fama & anonimato


Regina Silveira está resfriada.cia_letras_fama

Essa notícia me fez, na hora, lembrar do livro Fama & Anonimato, que li assim que entrei na faculdade. O livro é uma coletânea de matérias/perfis do super jornalista, pai do New Journalism, Gay Talese. Dentre essas(es), está o perfil conhecidíssimo d’A Voz: Frank Sinatra está resfriado.

O texto e a apuração de Talese são de realmente tirar o chapéu. Ele faz um retrato tão detalhado de Sinatra que parece ter sido amigo íntimo do cantor durante anos, quando na verdade nem o entrevistou. Às vezes fico pensando se isso também não seria interessante no caso do meu trabalho. Visto que já entrevistei assistentes, ex-alunos, cinegrafista da artista e críticos de arte. Mas aí, perderia a lógica de ter escolhido um artista que estivesse vivo para contrariar a idéia burra, porém predominante, de que artista plástico só é reconhecido depois de morto. E outra, eu quero, e muito, entrevistar Regina Silveira, ter as minhas impressões mais reais possíveis sobre a artista e confirmar dados que levantei. Faz parte do processo. No apêndice, há o texto Como não entrevistar Frank Sinatra, em que o jornalista conta os bastidores do famoso perfil. Talese revela o horror que tem do gravador e dá a dica para conseguir anotar literalmente as aspas que considera ótimas:

É então que saco o meu caderno de anotações e digo “Mas isso é uma maravilha! Deixe-me anotar exatamente como vc disse?”

Bem, eu não uso essa tática e uso o “ouvido mecânico” — assim que Talese se refere ao gravador. Segundo ele, muitos, que usam o aparelho, desencanam do que o entrevistado está falando. Afinal, basta ouvir a fitinha depois. Mas eu prefiro “pensar” como Regina Silveira, a tecnologia está aí para fazermos uso dela. É um meio, não o fim. Gravo, sim, mas para me sentir mais segura quanto às aspas e observar bem o entrevistado enquanto fala, como gesticula, suas expressões. E tomo notas também durante a entrevista, para não esquecer de perguntar questões que surgem no decorrer. Enfim, não sei qual é melhor método. Provavelmente o dele, afinal, já se consagrou. Enquanto isso, como disse Humberto Werneck, eu sigo sujando os sapatos — um deles até já arrebentou.

É arte: os outros perfis de Fama & Anonimato. Não deixe de ler O perdedor, e toda parte II – A Ponte, que conta a história da construção da ponte do Brooklyn.

É fato: eu não sei exatamente quando Gay Talese escreveu o apêndice, mas ali ele já apontava o que estamos vivendo diariamente: o sucateamento do jornalismo.

:: Fama & Anonimato, de Gay Talese. 2004.  Companhia das Letras – Jornalismo Literário. 536 págs. R$ 65,00.

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4 comentários sobre “fama & anonimato

  1. Ah sim, li algumas postagens mais antigas e encontrei diversas identificações (além da letra K é claro!). Mais uma vez parabéns e já tem link garantido lá no meu mundo. Feliz 2009!

  2. K. já te disse que as vezes nem comento por falta de ter (ou saber) o que comentar. Tô aqui lendo e rindo da tua ENORME ansiedade com este trabalho. Mas ao mesmo tempo admiro teu espírito perfeccionista, que quer muito fazer algo grande. Eu aposto que será! {D.}

  3. Olá, Alexandre! Podexá que darei um pulo no seu mundo, e obrigada pela visita.

    D., ansiosa, eu? Magina, deve ter um sentimento maior do que ansiedade para me explicar, hehehehe. Agora eu tô dando um tempo por causa das festas de fim de ano. Mas deixa 2009 chegar… 🙂

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