Nas menores coisas


[Crônica para o site de Cultura Geral]

 

Um homem. Não chamaria a atenção se não estivesse tentando pescar algo no ralo da praça da Sé.

Segurando uma linha com um imã amarrado na ponta, tentava baixar-lo por entre as frestas. Seus olhos reluziam, o sorriso confirmava: só poderia estar brilhando, ali, uma grande moeda dourada e prateada de um real. Sentei no degrau da escadaria da Catedral da Sé para observar a pesca urbana.

Por ali, vários seres de dar medo. Medo pela condição humana que se encontram e por saber que sozinha não poderei fazer nada por eles. Medo por não conseguir prever sua reação ao me aproximar. Por não saber qual é o real limite do ser humano em tal condição. Estarão próximos de uma explosão? Por que não se revoltam? Sem comida, sem roupas, expostos a frio de 5 graus, sem um lar, sem amigos, sem escovar os dentes ou falar, só esperando a morte, vivendo por viver. Aquele pescador também era mais um desses desafortunados, sem futuro, sem nada. Quer dizer, dali alguns minutos com um real, com o qual ele poderá comprar um copinho de cachaça para se esquentar naquele gélido fim de manhã.

Observava as tentativas frustradas. Muitas foram as vezes que o imã subiu sozinho o que fez o sorriso ostentado no começo se transformar numa expressão séria, compenetrada. Mordiscava o lábio inferior tamanha a concentração. Gesto que o aproximou de mim, que também tenho o tique de mordiscar a lábio inferior em momentos tensos.

Conseguiu! Mas muito foi o meu espanto quando vi que, na ponta da linha segurando o imã, não estava a moeda do meu imaginário. Lá, uma correntinha prateada com um pingente. Um pingente que parecia uma medalhinha de algum santo.

O homem sorriu, logo colocou-a no pescoço e veio andando.. Passou pelos turistas que disparavam seus flashes para alto retratando a grandiosidade da catedral, transitou pelos seus iguais, aproximou-se da escada, olhou para cima e, firme, subiu os degraus passando por mim.

Dei um tempo, fui atrás. Um novo arregalar de olhos. Percebi que os raios sol do meio dia, reluzidos pelos vitrais dentro da Sé, dão uma coloração dourada às colunas de concreto. A frieza da cinza construção ganhou o encanto do dourado e me atraiu ainda mais para dentro. Ao entrar, me rendi à arte gótica e fiz o nome do pai. Procurei o pescador, achei.

Senti-me infeliz. Ele ajoelhado no banco rezava. O sentimento não-reclame-mais-da-vida voltou. E por um instante eu tive a certeza de que a alegria está nas menores coisas, ou maiores coisas. Como acordar numa gélida manhã e perceber que está vivo. Respirar, às vezes, basta.

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