a invenção da solidão


Escrevendo o post sobre Edward Hopper, me lembrei de um livro que li há algum tempo: A invenção da Solidão, de Paul Auster. É uma reflexão sobre a paternidade, na visão dele como pai do pequeno Daniel e como filho do Sr. Auster; e também das solidões que nós, humanos, “inventamos”. A história é muito bonita e há várias referências a personagens solitários, como Pinocchio. Mas o que mais marcou foi uma passagem sobre o quadro O quarto, de Van Gogh:

 

A primeira impressão de A. foi de fato uma sensação de calma, de “repouso”, como o artista descreve. Mas aos poucos, à medida que tentou habitar o quarto apresentando na tela, começou a experimentá-lo como uma prisão, um espaço impossível, uma imagem não tanto de um lugar para morar, mas sim da mente que foi forçada a viver ali. Observe ali. Observe com cuidado. A cama bloqueia uma porta, a cadeira bloqueia a outra porta, a janela está fechada: não se pode entrar e uma vez lá dentro, não se pode sair. Sufocados no meio dos móveis e dos objetos do dia-a-dia no quarto, começamos a ouvir um grito de sofrimento nessa pintura e, uma vez que ouvirmos, ele não pára mais. […] O homem nessa pintura (e é um auto-retrato, em nada diferente do retrato de um homem, com olhos nariz e lábio e queixos) ficou o tempo demais sozinho, debateu-se tempo demais no abismo da solidão. O mundo termina na porta bloqueada. Pois o quarto não é uma representação da solidão, é a própria solidão.

 

Depois que eu li isso, um quadro nunca mais foi um mero quadro. Comecei a prestar muita atenção nas obras que gosto para ver além dos elementos artísticos, além do que está óbvio e o porquê da identificação. Ao folhear o livro e ler algumas frases sublinhadas, vejo que se aproxima a hora de lê-lo de novo.

 

É arte: as passagens das leituras de Paul Auster para o seu filho, Daniel.

É fato: os poemas de Paul Auster, contidos nesse livro, são bem fracos. A Gabriela, que é fã do escritor, me disse que ele já confessou que realmente poesia não é o seu forte e não escreveria mais versos. Boa decisão!

:: A invenção da solidão, de Paul Auster. 1999. Companhia das Letras. 200 págs. R$ 40,50.

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2 comentários sobre “a invenção da solidão

  1. Ka, é engraçada a impressão que este quadro dá em mim. De cara é algo leve, acho que por causa das cores. Mas depois é solidão mesmo. Pura solidão. [D.]

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