ex-libris _ confissões de uma leitora comum


A minha paixão por livros e por arte é uma coisa que não sei de onde veio. Mas a de Anne Fadiman, com certeza, veio do sangue. Anne é uma pessoa apaixonada por livros, e declarou esse amor em Ex-Libris, Confissões de uma leitora comum. O qual ganhei de uma leitora nada comum, uma pessoa cujo lema de vida é bem próximo de: ler é viver. Eu que não tenho isso como um lema, mas gosto da atividade tanto quando ela, e quis logo devorar as páginas. E por isso fui repreendida:

– Karina, não disse que era para você ler no aeroporto? Assim como eu li

O pedido soou como uma ordem. Ex-libris é, diferente de “A Invenção de Morel“, perfeito para se ler em indas-e-vindas. E assim fiz. Entre a espera para embarcar e as 9h de vôo até Toronto, as confissões de Anne foram lidas.

Anne é uma jornalista, de família literata, que ama, sobretudo, livros. Ela é daquelas que dão vida a eles: dobra as páginas para marcar onde parou a leitura, conversa com os autores escrevendo nas laterais. Eles se tornam uma extensão da vida dela. E por meio dessa relação, como está escrito na orelha (um pouco amassadas por marcar as páginas em momentos que precisava mesmo parar): “a autora mostra como seus livros prediletos se tornaram capítulos de sua história pessoal e, em rara combinação de humor e erudição, discorre sobre temas como leitura em voz alta, plágio, dedicatórias e livros usados, entre outros.”

Ex-libris despertou em mim afeto, risos e uma certa implicância. Me apaixonei pelo marido de Anne, que a presenteou com 8,5 kg de livros de aniversário. Claro, eu adoraria ter um marido que me desse um presente como esse, mas o meu carinho por George veio pela identificação. Logo primeiro capítulo, ela conta que só se sentiu casada, quando eles casaram suas bibliotecas. E a descrição, de como George organizava a dele, fez com que eu me lembrasse da minha estante: “Seus livros se misturam sob a bandeira super abrangente da Literatura.” Nada de divisões na minha estante também. Cada livro se acomoda como quer. Qual é o problema de um Machado de Assis querer ficar ao lado das fotos do Cristiano Mascaro, que gosta de se acomodar ao lado de Nora Roberts?

O riso é quase inevitável quando ela fala das descobertas das palavras quando criança. Pois a minha descoberta veio nas horas trancandas, no banheiro, com o imenso dicionário de capa couro – o qual eu adorava folear a procura de palavras grandes e difíceis (para uma criança). Assim como a implicância também foi inevitável quando li: “devem existir escritores cujos pais não possuíam livros, e que buscaram refúgios em professores, livreiros ou bibliotecários. Mas eu nunca conheci nenhum”. Epa! Claro, eu não sou escritora, mas juro que senti uma vontade enorme de escrever para ela contando como nasceu a minha relação com a literatura. Assim, ela iria conhecer alguém cujos pais não possuem livros (excluindo os que eu dei de presente e manuais de mecânica), mas que adora gastar horas acompanhada por eles na rede no quintal. Ok. Talvez a implicância veio junta de uma inveja por não ter uma família como os Fadiman, que ela exalta o tempo todo dizendo quanto eles são bons e admiráveis leitores.

É arte: O projeto gráfico. Não sei se a Anne pensou nisso, mas Ex-Libris é o livro perfeito para quem gosta de ler a todo o momento e em qualquer lugar: o formato da obra é muito bom de pegar. Sem contar a fonte e os detalhes agradáveis e bonitinhos.

É fato: Assim que ler a primeira linha só vai parar quando a última palavra for lida. E vai sair correndo para reler aquele seu livro favorito e reviver sensações.

:: Ex-libris, Confissões de uma leitora comum, de Anne Fadiman. Jorge Zahar Editor. 164 págs. R$ 32,00.
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3 comentários sobre “ex-libris _ confissões de uma leitora comum

  1. Li o Ex-Libris há pouquíssimo também, agora em março. Parece haver algum tipo de sincronicidade a esse respeito entre nós, Karina. E me encantou. Também me foi recomendado por uma amiga, mas ela, ao contrário da sua, não foi tão exigente no que tocava o entorno e a circunstância para a leitura. Mas entenderia perfeitamente, pois o livro evoca esse tipo de ritual, e consegue transmitir com efeito a química que se estabelece na relação do leitor com os livros e o próprio ato de ler. Os próprios temas e autores parecem ser um pretexto para descobertas fanásticas, que geram histórias talvez mais incríveis que as que as motivaram. Adorei. Aguça e desperta o gosto pela boa leitura.

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