“pau brasil” e “paulicéia desvairada”


 

Era apenas mais um dia de trabalho. Minha última visita do dia era ao Centro universitário Maria Antônia – que tirando a importância histórica, o prédio não trazia muitos atrativos, e a exposição da vez era fraquíssima. Até que uma palavra se iluminou: LIVRARIA. “Ah, não custa nada dar uma olhadinha!” – pensei.

 

Logo, a prateleira da Companhia de Bolso me chamou a atenção com o título do João do Rio, “A alma encantadora das ruas”. A mão coçou. Olhei, olhei, li alguns trechinhos, olhei de novo, acariciei a capa e disse: não! Foi quando virei as costas e um linho verde, cuja capa traz os símbolo da bandeira nacional, fez meu coração bater mais forte e, como um imã atrai um metal, fui atraída com fúria para a vitrine-bancada. “Moça, me deixa ver esse aqui, por favor?”. Ela me deu e ficou me olhando. Eu não conseguia acreditar em ter nas mãos uma edição idêntica à original, de 1925, do livro “Pau Brasil”, de Oswald de Andrade. As folhas, a capa, os desenhos da Tarsila do Amaral, a ortografia da década de 1920 e ainda com a reprodução da dedicatória feita ao Mario de Andrade. Folheava com cuidado acariciando cada verso, contornava com o dedo as ilustrações da Tarsila, vivia ali uma sensação única, uma emoção… Como rever amigos que a gente não vê há muito tempo e se abraçar longamente.

 

E no meio do meu delírio com o livro, a vendedora perguntou: “Será que você não quer levar esse também?”. Era o Mário! Quero dizer, outra edição fac-similar perfeita de “Paulicéia desvairada”, de Mario de Andrade. Mario na mão direita, Oswald, na esquerda, foi como se o tempo parasse por alguns segundos e eu já me visse entre os modernistas em 22. Mas eu vivo em 2008, onde a economia é capitalista: quanto valeriam aquelas preciosidades? Na hora, o único pensamento foi: “eu nunca mais vou ter o Oswald e o Mario de maneira tão próxima e tão real quanto essa.” Me certifiquei se o cartão de crédito estava na carteira, entreguei os dois no caixa e moça me disse o valor: R$ 20. Eu logo rebati: “Mas são dois”. Ela explicou: “Sim, R$ 10 cada um. R$ 20!” Eu já tava abismada com a verossimilhança da edição, eu fiquei mais chocada ainda com o preço.

 

Os livros faziam parte de uma edição especial da Edusp chamada “Caixa Modernista”, na qual continha: os dois livros, reproduções do convite e do catálogo da exposição de Tarsila do Amaral na galeria Percier, em Paris, o primeiro número da Revista Antropofagia, de maio de 1928, reprodução de postais com obras significativas, e o CD Música em Torno do Modernismo, produzido por José Miguel Wisnik e Cacá Machado. Como a caixa já saiu de catálogo, devem ter sobrado alguns exemplares desses dois livros, por isso agora estão vendendo-os. (Onde será que eu encontro a reprodução do convite do catálogo da exposição da Tarsila?)

 

É arte: a coleção do Mario de Andrade, que está parcialmente exposta no IEB (av. Prof. Mello Morais, tr. 8 nº 140 – Cidade Universitária. Tel. 3091-3199), em exposições temporárias. 

É fato: apesar de serem muito amigos, Mario e Oswaldo brigaram e morreram sem fazerem as pazes.

 

:: Pau Brasil, de Oswald de Andrande. Sans Pareil (Edusp). 112 págs., R$ 10.

:: Paulicéia Desvairada, Mario de Andrade. Casa Meyença (Edusp).128 págs. R$10.

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2 comentários sobre ““pau brasil” e “paulicéia desvairada”

  1. Não há lugar melhor no mundo que uma livraria!
    Amo, me perco , passo horas… lavo minha alma.

    beijos

  2. Nossa, no Maria Antônia, né? PRECISO ter isso!! Só que nunca fui lá… Nem sei como faço para chegar… Ai, que coceirinha… Credo… fiquei pensando na tua viagem no tempo… Leva amanhã para eu ver, please?
    beijocas e obrigada pela dica!!

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