28ª bienal: considerações


Como comentei sobre a 28º Bienal Internacional desde quando apareceu na mídia a idéia, lançada por Ivo Mesquita, da Bienal do vazio, me sinto na obrigação de finalizar o assunto para os três queridos leitores fiéis desse blog e para os outros, também queridos, visitantes que passam por aqui.

Fui à Bienal 3 vezes: a primeira antes da abertura, quando tudo ainda estava sendo montado; a segunda, no dia da abertura; e a terceira junto com a minha queridíssima amiga Mariana, num sábado comum. Li boa parte das notícias do evento e quase toda semana consegui pegar um 28b para conferir o que rolou e o que rolaria. Passado as setes semanas da exposição, tiro as seguintes considerações (preparem-se: será longo, porém, divididos em tópicos):

Tucanaram o vazio

Planta Livre, também chamada de vazio

Eu gostava muito da idéia do vazio representar a crise financeira da Fundação. Mas com a proximidade da inauguração do evento, o vazio virou a possibilidade de mostrar a arquitetura moderna de Oscar Niemeyer. HELLOOO!!! Não sou contra o vazio, concordo com ele estar ali para representar a falta de verba, a corrupção etc. Pensei que ele estivesse ali para uma reflexão sobre o evento, sobre o excesso de tudo (consumo, informação, violência…) que vivemos hoje, e não para uma mera contemplação arquitetônica. Ok, contemple, mas também reflita.  Para encerrar o assunto, é melhor reproduzir a opinião de alguém entendido (e que também virou meu único assunto nos últimos meses e será por todo 2009), que respondeu muito bem a pergunta feita pelo jornal Folha de S. Paulo, O que colocar no vazio?

Não colocaria coisa alguma, o espaço vazio proposto deve mostrar ainda a que veio: se de um lado ele é conceitual, precisa manter-se mesmo vazio e funcionar como metáfora espacial de um ponto zero de atitudes e decisões, sem o que não ha espaço para renovação. De outro lado ele é um vazio físico, concretamente o espaço desocupado dos mil metros quadrados de um dos andares, dando presença apenas ao edifício ou a seus fantasmas. Este vazio arquitetônico é a própria corporificarão da circunstancia difícil de organizar um mega evento com prazos e recursos excessivamente curtos.
Entendi que Ivo Mesquita aceitou a curadoria desta Bienal para não deixar soçobrar uma instituição cuja importância e história ele respeita. Confio que a partir do que esta versão se propõe, como critica e reflexão com o olho no futuro, o vazio seja um lugar para a projeção de idéias conseqüentes das quais se possa extrair um modelo mais ativo, social e culturalmente.

Regina Silveira, artista
[Folha de S. Paulo, quarta-feira, 22 de outubro de 2008: [o que colocar no vazio?]]

Pichações: vandalismo ou arte?

ATAQUE AO VAZIO 3/15

ATAQUE AO VAZIO 3/15

A ação de pichadores causou na Bienal. Depois do ato, a segurança foi reforçada e a tal idéia de interação foi reduzida. Ai que saco ter de enfrentar a fila para deixar a mochila no guarda volumes, passar pelo detector de metais, ser revistada pelas guardetes… Mas como diz meu pai: você tem de saber usar a liberdade que lhe é dada, senão ela é cortada. E a máxima: “por causa de uns, todos pagam o pato”, também pode ser usada nesse caso. Enfim, os pichadores, mandados por Rafael Guedes, foram lá tentar preencher o vazio de maneira insultuosa: quebraram vidros e picharam as paredes clamando por liberdade de expressão, arte para todos, contra o vazio etc. E o que os visitantes ganharam com isso: segurança redobrada e das pichações, que no mesmo dia foram removidas, só sobraram as notícias. Então, eu me pergunto e pergunto a vocês: será que isso é mesmo uma manifestação artística? Até que ponto isso é vandalismo ou é arte? E se esse tal Rafael se orgulha mesmo  de suas ações, por que ele mesmo não vai lá fazer suas pichações (ou sua arte) em vez de mandar jovens da periferia? Ainda reflito. Eu já tive o muro da minha casa pichado e não gostei nadinha. Sou sim, sem dúvidas, a favor da liberdade de expressão, mas sem perder o respeito.

Tamanho: P

obra da dupla mineira O Grivo

obra da dupla mineira O Grivo

O tamanho da mostra, pra mim, foi ideal. Deu para aproveitar boa parte das obras dos 48 artistas. Eu não sei se estou ficando velha, mas exposições grandes demais me cansam e eu não consigo aproveitá-las direito. Então, quanto menor, melhor. Mas eu concordo que, quem planejava VER, deve ter ficado um pouco frustrado. A 28ª edição era mais para LER. Boa parte das obras tinha alguma ligação com o universo das letras, seja pelo tipo ou pela obra literária, como Double game, da Sophie Calle – a artista se apropriou do livro Leviatã, de Paul Auster. Acho bacana quando há essa ponte, seja com literatura, cinema, música, ou até mesmo com outras obras. E várias obras dessa Bienal propuseram a  interdisciplinaridade.


Pra que serve uma Bienal?

Esse era um dos motes defendidos pelos curadores a respeito do evento. Oras, é a mesma coisa que perguntar para que serve uma Mostra de cinema, uma Bienal do livro? A desculpa de que hoje há uma facilidade para se conseguir informação e por isso a função da Bienal está em xeque, chega a ser risível. Uma Bienal Internacional de Artes é um evento para as pessoas que gostam de artes visuais, assim como a Mostra de cinema é para quem gosta de filme, e a Bienal do livro ou a Flip, para quem curte literatura. Mas claro, se continuar sendo tratada dessa forma, será, sim, apenas mais uma mostra de arte, como os próprios curadores argumentaram. Apenas, não. É uma mostra de arte! E precisa ser bem-feita, pois a função já está no próprio nome: MOSTRA = MOSTRAR. É um evento que tem a finalidade de, a cada dois anos, MOSTRAR/REUNIR nomes das artes visuais, sejam eles já consagrados ou não. Acho essa discussão “para que serve uma Bienal” é muito mais vazia do que a “Planta Livre” (o vazio do segundo andar).

E o que é arte?

a roda de bicicleta, marcel duchamp
a roda de bicicleta, marcel duchamp

Essa discussão já deu pano pra manga. Mas em uma exposição em que um andar vazio é arte, um homem andar pelado é arte, um tobogã é arte e um ato de vandalismo, para alguns, foi considerado arte; não tem como não perguntar: o que é arte? Antônio Houais diz, dentre muitas rubricas, o seguinte:

1    filosofia: segundo tradição que remonta ao platonismo, habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional
15    estética: produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana

Mas achar uma resposta para essa pergunta é inútil. Porque, como definiu Oscar Wilde: “Toda arte é completamente inútil”. E Wassily Kandinsky, em Do Espiritual na Arte, já me ensinou:

Numa palavra: não existe mal maior do que a compreensão da arte.

Para Kandinsky, a arte tem de ser vivida, não explicada. Pois “uma palavra sem vida (uma etiqueta) toma o lugar de uma obra viva”. E depois ele diz: “A obra de arte é o espírito que, através da forma, fala, se manifesta, exerce uma influência, fecunda.”

E, para mim, isso também é a Bienal. Não tem de ter uma função, tem de existir e ser bem-feita. Porque nela os artistas se manifestam, o evento em si exerce uma influência, fecunda, em algumas pessoas, o interesse por arte — como em mim.

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5 comentários sobre “28ª bienal: considerações

  1. Nao pude ir, nem eu tive tempo, nem voce pra me acompanhar (tsc tsc tsc), mas me senti um pouco melhor lendo isso.. bjs, dear

  2. As pichações no vazio, como você diz, foram resolvidas em um único dia, enquanto isso a pichadora foi condenada à 4 anos…Pena estranha num país onde circula livremente, Fernando Collor de Mello, sua ex-primeira dama, Saney…e toda uma corja de bandidos imunis.
    Mediocre de fato, foi a arte-consentida (convidada) apresentada na Bienal.

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