filosofia em comum – para ler-junto


Sentadas numa banco, no Parque Trianon, Mariana tira um livro da mochila e pergunta:
– Você conhece? – respondo:
– Não, posso ver? – mas antes de me passar o livro ela diz:
– É o novo livro da Márcia. Vou ler um trecho para você:

“O livro que tenho em mãos é um objeto munido do espírito de ser um corpo inanimado, porém falante.
Cuidado, este livro pode aquecer… e explodir.
Brincadeira, eu estava só oferecendo um tom dramático para ajudar o sisudo leitor (eu mesmo). Mas não estou dizendo nada disso, estou apenas lendo esse ‘dispositivo’.
Se eu estiver olhando de modo estranho… bom deixa para lá. Na verdade, a pessoa que escreveu está brincando comigo que estou lendo.”

O tal dispositivo era o novo livro da filosofa Márcia Tiburi, “Filosofia em comum – para ler-junto”. A idéia de um livro de introdução à filosofia, que propõe discussões filosóficas entre as pessoas, me agradou. Então, depois de me despedir da Mari, fui atrás do livro. Mas estava esgotado em todas grandes livrarias que o procurei. O achei na Martins Fontes, em um dia que buscava por perfis de artistas plásticos. O começo do livro muito me empolgou. Enquanto lia, sublinhava trechos e escrevia na margem os nomes das pessoas com quem eu gostaria de compartilhar cada frase.

Gabriela: com quem costumava conversar muito mais do que hoje, e tem um carinho tão grande pelas palavras quanto eu, a encontrei nesse trecho da página 12:

“A linguagem é sempre simplificação diante do mistério do que existe. Só podemos supor nosso esforço de dizer, jamais o que não pode ser dito. O mistério nos escapa ainda que não deixamos de segui-lo. Filosofia é propriamente o modo de dizer, é a tentativa de aproximação com o outro e com as coisas pelas palavras. Carregadas de conceitos e idéias, as palavras são como mãos que unem corpos inteiros, histórias de vida, desejos, projetos. Quando realmente conversamos é como se estivéssemos de mãos dadas.”

Izabel: companheira de reclamações, crise universitárias e se tornou fã de carteirinha de Fernando Pessoa meses atrás, não pude deixar de me lembrar dela na página 54:

“Pensar então não é mais que um vago, uma sensação de pensar, como se o raciocínio perambulasse entre imagens, lembranças e sensações, névoa por todos os lados onde seria de se esperar algo certo, e andasse – em inícios sem fim – em círculo fechado, sem sair de si. Talvez por isso Fernando Pessoa tenha dito que “pensar é estar doentes dos olhos”. O poeta queria designar o pensar como estando em sua própria caverna, olhando para o seu próprio umbigo, como sendo o que não vai além de si, que se basta a si e, em certo sentido, se perde em si. Pensar, no começo é esta estranha ação satisfeita no seu próprio espelho.”

Bruno: meu confidente literário e amante de poesia, estava ali na página 94:

O poeta é um alquimista do devaneio. A poesia absorve as vozes do devaneio e as transformam em sentido. O devaneio é o eterno recurso do poeta, a experiência essencial que se faz a um passo além do vago do pensar, quando pensar dá um passo em direção ao seu ser livre. A liberdade, bem o sabemos, não é a vida no vácuo, mas a presença do movimento diante do obstáculo, como o vôo do pássaro que necessita do ar. O poeta pode ser um trabalhador cuidadoso do texto, mas, sem o inicial momento de inspiração, de intuição e liberdade radical da expressão de suas vozes internas, ele não fará poesia.

Camila: que, num almoço, comentou sobre sua crise existencial, identifiquei na página 161:

“O encontro no espaço virtual [Internet] não substitui nem supera o encontro concreto, e, ainda que elimine distâncias, não elimina todas as existentes. […] Só existe relação entre pessoas justamente porque a relação não está dada, todo encontro envolve movimento de um em direção ao outro para que uma ponte se construa entre eles. A construção da distância é algo que precisamos compreender. A  distância é o nome próprio da separação, ou seja, da não-relação. […] A aproximação é o primeiro momento da relação. Não há relação sem aproximação, nem distância sem separação. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso se confunde.”

Mandei esses trechos para as respectivas pessoas, que não me responderam. Também esse não era o intuito. Eu só queria mesmo compartilhar a leitura que estava fazendo.  Além das partes citadas, há várias outras frases sublinhas e muitas anotações nas margens – resultados das reflexões feitas em frente ao espelho sobre as questões contidas no meio e no fim de cada capítulo.

Mas, nas últimas páginas, percebi que o li em um momento errado. Não estou na fase me questionar e responder perguntas. Ao contrário, hoje, faço perguntas e quero que me dêem as respostas. Volto a este livro daqui a alguns anos. Inté!

É arte: a proposta da Márcia Tiburi realmente é muito boa. A filosofa escreve como se estivesse conversando com você, e vai te envolvendo nesse mundo filosófico cuja base, pelo que entendi, é aprender a pensar. O que não é nada fácil.

É fato: se a leitura for feita com outras pessoas será muito mais agradável, certeza. O livro propõe muitas questões, e chega uma hora que cansa ficar pensando sozinha. Parece ser necessário juntar a sua idéia com a de mais alguém, discutir, para saber se está no caminho certo.

:: Filosofia em comum – para ler-junto, de Márcia Tiburi. 2008. Editora Record. 188 págs. R$ 24.

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6 comentários sobre “filosofia em comum – para ler-junto

  1. Lindos os trechos que separou. Me identifiquei com alguns, o que só deu vontade de ler o livro.
    Mas com a sua observação que dá vontade de discutir sobre, terei que repensar sobre lê-lo.

    Gostei do blog, volto mais vezes.

    Bjs!

  2. Olá,
    Estava assistindo uma entrevista sua no canal gospel, a qual gostei muito mas senti pelo apresentador. Infelizmente a ignorancia dele até mesmo em relação a como formular quetões completas deixou a desejar…
    Vou ver se leio o livro, achei bastante interessante.

    Bj
    Sara Toledo

  3. Minha? Acho que houve um engano, não dei nenhuma entrevista. Vc deve ter visto uma entrevista da Márcia Tiburi, certo?

    E sobre o livro, a proposta é bem interessante mesmo. Aproveite a leitura!

  4. =)
    Eu gosto muito da Márcia Tiburi! Estou também para comprar este livro, mas nas livrarias da minha cidade não tem, acabou!
    Acho legal este trabalhao, esta preocupação que a Márcia tem pelo o filosofar, para os “leigos”, ler um livro de introdução à Filosofia (ao pensar) escrito pela Márica, com certeza, estarão em um bom caminho! 😉

    Até mais!

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