som & fúria


Algumas pessoas dizem que tenho personalidade forte. Mentira. Tudo Mentira. Minha personalidade é fraca. Muito fraca. Deixo de viver a minha vida para viver a de outros. Do meu objeto de estudo, de personagens de cinema, de livros. No começo do ano tive a certeza de que fui Alice. Quantas vezes não revivi Amélie Poulain, para entender que os prazeres estão nas pequenas coisas, nos pequenos toques. Meursault vive ao meu lado para, toda vez que entro em crise, eu lembrar que só existo, ponto. Agora, durante doze dias, eu vivi uma história de amor que não era minha. Ok, minha paixão pelo teatro é real, muito real. Mas eu me apaixonei como a Elen (Andréa Beltrão) pelo Dante (Felipe Camargo) (e vive-versa). Eu vivi aquele amor cheio de teatro e fúria. E quando não podia vê-los, eu recorria ao youtube. Gosto muito da cena em que os dois estão acertando as contas e a Elen diz:

– Sabe que eu penso nisso todos os dias: em desistir. Aí, chega de dor de barriga antes da estreia, chega de pesadelo à noite inteira achando que eu vou esquecer o texto todo, chega de ensaiar até de madrugada, chega de críticas horrorosas falando mal de mim, e eu tendo de explicar para minha mãe. Eu penso, eu penso nisso toda hora.

– Mas você não parou, diz Dante. Por quê? Assim, eu não tô te incentivando.

– Porque eu não sei fazer outra coisa. Se eu parar de fazer teatro eu vou morrer de fome.

– Bonito isso. Fazer teatro pra não morrer de fome.

– É bonito mesmo. Eu gosto. Quando a peça é boa. Quando a platéia tá gostando, tá prestando atenção. Ah, é bonito.

– E você gosta das críticas boas, dos fãs boquiabertos.

– Gosto, gosto. Eu gosto de que as pessoas às vezes gostem de mim. Eu sou vaidosa. Mas às vezes eu fico pensando como é que seria a minha vida se eu soubesse fazer pãezinhos e bolinhos.

Eu também penso muito em desistir. Aí chega de ter dor de barriga antes de entregar um texto pro editor. Chega de ficar aflita quando vejo a edição pronta e acho erros. Chega de ficar até tarde escrevendo uma reportagem. Chega de depois ouvir as críticas sobre o que fiz e da minha auto-punição: isso podia ter ficado melhor. Mas eu não sei fazer outra coisa senão ser jornalista. E eu gosto quando a pauta boa, quando eu posso apurar até não querer mais, quando posso rescrever muitas vezes o texto. Quando eu me envolvo em projetos grandes. E gosto quando as pessoas que eu respeito acham que o que eu fiz ficou bom. Mas às vezes eu fico pensando se eu tivesse levado o teatro a sério, ou tivesse ouvido o conselho do meu pai e feito publicidade, não seria mais feliz? Porque cozinhar é uma coisa que eu não sei e nem pretendo saber.

Talvez a minha real vocação seja ser personagem. Eu me deixo levar, eu me deixo envolver. E quando acaba eu fico assim: triste. Como se eu tivesse rompido um casamento sólido, feliz. Como se um amigo tivesse morrido e eu não pudesse vê-lo mais. Quando eu vejo, leio ou escuto algo que gosto, é como se eu deixasse de existir. Minha vida se torna aquilo: a música, o teatro, o filme, o livro, a minissérie, o tcc. É assim, como o verso do Bandeira: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”

Bem, agora chegou a vez de viver novamente a vida de Joseph K. Pelo menos uma letra temos em comum.

Som & Fúria, Elen e Dante, já estou com saudades. Até o dia que sair a caixa com os DVDs.

Anúncios

4 comentários sobre “som & fúria

  1. Bom raciocínio… E o diabo é que eu sei fazer pão – mas cadê coragem de ir ver o que acontece se eu largar os textos?…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s