máquina de pinball


Nunca joguei pinball numa máquina de verdade, só no computador. Mas eu sei que, se tentar trapacear inclinando a máquina, aparece o aviso de tilt e você perde o jogo – daí vem a expressão “deu tilt!”, parou de funcionar, travou, deu pau. O livro de Clarah Averbuck, Máquinha de Pinball, é exatamente isso: um tilt. A história do livro é praticamente a mesma do filme Nome Próprio (que é muito melhor que o livro), de direção de Murilo Salles. Camila é o tipo de mina que se acha a última bolacha do pacote mas não tem onde cair morta. E vai vivendo aos tropeços, bebendo, fumando, tomando anfetaminas, transando com conhecidos e desconhecidos.

O livro todo parece um grande post de um blog. Clarah escreve de maneira totalmente informal e, arriscando um pouquinho, ousaria dizer que a autora segue os princípios de André Breton – seguindo o seu fluxo de pensamento. Mas, claro, se tratando de Clarah Averbuck, ela nunca aceitaria isso, assim como não assume que Camilia é seu alter ego. Um detalhe que muito me irritou, mas é o muitos chamam de estilo, é a forma como ela encadeia as idéias. Não usa vírgulas, e sim uma série de “e”. Por exemplo:

Estranho é o cara sair de maleta às 6h47 da manhã todos os dias, pegar o ônibus até o metrô e do metrô até a pequena companhia de seguros e trabalhar até às 6 em ponto e voltar para casa e comer bife com arroz na frente da TV sem falar com a mulher (que fez o bife com arroz) e nem olhar direito para os filhos (que mal sabem quem é aquele sujeito de barba que eles chamam de pai) e dormir (de pijama azul) logo depois do jornal noturno porque está cansado, muito cansado, e amanhã vai ter que fazer tudo de novo e depois também e depois vai se aposentar e olhar pra trás e achar que a vida foi digna e honesta e justa e que viveu uma rotina estúpida em que não conseguia diferenciar um dia dos outros.

No começo do livro ela quase não usa esse artifício, mas depois parece que aprende e utiliza a série de “e” para encadear qualquer coisa, empobrecendo o “recurso estilístico”.

Quando terminei o livro, pensei: que m…, que arrogância. Mas depois pensei de novo: ela não quer agradar ninguém, quer irritar, quer apenas escrever por escrever. E me deu dó: que ser humano vazio.

É arte: nenhuma. Ah, talvez podemos considerar o bom gosto dela em usar, como epígrafe, trechos de músicas, Tomorrow is my turn , de Nina Simone, e And you still want me, de The Kinks, por exemplo.

É fato: depois de ver como Camila/Clarah é deprimente com seu vocabulário cheio de palavrões, decidi que vou parar de utilizar essas palavras de baixíssimo calão. Além de ser feio, mostra uma pobreza de vocabulário incrível. Ah, e não indico o livro para ninguém. Só li porque, como diz a Gabriela, é melhor criticar com conhecimento de causa.

:: Máquina de Pinbal, de Clara Averbuck. 2001. Conrad Editora. 80 págs. R$ 17,60.

Anúncios

9 comentários sobre “máquina de pinball

  1. Mt bem. Sempre é bom criticar com conhecimento de causa. Eu ainda não li Paulo Coelho…preciso ler pra fazer isso [D.]

  2. não é legal dizer coisas assim, mas não consigo evitar: eu avisei, eu avisei…

  3. Eu baixei o download, mas ainda não li tudo. Entretanto, as páginas que li me pareceram uma tentativa meio pobre de tentar se enquadradar em um estilo de escrita como a do Jack Kerouac, precursor do movimento beat cujo livro, On The Road, é um clássico da literatura americana.

    Sobre o recurso estilístico, ou melhor, a falta dele, talvez tenha sido apenas escolha da autora mesmo. Claro que empobrece um texto, mas escrever com liberdade e optar por enquadrar esse liberdade em regras ou não é uma escolha do autor. Dependendo de como isso é feito, transparece a autenticidade de um texto ou não. Há quem goste e quem não goste. Esse mesmo livro, na Inglaterra, fez um p*** sucesso ao passo que aqui, no Brasil, só ficou conhecido depois que o “Nome Próprio” apareceu nas telas de cinema!

    Gostei muito da sua resenha crítica: pareceu-me madura e eloquente!;)

  4. Sabe quando se lê alguma coisa e o corpo começa a responder com tiques nervosos. Talvez seja a vergonha pelo outro. Senti isso ao ler as críticas feitas à Clarah Averbuck. Críticas ao livro tenho várias, mas passam bem longe das que você fez. O livro realmente não é de riquíssimo conteúdo estilístico mas é corajoso e, pelo amor de deus, estamos realmente precisando disso. Sem palavrão, ai, ai, é disso que temos necessidade.

  5. Corajoso? Coragem é quando se fala da ousadia de Oswald e Mário de Andrade em fazer literatura moderna em 1920. O que a Clarah faz é tipinho. E não acho que precisamos de palavrão falso da literatura de C. A. Bem, mas há gosto para tudo.

  6. Caríssima pessoa que postou,
    Admiro seu exímio conhecimento da língua portuguesa, bem como dos recursos linguíticos dessa. No entanto sou obrigada a ressalvar que, utilizado como exemplo, o trecho que você cita do livro apenas confirma que Clarah Averbuck tanto sabe utilizar palavrões (incansávelmente, diga-se de passagem), como recursos linguísticos.
    Você deve conhecer a literatura do modernismo, creio eu. Então deve saber que o polissíndeto é um recurso utilizado justamente para dar o efeito que Clarah (ou Camila, ou seja lá quem for) pretendia.

    Clarah escreve de maneira displicente? Jura? Que estranho, né?! Não tem nada a ver com o jeito dela…

    Bom, tenha certeza de que seu post a deixou muito feliz. Complete-o com: “essa pessoa vazia e arrogante não faz nada além de literatura de blog”. Assim ela poderá colocá-lo na lista de “críticas idênticas, uhuu”.

    Gracias, amigo.

  7. Amigo,
    Para mim, saber fazer uso de palavrão não quer dizer nada. Eu sei que ela queria dar um efeito. Mas quando mal usado, ou usado em demasia, o efeito esvazia. E literatura de blog? Já que entende tanto do legado, imagino que saiba que falar de literatura de blog é um tanto precoce. Eu ainda não reconheço isso como literatura.

    E eu não sou crítica, isso é apenas um comentário sobre um livro que li.

  8. gente esse livro é muito pornográfico e não acrescentou em nada do meu saber literário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s