queridos amigos


Porque cultura de massa também é arte.

 [abertura]

Geralmente as pessoas da mesma idade que eu gostam de seriados e odeiam minisséries e novelas. Eu sou o contrário, a-do-ro uma trama novelesca – bem contada, claro. Nesses últimos meses, acompanhei o trabalho da minha teledramaturga favorita, Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral. Em resumo, o drama tem como fio condutor a história de Léo (Dan Stulbach), que, depois de descobrir que está doente, decide organizar um encontro da “família”, um grupo de amigos que não se reunia há sete anos. Ao todo, foram 25 capítulos (todos no You Tube) que contaram a história desses amigos em novembro de 1989, uma época em que todos eles (e o mundo) passavam por uma perda de referência da esquerda e o crescimento do individualismo.

Como alguns me disseram, e eu incorporei, a minissérie foi “meio loser”. Realmente, as personagens tinham um quê de perdedores, eram intensos e dramáticos. Ninguém era puramente bom, nem puramente mal. Todos tinham uma melancolia, e ninguém conseguiu ser feliz a trama toda – na verdade, muitos choraram em todos os capítulos. Ou seja, um retrato de como os seres humanos são: cheios de fraquezas. Até Léo, que parecia o ser mais perfeito, em muitos diálogos, as outras personagens falavam de seus defeitos e ações – bem “humanas”, diga-se de passagem – antes de decidir reunir a família de amigos.

Por ser uma minissérie, tudo era muito rápido e intenso. Capítulos curtos e exibição apenas quatro vezes na semana, o que deixava uma “saudade” na sexta-feira: “Poxa, agora só na terça!” – eu lamuriava. E agora, 25 capítulos depois, a minissérie se foi, deixando um buraco nas minhas noites de terça a sexta. Na última semana, já sentia falta dos meus “queridos amigos”, especialmente de Rui (Tarcisio Filho) e Lúcia (Malu Galli), minhas personagens favoritas. Essas despertaram, em mim: afeição, nas cenas de cumplicidade do casal; tristeza, quando o casamento deles ficou abalado; raiva, quando Pedro (Bruno Garcia) se aproveitava da crise do casal e da fragilidade de Lúcia, para dar em cima da amiga.

Agora, recorro as páginas do livro “Aos meus amigos”, que leio lentamente para não terminar tão rápido quanto à adaptação, para suprir a falta da “família”.

É arte: O livro “Aos meus amigos”, de Maria Adelaide Amaral. Estou na página 101 e, até agora, a obra parece uma continuação do último capítulo da minissérie. É incrível como a autora, com uma linguagem rápida, dá conta de mais de 10 personagens sem se perder, ou causar qualquer confusão no leitor. É um texto invejavelmente claro.

É fato: dizem por aí que a minissérie foi bem mal no Ibope. O primeiro capítulo registrou a audiência mais baixa comparando com outras: 23 pontos. Ouvi até dizer que a Globo pretendia encurtá-la, e só não fez isso porque não tinha conteúdo para passar no lugar. Isso mostra que os brasileiros não estão dispostos a ver seus defeitos expostos na telinha. Ainda preferem se realizar na utopia de um final feliz, a mocinha sofrendo para ficar com o mocinho e malvado morrendo no final.

:: Queridos Amigos: Brasil, 2008. 25 Capítulos. Minissérie. Escrita por Maria Adelaide Amaral. Direção: Denise Saraceni.

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7 comentários sobre “queridos amigos

  1. Acho que a minissérie foi muito boa, mas a questão da audiência tem pouco a ver com a qualidade. Se a minissérie foi boa ou não. O público está bem cansado do formato televisivo e prefere a internet e há ainda a questão de que embora muito se fale do anos 80 – é um momento ainda indigesto por tudo que representou para os brasileiros. Uma espécie de ferida aberta.
    E as pessoas querem coisas do tipo BBB. Onde a realidade é uma falsa ilusão mas que convence aos que assistem.
    Eu confesso que prefiro o livro que já li antes da minissérie ir ao ar, mas acho que o trabalho foi muito bem feito, como de costume. Faltou as pessoas identificarem que a monotonia e a tristeza também eram características dos anos 80 porque a grande maioria acredita que tudo era festa e não era.
    Abraços meus e grata pela visita

  2. Sabe, eu não acompanhei muito bem essa série, ás vezes eu conseguia parar quieta e assistir. Achei que a trilha sonora foi bem elaborada, no mais não quero nem comentar para não ser ridícula e criticar uma coisa que eu não acompanhei. E eu também não sou adepta das séries, não é um hábito meu.

  3. Muito legal o post!
    Engraçado, pois eu também gosto de telenovelas e minisséries, como também gosto do trabalho de Maria Adelaide Amaral, mas eu perdi os primeiros capítulos dos “Queridos Amigos”, aí me desanimei assiti-lo na íntegra. Uma pena, pois pelo que percebi, perdi uma “puta” minissérie! Mas vou conferir lá no youtube 😉 e tentar achar esse livro aí e ler tb …

    Agora, sobre o seu comentário … é mesmo, não dá pra separar a arte da vida …
    Eu sempre digo que a vida e a arte andam juntas … mas há uma grande diferença entre elas … é que a arte é suportável… agora a vida… nem sempre! =)

  4. Obrigada pelos comentário. De fato a minissérie foi muito boa. Eu terminei ontem de ler o livro e também gostei muito. Assim que der escreverei um post comentando sobre.

    Abraços!

  5. Sinceramente, AMEI esse seu texto, com certeza ‘Queridos Amigos’ deixou muuuita saudades e também um vazio em minhas noites! Eu amava também a Lúcia e o Rui, todas as cenas deles foram intensas e bem representadas, me fez mrgulhar na trama e no universo deles e sofrer com eles, comemorar a reconciliação com eles, foi realmente incrível, descobri a Malu (Galli) aí, e ela se fez uma revelação impagável, que atriz fascinante!!!
    Estou em busca do livro pra ver se supro essa carência da série, pra mim acho que deveria ter durado mais, assim com a Maria Adelaide também queria, pois afirmou que a GLOBO a limitou muito, uma pena que a população não saiba apreciar arte de verdade, realmente lamentável!
    Parabéns pelo seu trabalho! Beijo!

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