futuro do presente


Vinte anos. Para quem tem (recém feitos) vinte e um anos, pensar em daqui vinte anos, parece pensar numa eternidade e, ao mesmo tempo, parece ser um tempo curto demais para fazer tudo que se quer. Mas e para arte? Para as artes plásticas, o que será dela daqui vinte anos? Quais artistas estarão na “moda”? O que será arte? E o mundo? É isso que o Itaú Cultural propôs aos artistas da mostra “Futuro do Presente”. A instituição, nesse ano, comemorou vinte anos e, depois de uma retrospectiva, decidiu pensar no futuro. Os artistas pensaram em várias versões de futuro: novas formas de vida, de arte, de relações entre arte e vida.Começando pelo primeiro mezanino, duas obras me chamaram atenção: uma pelo tamanho, outra (talvez) pela minha profissão. “Jardim Suspenso”, de Chiara Banfi, é composto por duas mesas de aço, de alturas diferentes (155 e 160 centímetros, respectivamente), e aformica (nada geométrico, um formato amebóide, digamos). Nelas, há uma abertura, pela qual você entra e passa a ver o mundo por um jardim de erva-cidreira e citronela – será que daqui vinte anos, as pessoas sentiram esse cheiro? Saberão qual é o aroma da terra molhada? Poderão tomar um chazinho de erva-cidreira colhido na hora? Terão algum contato com a natureza? Ou todo verde macio já será o cinza duro?

A outra, ainda neste andar, é “Jornal do Não Artista”, de Nelson Leiner. Numa banca de jornal, estão expostos objetos (ainda na embalagem) daqueles fascículos que vêm com brindes para colecionar, e exemplares do Jornal do Não Artista, em que há uma retrospectiva da obra do artista e a discussão do papel do artista – pegue lá o seu.

No primeiro subsolo, está a divertida obra de Paulo Brusky, a série: “O Meu Cérebro Desenha Assim”. O artista retoma sua pesquisa iniciada na década de 1970, quando utilizava o aparelho de eletroencefalograma para produzir gravuras. Estão expostos cinco desenhos de seu cérebro do início de sua pesquisa e mais de cinco desenhos e um vídeo produzidos em 2007, agora coloridos com a benção dos recursos gráficos – em desses atuais (creio eu) está representada a Via Láctea. No centro da obra, uma vitrine abriga projetos propostos por Bruscky, entre eles a máquina de gravar sonhos, e correspondências da sua época do Fluxos, movimento liderado pela Yoko Onu.

Ali, também está uma obra interessante, ou melhor, orgânica (para não dizer nojenta): “Máquina Seca”, de Fernando Lindonete. A obra traz trabalhos do artista, um deles feito com barro. Mas esse barro e as pinturas foram preparados de uma maneira diferente: com a boca. Sim. O artista mastigava o barro e pintou a parede com a língua. Nojento? Sim, mais ainda é ver o vídeo dele preparando o material usado.
E por último, mais embaixo: segundo subsolo. E o pensamento sustentável está na obra de Cildo Meirelles: “Elemento desaparecendo/Elemento desaparecido”. Um freezer com picolés de água estão expostos e estão sendo distribuídos em alguns parques. Você pode encontrar os sorvetes em três formatos diferentes, mas o gosto é o mesmo: de H2O. Após tomá-lo, só restara o palitinho com a frase: “Elemento desaparecendo/Elemento desaparecido”. Não preciso dizer mais nada, vale a reflexão.
E neste subsolo também está o jardim de pedra de Amélia Toledo – na verdade, “Confluência de Paisagens”. Uma folha de aço inoxidável ondula pela sala delimitando os dois espaços circulares que compõem a obra. Você pode sentar no meio das pedras de quartzo verde, fuchsita e azuis e ver as imagens espelhadas e distorcidas no plano de aço polido. Não sei por que, sentada nas pedras vendo as imagens distorcidas no aço, relembrei da infância (quase vinte anos atrás) e de um episódio do Chapolin: “Não são pedras, são aerólitos!
É arte: a obra “deserto”, de Paulo Vivácqua. Sente-se no chão, e fique um tempo pensando em você e no mundo daqui vinte anos, ou em nada. É uma obra que vale a simples apreciação.
É fato: o Itaú Cultural não tem guarda-volume, e visitar a exposição com bolsa, ou mochila, é um tanto incomodo.
:: Futuro do Presente, Até 10 de fevereiro de 2008. Itau Cultural, Avenida Paulista, 149. Cerqueira César. São Paulo. Terça a sexta, 10h às 21h; sábado, domingo e feriados, 10h às 19h. Infs: (11) 2168-1776. $ Grátis
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