não sobre o amor


sutil2

19h30. Cai uma chuva fina incessante. Todos estão acompanhados de seus guarda-chuvas. O Teatro do Sesi recebe o público para uma mais uma sessão da temporada de comemoração dos 15 anos da Sutil Cia de Teatro.

20h15. Leonardo Medeiros se posiciona no cenário de Daniela Thomas para viver Victor Shklovsky, ou melhor, as cartas do escritor russo para Alya (que na vida real era a escritora franco-russa Elsa Triolet), vivida por Simone Spoladore.

Alya pede para Victor que não escreva sobre amor nas cartas enviadas para ela. Ele tenta, mas em todas há uma ironia e uma cobrança contrapondo sempre a idéia de amor da escritora: o amor é um sentimento leve. Todas as cartas do escritor russo são como a frase que abre a peça:

“Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo; a ironia devora as palavras.”

Ele realmente não consegue. O amor de Victor é pesado, doloroso; acho que até poderia dizer obsessivo e doentio. Daqueles que fazem mal, daqueles que só servem para escritores se encherem de tristezas para escreverem romances ao estilo de Amor de perdição. Para Alya, o que Victor ama, de verdade, é dizer o quanto, o quanto, o quanto a ama. Mas no terceiro quanto ela já está pensando em outra coisa, relata Alya em uma das cartas.

“Todas as cartas de amor são rídiculas”, já disse F. Pessoa. E o ator Leonardo Medeiros consegue passar esse ar de rídiculo-apaixonado-sofrido para sua personagem, mas com muita classe — devo ressaltar. Sobre a atuação de Simone Spoladore, ainda não sei o que dizer. Sinto que ela ainda não encontrou Alya. Mas, ao mesmo tempo, Não sobre o amor é um tipo de peça em que o texto (a palavra) é muito mais importante do que do que o ator. As protagonistas ali são as cartas, e não os escritores.

O cenário [leia É arte abaixo] e a iluminação, de Beto Bel, também ajudam, de certo modo, a apagar um pouco a atuação. O jogo de luz e as projeções, tão bem-utilizados, fazem o cenário se desdobrar. De uma plasticidade in-crí-vel.  Desculpem tocar novamente nesse assunto, já gasto por aqui, mas fiquei tão impressionada com a perfeição das  projeções e  dos efeitos de  luz – que desenham sombras no ambiente –, que foi impossível não me lembrar dos trabalhos de Regina Silveira.  

 

É arte: novamente o cenário de Daniela Thomas, que parece ter saído direto de um quadro de Magritte.  Quando estamos apaixonados tudo parece estar meio fora do lugar, a vida ganha uma outra ordem. E o cenário reflete esse sentimento tão… complexo? Essa ordem totalmente absurda dos móveis dá mais força ao texto. Como se aquele “absurdo” fosse a real ordem de tudo.

É fato: algumas cenas de tão ensaiadas transparecem uma artificialidade. O subir e descer de um móvel para outro, os passos, tudo tem ar de algo que foi extremamente calculado. Combina, no entanto, com o artificilismo das cartas de Victor Shklovsky. 

:: Não sobre o amor, Peça de Câmara de Felipe Hirsch e Murilo Hauser sobre a obra se Victor Shklovsky, Elsa Triolet,Wladimir Maiakovski E Lilia Brik. Drama. Direção: Felipe Hirsch. 80 min. Teatro do Sesi (Av. Paulista, 903, São Paulo, tel. (11) 3146-7439). 4ª/5ª e sáb. âs 20h (* Dia 20/02 – começará às 21h). R$ 10. Até 22/03.

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8 comentários sobre “não sobre o amor

  1. Boa tarde!

    Se o assunto é AMOR (A SÍNTESE):

    “Que ironia do destino:
    O que me torna cego
    Abriu-me os olhos da alma!”

    (Carla Guedes)

  2. Direção de Felipe Hirsch e cenário de Daniela Thomas? Não vi (ainda) e já gostei.

    E o Leonardo Medeiros é o prefeito de Triunfo traído pela Dedina em A Favorita?

  3. O próprio! E corra, viu? Sábado passado não tinha mais ingressos para a sessão desse sábado. Mas, se não tiver mais intressos, faça plantão na porta do teatro, sempre alguém não vai e eles liberam a entrada pra quem esperar na porta pelas cadeiras dos faltosos. 🙂

  4. Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.

    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)

    Álvaro de Campos, 21/10/1935

  5. Hahahaha, caramba, acho que devo mesmo me apressar, não? Mas plantão na porta do teatro não sei, não… Acho que nem pela Dedina, quanto mais pelo prefeito de Triunfo!

    🙂

    Ei, peraí: dei uma fuçada no blog e… você passou um tempo em Toronto, é??? Que legaaaaaaaaaaaal! Fiquei seis meses por lá em 2004. E até hoje morro de vontade de voltar.

  6. Boa Tarde!!

    Eu ainda não conseguir assistir essa peça =/

    Todos que encontro falam que esta fantástica principalmente a cenografia.

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