o jesuíta de quatro séculos


[Perfil do guia de turismo Ivaldo Vieira para o, então, jornal Esquinas SP (páginas 5 e 6 do pdf).]

No Páteo do Collégio, o Padre José de Anchieta reaparece como contador de histórias e apresenta o marco da cidade de São Paulo a turistas

AOS DOMINGOS PELA MANHÃ, O Padre José de Anchieta caminha pelo Páteo do Collégio, numa colina entre
o Rio Tamanduateí e o Riacho Anhangabaú. Apoiado num cajado de madeira rústica, vestindo uma longa batina marrom e calçando sandálias de couro, o padre anda a passos calmos e abençoa algumas pessoas que lhe pedem a graça. A mesma cena poderia ser descrita no ano de 1553, quando o ainda Irmão Anchieta desembarcou na Vila de São Vicente. Mas o padre e o lugar ao redor de onde cresceu a cidade de São Paulo já
não são os mesmos. Quem caminha entre os edifícios do centro da maior cidade do Brasil é Ivaldo Roberto Vieira, 56 anos. Ele interpreta o sacerdote no roteiro turístico Túnel do Tempo no centro histórico da capital paulista, e conta histórias do lugar aos visitantes.

Ivaldo foi convidado a participar do roteiro por Mário de Moura Lacerda, diretor da escola de turismo ABL e Associados, que forma guias turísticos na capital, e criador do roteiro Túnel do Tempo. Em 2003, Ivaldo concluiu um curso de guia regional de São Paulo nessa escola, onde acabou chamando a atenção do professor Lacerda ao criar uma peça de teatro para o encerramento das aulas.

Mas a tarefa não era fácil como Ivaldo pensava. A estréia da personagem só aconteceria em janeiro de 2004. O diretor havia pedido a ele que cumprimentasse os turistas nas quatro línguas que o padre José de Anchieta falava (português, espanhol, tupi e latim), pesquisar sobre o fundador da cidade e redigir o texto da apresentação. Para compor seu papel, foram seis meses de pesquisa, oito livros lidos sobre o padre e conversas com o professor Eduardo Navarro, da Universidade de São Paulo, que leciona tupi antigo e é especialista em sua personagem. Navarro, que já foi seminarista, mostrou ao recente aluno livros e escrituras da época de Anchieta e o ensinou a dizer “seja bem vindo, estou muito feliz com a sua presença” em tupi e em latim.

Sem batina — Era a primeira oportunidade de trabalho em São Paulo para o homem que veio de São Roque. Nascido e criado na cidade do interior do Estado, entre nove irmãos, Ivaldo é filho da dona de casa Isís Pedron e do mágico Ivo Vieira, que também foi maquinista da antiga Ferrovia Sorocabana, que ligava as cidades de São Paulo e Sorocaba. A vinda para São Paulo aconteceu depois que Ivaldo se divorciou de Sônia. Conheceu a esposa, com quem ficou casado por 22 anos, nos bailes da cidade. Ivaldo e outros cinco amigos, inspirados na banda inglesa Beatles, formavam um conjunto musical que se apresentava nesses bailes. O gosto pela música e pela dança permanecem até hoje. O guia turístico já trabalhou como freedance — bailarino contratado para acompanhar mulheres solteiras em bailes — em São Paulo, e hoje não perde um baile na capital. Solteiro, ele gosta de conhecer mulheres pela internet. “Quero aproveitar a ‘solteirisse’, mas não quero ter envolvimento sério pelos próximos 22 anos”, avisa.

Do casamento com Sônia, nasceram três filhos: Vinícius (por causa do poeta Vinícius de Moraes), de 27 anos; Karen (em homenagem à cantora Karen Carpenter), de 24; e Cléber, de 22 anos (nome dado após consulta numerológica). Os três freqüentaram escola de circo e teatro durante a juventude, mas é Karen que hoje pretende trabalhar com o pai, interpretando algum personagem criado por ele para novos roteiros na cidade. Além de guia turístico, Ivaldo trabalha como gerente de projetos na empresa de turismo Circuito São Paulo, que comprou o roteiro do professor Lacerda em outubro de 2004.

Entre os novos personagens que Ivaldo criou, estão um soldado da Revolução Constitucionalista, apresentado no obelisco do Parque do Ibirapuera, e a arquiteta italiana Lina Bo Bardi, que será apresentada no vão livre do Museu de Arte de São Paulo. O bairro do Ipiranga também está nos seus planos: “É um lugar totalmente histórico, que merece um roteiro”.

Antes de trabalhar com turismo, o intérprete de padre Anchieta era professor de geografia na escola estadual Professor Germano Negrini, em São Roque. Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Sorocaba, lecionou durante 15 anos. Foi também nessa época que passou a se interessar pelo misticismo. Durante um passeio com alunos num parque de diversões em São Paulo, Ivaldo consultou um tarô eletrônico por brincadeira. “Eu tremi com o que ele disse, porque 90% era verdade”, conta. No dia seguinte, decidiu consultar uma cartomante, que na leitura das cartas repetiu as palavras do brinquedo do parque. “Fiquei tão intrigado que fui estudar cartomancia”, diz Ivaldo, que freqüentou cursos sobre o assunto por seis meses.

Preparação — Em São Paulo, ele continua a ocupar as carteiras escolares. Uma vez por semana, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, ele freqüenta um curso de estudos sobre o padre Anchieta. Ivaldo acorda, todos os dias, às 6h. Escolhe um livro para ler enquanto toma café e às 10h chega à sede da Circuito
São Paulo, que fica a dois quarteirões de sua casa, no Brooklin, região sul de São Paulo. Aos domingos, às 8h45 já está no Páteo do Collégio, preparando-se para a apresentação de Anchieta. Ainda de calça jeans e camiseta, ele coordena, através de um rádio-comunicador e com a ajuda da produtora Elaine, o início do
circuito turístico, que acontece no bairro da Liberdade, no centro de São Paulo.
Quando os turistas chegam à Praça da Sé, Ivaldo apressa-se para se vestir. Enquanto espera o grupo chegar, observa às escondidas a apresentação que acontece no Solar da Marquesa de Santos — e também faz parte do circuito — atento para que nada saia errado.

Depois da apresentação, o guia faz questão de acompanhar o circuito até o final. Embarca num ônibus turístico com o grupo de visitantes e seguem para o Teatro Municipal, onde um ator representa o maestro e compositor Carlos Gomes. Ivaldo observa a apresentação e repete em voz baixa cada fala, como um diretor de um teatro. De volta ao ônibus, ele encerra o passeio declamando um poema de sua autoria sobre a cidade de São Paulo. “Esse momento é o auge para ele”, conta Priscila Melich, 33 anos, que já trabalhou na produção do circuito. Depois de se despedir dos turistas, volta caminhando ao Páteo do Collégio, com a sensação de mais um dia de trabalho bem cumprido.

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