Em nome da boa reportagem


[Entrevista feita para o Site de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (16/01/2007)]

Por Karina Sérgio Gomes, 2º ano de Jornalismo

“Imprensa atual está contaminada por jornalismo declaratório”

A banca avaliadora do livro-reportagem Tragédia no vôo 402, projeto experimental realizado pelos alunos Guilherme Massa Guimarães, Joyce Ribeiro Silva, Rafael Araújo Castro, contou com um dos mais famosos jornalistas brasileiros: Caco Barcellos, consagrado repórter da TV Globo e atual apresentador da série “Profissão Repórter”, exibida pelo Fantástico.

Após anunciar a nota dez conferida ao trabalho, o jornalista nascido em Porto Alegre concedeu uma breve entrevista ao Site. A conversa se dividiu em duas partes. A primeira ocorreu na sala Aloysio Biondi, enquanto Barcellos, sentado, abria e fechava incessantemente as hastes do óculos de armação de acetato azul. Mais tarde, o bate-papo prosseguiu em plena Avenida Paulista, até que ele chegasse ao estacionamento onde estava seu carro.

Autor de livros como Rota 66 – A História da Polícia que Mata (Record, R$ 41, 352 p.), vencedor do prêmio Jabuti de 1993 na categoria melhor obra de não-ficção, e Abusado – O Dono do Morro Dona Marta (Record, R$ 56, 588 p.) sobre a trajetória do traficante Marcinho VP, Barcellos conta sobre o início de sua carreira, como a série “Profissão Repórter” busca colocar em prática antigos valores do jornalismo, e sobre a importância dos livros-reportagens.

Como o Cláudio Barcelos deixou a faculdade de Engenharia para se tornar o jornalista Caco Barcellos?
Foi por acaso, como tudo na minha vida. Escrevia desde garoto, mas morria de vergonha de mostrar meu texto. Na faculdade de Engenharia, fui convidado a escrever para o jornal do Centro Acadêmico. Como na faculdade de exatas ninguém gosta de escrever, aceitei correndo. Na seqüência, um grupo hippie também me convidou para colaborar em uma publicação que vendíamos de mão em mão nas ruas. Um dia, um jornalista comprou esse jornal, gostou muito e nos convidou para fazermos um teste na Folha da Manhã. Logo me apaixonei pela profissão. Depois que virei estagiário, me perguntaram se eu tinha faculdade. Respondi que tinha, mas não revelei que era Engenharia. Ao final, eles disseram: “Olha, a gente quer te contratar. Traga os documentos da faculdade”. Aí eu pensei: “Meu deus! O que eu faço agora? Descobriram meu blefe!” Então corri até a faculdade, consegui fazer a transferência, apresentei o documento da faculdade de comunicação e deu tudo certo.

Qual a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma?
Tive a sorte de fazer o curso de comunicação já trabalhando na área. Minha grande faculdade foi a rua, mas acho que a faculdade tem um papel importante. Fico encantado com a qualidade da formação desses jovens com quem agora tenho a oportunidade de trabalhar [na série “Profissão Repórter”]. Reconheço que depende muito da postura de cada um, independente da qualidade da faculdade. Se você não tiver interessado em se formar com qualidade não adianta. Mas a gente tem que pensar no aluno que está interessado em uma boa formação, e para ele a ferramenta faculdade é indispensável. A decorrência disso é o diploma, mérito de quem se formou. Todas as profissões passam por esse processo, médicos, engenheiros. Você, como jornalista, não pode praticar medicina, nem engenharia. Então, por que eles poderiam praticar jornalismo? O importante é que a informação de qualidade não fique fora das redações pelo impedimento do diploma. Você pode trazer o cientista às vias do repórter, e o instrumento mais adequado a essa transferência é o trabalho da imprensa. Acho que a gente faz isso melhor do que os profissionais de cada segmento.

Como surgiu a idéia do programa Profissão Repórter?
A idéia foi minha. Há dez anos tenho o projeto de fazer reportagem com vários olhares simultâneos, e ao mesmo tempo revelar os bastidores do trabalho, os erros e os acertos, as dúvidas, as questões éticas. O jovem ali é um detalhe, não secundário, mas um detalhe. Não é um projeto focado em novos talentos, e sim na reportagem. Não há nada de novo no projeto. Trata-se de uma coisa muito antiga: o valor da reportagem, que está esquecida nas grandes redações.

Qual foi o critério de seleção dos participantes?
A TV tem um sistema de seleção de talentos muito profissional, o Estagiar. Avaliamos os 30 escolhidos nos últimos cinco anos, para selecionar quem participaria. Mas, independente disso, quem tiver um trabalho legal que queira mostrar pode enviar também. Houve dois participantes que a gente contratou a partir da obra feita. Pessoas que não conseguiram passar pelo Estagiar, mas trouxeram seus documentários.

Como é a experiência de avaliar um livro-reportagem feito por quem está saindo da faculdade?
O que você acha da iniciativa desses alunos? Acho que é uma iniciativa maravilhosa porque, como jornalista já experiente, sinto que os meios de comunicação não estão dando ênfase ao trabalho da reportagem. As empresas estão contaminadas pelo jornalismo mais ligeiro e leviano, pouco profundo, que é declaratório e baseado no fuxico. Isso prejudica a investigação feita pelo jornalismo mais sério e responsável, sobretudo quando lida com denúncia. Esses valores foram esquecidos. É uma prática antiga que a imprensa sempre deu grande importância: a investigação autônoma e independente. A iniciativa de valorizar o jornalismo investigativo, e um trabalho de fôlego como é o da reportagem, é super pertinente. Os livros-reportagens vendem muito mais do que os de ficção porque há uma necessidade de mercado. Elas [as editoras] torcem para que as revistas e os jornais continuem a menosprezar o repórter, pois estão contratando-os para serem escritores.

O livro seria então uma forma de “combater” esse jornalismo imediatista e sem embasamento?
Acho que as coisas podem coexistir. Não sou contra o jornalismo instantâneo, desde que seja responsável. A entrevista, por exemplo, é muito importante para o início de um trabalho, não para o produto final. Na entrevista você pode dizer maravilhas a respeito de uma pessoa, assim como pode dizer barbaridades. Cabe ao jornalista fazer um filtro. E esse filtro não se pode fazer ao vivo, tem que ser com fôlego, com trabalho. E não há tempo. Você pode precisar de quinze dias como de um ano, como já aconteceu comigo algumas vezes, mesmo na TV.

O que você acha de um de seus livros-reportagens, Abusado, ser obra de leitura obrigatória do vestibular da Faculdade Cásper Líbero?
Fiquei muito orgulhoso [quando soube da notícia], até porque as companhias são maravilhosas [além de Abusado, a lista possui obras de Manoel de Barros, Jorge Andrade, Mia Couto, Machado de Assis e Graciliano]. Fiquei muito feliz por uma faculdade de qualidade como a Cásper Líbero achar que meu livro pode contribuir para a formação de novos profissionais. É maravilhoso! Foi a melhor notícia que tive com o Abusado. Maravilhoso!

Você já trabalhou em jornais, revistas e na televisão. Há muita diferença na liberdade para se exercer a prática jornalística em cada meio?
Trabalhei em vinte redações e não há diferença nas coisas positivas e negativas. A gente tem que pensar em um conjunto, e cabe a cada um brigar pela independência de seu trabalho. Nunca cruzei com nenhum chefe que tenha impedido que eu desse o melhor de mim. Todos querem o seu melhor, e cabe a você, quando sentir que a sua criatividade estar sendo contida por algum chefe, pular o muro, avançar o sinal.

De que maneira seria possível solucionar uma situação de enfrentamento como essa?
Acho que o melhor caminho para fazer isso é a persistência. Digamos que um determinado chefe quer que você faça determinada matéria, e apresenta uma sugestão de pauta e 30 documentos que dão base para a sua reportagem. Depois você consegue dois mil documentos provando que aqueles do seu chefe são inverídicos. Cabe a você provar que sua pauta, agora, é melhor que a dele. Nunca, no meu caminho, um chefe disse “não, fique com trinta inverídicas e jogue fora as duas mil verídicas”. Às vezes não há o espaço merecido, mas ninguém lhe obriga a fazer o que você não quer, sobretudo sobre algo que não seja correto. Muita gente se queixa de determinada redação, mas o que conta mesmo é o talento, a garra e a persistência do trabalhador, que faz com que ele acabe achando o seu espaço, sempre.

Está satisfeito trabalhando na televisão?
Me orgulho muito de trabalhar na TV. É um privilégio que eu gostaria que muita gente tivesse, pois quem gosta de contar histórias gosta de ser ouvido, e a TV é um veículo maravilhoso. É legal você imaginar que pode contar uma história e ser ouvido por tanta gente. O jornalismo é uma profissão fascinante.

 

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