memórias de bienais


Arte, arte contemporânea, o nada, o tudo. Definitivamente, não é muito fácil compreender o que há de arte num espaço em branco, ou numa tela preta, ou num urinol. Arte contemporânea está muito mais no plano das idéias do que plano sensível, diria Platão. Com essa discussão sobre o que será da 28º Bienal, tenho algumas opiniões sobre. É válido ressaltar que minha experiência com mostra internacional é pequena, mas meu interesse pelo assunto é grande. Por isso discutirei sobre bienais neste e num próximo post.
A minha primeira foi a 25ª, tinha 15 anos e estava ansiosa para visitar algo extremamente novo, quer dizer, ver arte nova; pois, no que diz respeito a museus, já estava iniciada. Seria minha primeira visita ao futuro. Sim. Quando você visita museus, você visita o passado; quando você visita uma Bienal que propõe mostrar as novas tendências de arte, você está visitando o futuro, não?!
Lembro que paguei R$ 12, quer dizer, R$ 6, porque era estudante, e lá passei o dia. Cheguei às 11h e sai mais de 19h. E mesmo assim, não vi tudo. Mas aprendi muito. Como adolescente de 15 anos, minha intenção era descobrir por que tudo ali era considerado arte, o que tinha de arte numa obra intitulada: “Gaiola das Loucas”, que não passava de uma gaiola com um espelho no chão? Bem, lá entendi que a “provocação” era exatamente o que alguns artistas queriam com suas obras. Eles queriam me provocar, me irritar, me fazer refletir. E eu me rendi. Aprendi ali que arte contemporânea exigia de mim um pouquinho mais de esforço, e um pouquinho menos de pura contemplação. Passei a gostar muito daquele tipo de arte, especialmente do Jose Rufino, de quem foi a única obra que eu realmente entendi, plasmátio. Conheci também uma artista estadunidense chamada Kara Walker.
Mas mal eu sabia que aquela minha primeira bienal teve tantos problemas quanto essa que está por vir. O mesmo Ivo Mesquita, que será curador da 28ª, fora demitido, depois readmitido e decidiu desligar-se para definitivamente para ser substituído pelo alemão Alfons Hug, o primeiro estrangeiro a fazer a coordenação artística do evento. Mas antes disso, a 25ª tinha sido adiada – ela deveria ter acontecido em 2000.
Crises, problemas financeiros ladearam a 25ª, cujo titulo era “Iconografias Metropolitanas”. E também enfrentou muitas críticas por não ter o núcleo histórico, com presença de pintores já conhecidos por todos, como Picasso, Munch ou Goya. Mesmo com ingresso sendo pago, vários problemas com curadoria, aquela Bienal bateu recorde de público: 668.428 pessoas visitaram o pavilhão Ciccillo Matarazzo. Até Ivo Mesquita reconheceu: “É assim que tudo acontece no Brasil, as crises ajudam a quebrar tabus e nesse caso liberou os curadores de se ocuparem do núcleo histórico; a função da Bienal é ser contemporânea.”
Visitei as outras duas que seguiram a 26ª, “Território Livre”, de mesmo curador e com a inovação de ingresso grátis. Lembro de ter ficado impressionada com a obra de Paulo Bruscky que levou o seu ateliê para a mostra (que na época me lembrou muito o meu quarto), e ter ficado encantada com a obra de Beatriz Milhazes – tanto que hoje o meu mouse pad é reprodução de uma obra dela. Lembro também na época ter discutido a questão da gratuidade do ingresso, mas ser grátis tinha tudo a ver com o tema da mostra. Como uma bienal como o tema “território livre” poderia ser paga?
Agora, na última, não sei meu repertório aumentou ou se realmente estava ruim. Eu não gostei, não consegui gostar. “Como viver junto” era exatamente uma mostra de como não dá para viver junto. Talvez eu tenha ido num dia tumultuado –lembro que chovia. A entrada também era franca, na 27º, o que atraiu a muitos curiosos que faziam cooper no Parque do Ibirapuera entrar para ver. Afinal, estava chovendo. Pessoas nenhum pouco interessadas tocavam nas obras que não podiam ser tocadas, posam ao lado de outras e disparavam flashes. A mostra parecia uma grande feira livre, fui atropelada por várias crianças que corriam pelo local. Ok, democratizem a arte, mas dêem educação para as pessoas freqüentarem o espaço. Aprendi algumas coisas, como sempre. (Você sabia que Acre significa fronteira?) Gostei das obras que envolviam os temas acreanos e os seringueiros. Gostei também da instalação do artista Marcos Reis Peixoto, que lembrava uma chuva de guarda-chuva; e da cidade de açúcar de Meschac Gaba. Apesar de ter gostado de algumas coisas, o resultado final não foi nada positivo. Saí de lá achando tudo uma baita bagunça e com a sensação de ter visto muito pouco sobre arte e o que estaria por vir…
Leia mais em “memórias de bienais #2
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4 comentários sobre “memórias de bienais

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