ficções


Dizem que só achamos algo chato quando não entendemos. Logo, eu não entendo Borges. Por uma semana, sofri na leitura de Ficções. O texto é labiríntico: dá voltas e voltas e voltas e voltas e você se perde e volta ao começo e se perde de novo e quando você acha que está acertando o caminho, na verdade, você está ainda mais perdido. Mas como um bom brasileiro, você persiste e lê o conto todo. Finalmente, chega à última palavra. Então, para e pensa: “ãhn?”

No começo, eu voltava para ler tudo de novo até entender. Mas assim a leitura não rendia. Então, decidi seguir sem parar — quem sabe não melhorava com o passar das páginas. O livro só foi de fato me interessar quando cheguei na página 84 (edição da Abril Cultural, 1972). O conto A Biblioteca de babel foi o que li com mais voracidade e alegria (eu finalmente estava entendendo). Começa assim:

“O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas.”

Mas qualquer pessoa que goste de se perder nas prateleiras do universo provavelmente irá sorrir ao ler a descrição das lâmpadas desse lugar mágico: “A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas.” E sentirá mais medo dos inquisidores do que dos dementarores de Harry Potter.

Em uma passagem, Borges abre um parêntese e no fim diz:

Você, que me lê, tem certeza de entender minha linguagem?

Não resisti e respondi: “nos outros, não! Mas nesse acho que falamos a mesma língua!” 

 

Gostei também de O jardim de caminhos que se bifurcam — me prendeu do início ao fim. Agora, em todo labirinto que vejo, tento seguir a dica de dobrar à esquerda para ver se vai parar mesmo no pátio central. Do resto, no entanto, confesso que não guardo muita lembrança. Acho que minha ansiedade, em nível avançado no momento, somada ao  nervosismo daquele assunto, já muito gasto por aqui, não combinam com a leitura de uma obra de Borges. Ficções volta para a prateleira com o aviso: “Volte daqui a 10 anos, e sem pressa!”

 

É arte: uma frase de efeito de Funes, o memorioso: “Dormir é distrair-se do mundo”. É uma boa para colocar no msn às vezes, não acha?

É fato: pra quem for se aventurar na leitura de Ficções, talvez, seja interessante levar esse Guia. Pena que eu só descobri quando fui escrever esse post.

:: Ficções, de Jorge Luís Borges. 1941. Cia das letras. Contos. 176 págs. R$ 34

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4 comentários sobre “ficções

  1. O jardim dos caminhos que se bifurcam é fantástico. A frase sobre o dormir caiu como uma luva na postagem do sono….:)

  2. Esse livro – que foi o ;unico do Borges que eu li – é daqueles que a gente tem que ler algumas vezes. Primeiro porque é impossível entender de primeira. Depois, porque em cada época tem um significado.. Eu já li duas, fiquei com vontade de ler a terceira.

  3. menino,
    eu comecei a ler o Ficções, mas não entendi patavinas. cheguei a me angustiar porque eu queria entender o que é que o Borges tem. hermético demais. depois que desisti, também encontrei esse guia, mas perdi o interesse. quem sabe, daqui a dez anos, se não descobrirem que ele é realmente incompreensível, eu tente ler e comece por esses contos que lhe agradaram. 😀

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