o leitor


Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”

Antes de eu começar a ser alfabetizada na escola, eu pedia para minha mãe me ensinar como escrever algumas palavras, por exemplo: liquidificador, travesseiro, paralelepípedo. Ela sempre me questionava se eu não queria aprender alguma mais fácil. E a resposta era sempre negativa: “Não, mãe, eu preciso aprender a mais difícil primeiro. O que fácil a tia vai ensinar pra todo mundo mesmo.” Ai que criança petulante, né? Mas não imagine que isso me fez ser uma aluna à frente das outras, nada disso. Quando começaram as aulas de leitura, eu tinha muito medo. Primeiro, eu achava que seria impossível eu aprender a ler, mesmo sabendo escrever palavras teoricamente difíceis. Segundo, quando eu aprendi, eu tinha horror de ler em voz alta. Morria de vergonha de gaguejar em público ou errar uma palavra, uma pontuação. Só superei a leitura em voz alta depois de participar uns anos de um grupo de teatro. Mas ainda sim, por mais que eu me sinta à vontade hoje para dramatizar um texto, eu prefiro a leitura silenciosa, a leitura pra dentro.  Amo, no entanto, que contem histórias pra mim. Não é à toa que fui fazer faculdade de jornalismo: para ouvir e contar boas histórias — mais ouvir, sempre!

Tudo isso para (talvez) tentar explicar por que gostei tanto de O leitor. Um filme sensível, um roteiro fantástico e uma atuação merecedora de Oscar — Kate Winslet está di-vi-na. Mais que uma história de amor de um jovem de 15 anos, Michael Berg (David Kross e Ralph Fiennes se alternam no papel), e uma mulher 18 anos mais velha, a cobradora de bonde  Hanna (Kate), o filme também trata de uma paixão pela leitura, pelo mundo das letras e do prazer de conhecê-las — poder dar sentido a elas juntando “a” mais “b”. É impossível, para quem é chegado num livro, não se encantar com o relacionamento de Micheal e Hanna, que, entre uma transa e outra, se rendem a Odisséia, Lady Chatterley, As avenuras de Tim-tim etc. Hanna ensina os prazeres da carne para Michael em troca dos prazeres da mente, fazendo-o ler de tudo para ela. Porém a “Fräulein Elza”, de Michael, guarda um segredo… Agora vocês terão de ver o filme e depois comentar o que acharam. 🙂

É arte: a fotografia, e não é à toa que concorreu ao Oscar nessa categoria. Mas também não posso deixar de comentar a caracterização de Winslet quando idosa. As rugas na face, as mãos, os pés judiados… in-crí-vel!

É fato: se o roteirista conhecesse um pouquinho de literatura brasileira, talvez teria colocado Amar, verbo intransitivo, de Mario Andrade. Eu adoraria ver intertextualidade, na telona, do texto de Bernhard Schlink e do Mario. Imagina, Micheal contando para Hanna o romance de  Fräulein Elza, uma professora contratada para iniciar na vida sexual de forma limpa (sem ser com prostitutas), e do menino Carlos?

:: O Leitor (The Reader), Alemanha/EUA. 2008. Direção: Stephen Daldry. Drama. 124 minutos

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6 comentários sobre “o leitor

  1. O filme é ótimo mesmo, e a Kate está estupenda. Vibrei com o Oscar dela, e acho que até a Maryl Streep sabia que este ano não tinha para ninguém, né? 🙂

  2. Tenho certeza de que vou amar esse filme….E tenho muita admiração pela Kate Winslet como atriz. Fiquei feliz por saber que ganhou o Oscar. Ela merece. Simples e talentosa.

  3. Um filme quase perfeito. Concordo com tudo, mas acho que voce pegou “pesado” quando diz que ela o ensinou os prazeres da carne. Foi isso e bem mais, porque não era só sexo, ele realmente gostava dela, e isso se chama, hã, amor? Porque ele não a levou numa viagem de bicicleta por uma simples trepada, nem se sentiria tão em crise e por tanto tempo por uma coisa que se chama só de sexo. E o mesmo se diz dela, mas paro por aqui para evitar spoilers.
    Só acho que o film e se estende muito no final e é completamente desnecessário. Os últimos dez minutos são completamente cortáveis, e tiram o choque, a emoção que o ápice proporciona.

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