

Me conte qual é sua obsessão. Duvido que você não tenha uma maniazinha. Eu tenho uma: fotos! E ando muito interessada em fotografar formas, cor, luz, sombra e reflexos. Essa minha mania, ou obsessão, no entanto, ainda está no campo do hobby. Mas há quem leve a sério a perseguição por um assunto.

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No Instituto Tomie Ohtake, está em cartaz a exposição Cor e Luz: Josef Albers, Homenagem ao Quadrado, em que você pode observar o trabalho de um obcecado profissional. O artista alemão Josef Albers (1888-1976) passou mais de um quarto da vida dedicado ao estudo das cores em uma única forma: o quadrado. Em uma composição de três quadrados de tamanhos variados, sempre um dentro do outro [imagem à direita], J. A. realiza seus estudos de cor. Não tem como não se encantar com a força e a beleza das cores tão bem utilizadas, sejam elas apresentadas variações de tons ou combinadas com outras aparentemente na a ver, como azul e marrom.  Para Albers, não existia essa de cores que não combinam, e sim, a vontade de juntá-las — e como azul, rosa pink e marrom ficam bonitos juntos.
Numa parede, em que há uma sequência de quadros de tom alaranjados e vermelhos, as composições chegam a ter efeitos ópticos, como se essas formas dançassem verticalmente, ou pulsassem nas telas.

Mas para saber mais sobre Albers e sua esposa, também arista, Anni, indico que veja  Anni e Josef Albers – Viagens pela América Latina, na Pinacoteca do Estado. Essa exposição, melhor organizada, traz, além de telas e tapeçarias, os estudos de core e formas do casal Albers e registros fotográficos das viagens feitas pela América Latina.

annicolarNão dizem que atrás de um grande homem há uma grande mulher? Anni (1899-1994), sem dúvidas, era uma grande mulher, quero dizer, uma grande artista — tão boa como o marido. Suas tapeçarias, com formas geométricas, e bijuterias, um tanto inusitadas,  são belíssimas. (Quem pensaria que uma espumadeira mais clipes de papel poderia resultar em um belo colar? [imagem à esquerda].)

É interessante também ver “os caminhos” percorridos por eles antes de elaborar um tarbalho. Em folhas de papel quadriculado/milimetrado, estudavam o caminho das linhas e suas possibilidades geométricas. O casal era tão obcecado pela natureza das formas que até as fotografias são registros geométricos, por exemplo, de pirâmides do Peru.

E claro, a exposição também conta com os estudos de cor de J. A., que estão na última sala. Agora, não dentro de quadros, mas em formas retangulares e com mais variações de cores, e não apenas três.

alberesÉ arte: na Pinacoteca, para fugir um pouco da rigidez do quadrado, observe a sequência  de claves de sol, de J. A. [imagem à direita]. Além da combinação de cores em formas circulares, a indicação musical pode ganhar outras interpretações dependendo da sua imaginação. (Eu mesma cheguei a ver um caracolzinho e/ou um cavalo marinho perfeitinhos. :-D )


É fato:
o Inst. Tomie Ohtake precisa aprender organizar exposições. 1º) Eles não sabem colocar legenda nas obras: você tem de passar por todas para ver, lá no fim da parede, o nome dos quadros. Por que não colocam a legenda em baixo de cada um? 2º) Não há um banco para sentarmos e apreciarmos com calma e conforto o trabalho do artista, que precisar de um tempo de observação. E não é por falta de espaço. As 45 telas estão expostas em duas salas enormes. Isso só para ficar nessa exposição. Eu nem vou comentar do exagero de A consistência dos sonhos, sobre José Saramago, e nem do aperto que estão as obras de Franz Weissman, em Franz Weissmann – experimentação e lirismo.

:: Cor e Luz: Josef Albers, Homenagem ao Quadrado — Instituto Tomie Ohtake, av. Faria Lima, 201 (entrada pela R. Coropés, 88), tel. (11) 2245-1900. Ter. a dom. 11h/20h. Até 01/03.

:: Anni e Josef Albers – Viagens pela América Latina — Pinacoteca do Estado, Praça da Luz, 2, Luz, tel. (11) 3324-1000. Ter. a dom., 10h/18h. R$ 4 e R$ 2; com direito a visita também à Estação Pinacoteca. Grátis aos sábados.  Até 08/03.

regina silveira – mundus admirabilis e outras pragas

Aos 15 anos fui, pela primeira vez, ao MAC – USP. Eu não me lembro qual era a exposição que estava em cartaz, mas eu me lembro, direitinho, de uma obra que vi. Era uma esculturazinha muito simples, de um homenzinho montado em um cavalo branco. Ela poderia ter passado despercebida se não fosse a enorme sombra (feita de vinil) que saía da peça. E ao olhar com atenção, comecei a notar que sombra não era exatamente a do homenzinho sobre o cavalo. A sombra em grande escala era de uma outra escultura: a estátua de Duque de Caxias, de Victor Brecheret, que está na Praça Princesa Isabel, no Centro.  Essa obra, que brincava com o olhar, é O Paradoxo do Santo, de Regina Silveira. Seis anos depois, quem podia imaginar que essa mesma artista estaria tão presente na minha vida. Escolhi Regina Silveira para ser personagem principal do meu TCC.

Então, na última terça-feira (07), lá fui eu à abertura de sua exposição: Mundus Admirabilis e outras pragas. Ao entrar, tive a impressão de que  galeria tinha sido infestada por um grande enxame de insetos e o zunzunzum das pessoas conversando dava vida às grandes imagens de borboletas, lacraias e baratas coladas nas paredes.  Convidados exibiam seus looks excêntricos, bebiam drinques e admiravam a obra de Silveira. A artista era cumprimentada com muito carinho por todos, que a abraçavam com vontade para parabenizá-la. No segundo andar, cruzei com ela na sala mais silenciosa. Um moço muito alto a abraçou demoradamente, e em seguida ela disse: “Isso é o resultado de um trabalho de um ano e meio.” Um ano e meio? – pensei. Pra mim, a exposição era o resultado de anos e anos de trabalho (mas, claro, ela poderia estar se referindo a uma única obra). Ali há obras que remetem a outras obras mais antigas, como Post Scripitum, que segue o mesmo estilo d’O Paradoxo do Santo, que tanto me encantou aos 15 anos. Ou, a tapeçaria, Macula, que lembra também o trabalho feito no prédio da Bienal de Taipei, em 2006. Regina também não deixa de referenciar quem considera sua maior influência: Duchamp, com a obra In memoriam – um mictório com a marca de várias mãos.

Há também trabalhos com projeções de luzes, de áudio e audiovisuais. E apesar do ineditismo das obras, em todas, você pode se lembrar de alguma outra já vista. A minha favorita, por exemplo, dessa exposição, é Infernus, que ao se debruçar sobre um poço, devido aos recursos audiovisuais, você tem a impressão que uma gota de sangue escorreu de você e pingou lá dentro. Vi uma obra semelhante na Pinacoteca do Estado. Mas debruçado sobre o poço, não escorria sangue, ou gotejava qualquer coisa, era possível observar a iamgem de uma lua (ou corpo celeste). Com certeza, mais romântico, mas não mais poético.

:: Regina Silveira – Mundo Admirabilis e outras pragas – Galeria Brito Cimino. R. Gomes de Carvalho, 842, 3842-0635. 2.ª a 6.ª, 10h/19 h; sáb., 11h/17 h. Até 13/12. Grátis.

beatriz milhazes – pinturas, colagens

 

Ela não estava como nas fotografias que saem nos jornais, sites e revista - de camiseta sem estampa, calça jeans, descalça ou de sapato baixo. Calçava uma sandália dourada de salto de madeira de uns 6 cm (não mais), vestia uma saia godê cor jeans claro, de cintura alta, e uma camisa de mesma cor, mas estampada com motivos florais. De familiar, das fotos divulgada na imprensa, constava só os cordões de ouro no pescoço, os brincos de argolas e os cabelos espiralados bem armados - que, cuidadosamente  com as mãos, ela mesma os deixava entre um cumprimentar e outro.

 

Assim estava Beatriz Milhazes na abertura de sua exposição na Estação Pinacoteca. A artista de um milhão de dólares, passeava cumprimentado convidados e visitantes, enquanto o seu sobrinho, de uns nove anos, registrava tudo com uma máquina digital, que recentemente ganhou do pai. A exuberância de suas telas e suas cores desavergonhadas não são reflexos de traços da sua personalidade. Beatriz é tímida. Durante a abertura, parecia um pouco desconcertada com os visitantes que se aproximavam e abraçavam-na para dizer parabéns, que ela educadamente agradecia com um sorriso amarelo. Alguns ainda se faziam de íntimos e contavam a Beatriz fatos sobre sua vida que nem ela mesma sabia. Como uma senhora de corpo opulento, vestida de preto, que se aproximou da artista e questionou: “Você é mineira, né?”. “Não, nasci no Rio, e morei lá a vida toda” – respondeu a pintora. “Ah, mas sua família é de Minas”. “Não, não tem ninguém da minha família de Minas. Meu pai tem parentes na Bahia.” Não satisfeita a senhora insistiu: “Mas eu li! Eu tenho certeza que alguém da sua família é de Minas. Mas parabéns pela exposição, do mesmo jeito.” “Obrigada!” – agradeceu aliviada e comentou: “Esses jornalista dizem coisas sem saber sobre a gente e acabam se tornando verdades”. Jornalista, que, no papel, Beatriz também é. Formou-se em jornalismo em 1982, mas no segundo ano da faculdade se frustrou e foi estudar pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Rio de Janeiro.

 

As obras de Beatriz são diferentes das que vemos nas exposições de artistas contemporâneos – trabalhos conceituais, criticando o próprio papel da arte, ou a política. O trabalho da pintora conseguiu atingir um público que estava cansado dessa arte-protesto, e a procura da arte contemplativa, algo que lhe agradasse os olhos, que lhe transmitisse alegria. Não há uma mensagem, há uma composição de formas geométricas e dançantes, que lembram uma escola de samba passando na avenida e profusão de serpentinas e confetes jogados para o alto, e tantos detalhes quanto uma igreja barroca, que fogem aos olhos se você não parar.

 

No vídeo, mais informações sobre a exposição.

[Mas antes um aviso: Esse vídeo não é recomendado para quem tem labirintite e todos outros ites. E uma errata: essa não é a primeira mostra individual da pintora, e sim, a primeira mostra individual em museu. Assim que eu conseguir um microfone, eu conserto.]

 

 Prometo ficar apenas nas imagens estáticas daqui por diante, ok?

 

É arte: a exposição como um todo. Mas o destaque fica mesmo para os vitrais. O efeito da luz colorindo o chão e as paredes é lindo.

É fato: faltam bancos nas salas em que estão os quadros. Um banquinho para passar um tempo sentado em frente as telas contemplando-as cairia bem. 

 

 

paulo bruscky, em entrevista

Como postei no blog experimental do meu grupo na faculdade, o plasticamente:

Conheci o trabalho de Paulo Bruscky na 26ª Bienal, em que o artista montou um pedaço do seu ateliê na mostra – uma verdadeira zona. Depois, me deparei novamente com seu trabalho numa exposição no Itaú Cultura, Futuro do Prensente. Nessa, Bruscky expôs a série: “O Meu Cérebro Desenha Assim”. A retomada de uma performance iniciada na década de 1970, quando utilizava o aparelho de eletro-encefalograma para produzir desenhos.

E ainda sobre o mundo acadêmico, entrei em contato com artista plástico a fim de entrevistá-lo para um trabalho cujo tema era o ano de 1968. E ele aceitou, mas pediu que eu enviasse as perguntas por e-mail. Porém a facilidade eletrônica nem sempre é a ágil: a resposta chegou dias depois da entrega da atividade.

Contudo, a entrevista não perdeu a validade. Pois quem quiser conhecer o trabalho de Bruscky após ler a entrevista, é só correr ao MAC da Cidade Universitária, no qual está exposta sua primeira exposição individual em um museu: “Ars Brevis”, até o dia 28 deste mês.

 

artefato.k: Como você entrou para o Grupo Fluxus?

Paulo Bruscky: Através da arte correio, desde o início dos anos 70, e quando ganhei a bolsa de artes visuais da Fundação Guggenheim, em 1982, fui morar em Nova Iorque e tive contatos pessoais com alguns dos seus integrantes, como Dick Higgins, Ken Friedman e John Cage, entre outros. Posteriormente, fui residir em Amsterdam e entrei em contato com Klaus Gröh, Robert Rehfeldt e mais alguns integrantes do grupo Fluxus, além de ter participado de vários eventos com seus membros, tendo inclusive realizado uma performance com Ken Friedman.

 

a.k: Na sua opinião, como o grupo e a arte postal influenciaram as artes plásticas?

PB: Depois da Pop Art, foi o único movimento a nível internacional surgido, e teve uma força maior porque o subterrâneo do mundo todo estourou simultaneamente.

 

a.k: E como influenciou a forma de fazer arte?

PB: Na verdade, na arte correio o importante é a informação e o contato: é a vida na arte.

 

a.k: Quais eram os artistas com quem se correspondia?

PB: Robert Rehfeldt, Klaus Gröh, Ken Friedman, Clemente Padin, Horacio Zaballa, Edgardo Vigo, Jorge Caraballo, Guillermo Deisler, Mike Crane, grupo Texto Poético, Fred Forest, Antoni Muntadas e muitos outros.

 

a.k: A data “Maio de 1968″ completa 40 anos neste ano, como foi este ano para você?

PB: Acho que o ano de 68, independentemente de Paris, foi um ano importante da resistência, não só no Brasil como em toda a América Latina, com relação aos regimes ditatoriais e a arte correio teve um papel fundamental nessa luta e em mudanças de conceitos.

 

a.k: Estava realizando algum trabalho nessa época? Qual?

PB: Sempre trabalhei bastante nas minhas idéias, e é difícil citar apenas um trabalho, mas no período trabalhei muito com poesia visual, intervenções urbanas, objetos e trabalhos conceituais.

 

a.k: Chegou a ter alguma obra censurada?

PB: Tive grande parte da minha produção censurada, inclusive a minha própria pessoa; cheguei a ser preso três vezes pela ditadura militar.

 

a.k: Como era ser artista, produzir obras e realizar performances durante a ditadura?

PB: Era enfrentar o risco com a própria vida, porque só assim é que se mudam as coisas.

 

a.k: E qual foi a melhor obra que produziu até agora?

PB: A que eu vou fazer.

 

a.k: Há alguma que você não gostaria de ter feito?

PB: Tudo que fiz.

 

:: Ars Brevis: até 28/04. MAC, Rua da Reitora, 160, Cidade universitária. tel: 3091-3039. Terça a sexta: 10h às 18h, sábado e domingo: 10h às 16h. Grátis.