O negócio da arte


[Reportagem para revista Esquinas #45. Veja também o PDF]

Um quadro na parede pode custar altas cifras que podem até ser disputadas em leilões

Exposição do acervo do MAC Foto: Karina Sérgio Gomes

Exposição do acervo do MAC Foto: Karina Sérgio Gomes

Reportagem: André Marchezano (2º ano de Jornalismo), Julia Alquerés e Karina Sérgio Gomes (4º ano de jornalismo)

US$ 1,4 milhão. Esse foi o valor alcançado pelo quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral, a maior quantia já paga pela obra de um artista brasileiro. Se muitos acreditam que o valor de uma obra de arte é inestimável, o mercado mostra que há quem esteja disposto a pagar milhões por ela. O fenômeno nacional mais recente é a artista plástica Beatriz Milhazes, cujo quadro O Mágico alcançou a quantia de US$ 1,049 milhão, adquirido pelo mesmo colecionador que comprou Abaporu, o argentino Eduardo Constantini.

De acordo com o segurador Guilherme Tadeu Olivetti, depois desse leilão as obras de Milhazes valorizaram muito. “Tem cliente meu que comprou uma peça dela há três anos por 70 mil e hoje está valendo meio milhão”, exemplifica. O valor das obras também varia de acordo com a fase de produção do artista. No caso de Vik Muniz, segundo o leiloeiro James Lisboa, “as fases ligadas a diamantes, chocolates, são as mais procuradas porque são as mais criativas”. No leilão de arte feito no dia 24 de março deste ano pelo Escritório de Arte, a foto Team, do artista, teve o lance mínimo de R$ 180 mil reais.

No prelo – As formas de avaliar o trabalho de um artista variam. Na Galeria Vermelho, por exemplo, em caso de artistas novos, o custo de produção é multiplicado por três. “O primeiro paga a obra que foi feita; o segundo é por causa da carreira, ele precisa ter dinheiro pra fazer novas obras. E o terceiro preço é porque ele precisa sobreviver”, explica Akio Aoki, representante de vendas internacionais da Vermelho. No caso de artistas mais reconhecidos, avalia-se o currículo da obra e do artista. Os leilões avaliam as obras também desta maneira, com uma peculiaridade: o preço das obras é abaixo do valor do mercado. “Isso acontece pra poder criar a liquidez, ou seja, para que haja uma disputa, um confronto de valores para chegar no preço real de fato”, esclarece Lisboa.

Ele comenta ainda a vantagem que os leilões têm frente às galerias. “Na galeria você espera acontecer. No leilão as vendas acontecem numa noite, é mais dinâmico, não pode durar mais que uma sessão de cinema, que é quanto uma pessoa agüenta”, explica o leiloeiro. Segundo ele, 70% do que é posto em pregão é vendido. Afirma, no entanto, que as maiores negociações são feitas entre os próprios colecionadores.

As pinturas a óleo são as mais valorizadas e os artistas do modernismo brasileiro são os mais procurados. “Os mais caros são os que a gente chama pintura dos nossos avôs, Tarsila e Portinari principalmente”, diz Lisboa. Estes são também os artistas preferidos pelos ladrões. No último dia 10 de maio deste ano, foram roubadas da casa de Ilde Maksoud as telas O Cangaceiro e Retrato de Maria, ambas de Cândido Portinari, e Figura em Azul, de Tarsila do Amaral – avaliadas em cerca de R$ 3,5 milhões. No ano passado, foi a vez da Estação Pinacoteca. Os ladrões, em plena luz do dia, levaram um quadro de Lasar Segall, outro de Di Cavalcanti e duas gravuras de Picasso, que juntos valiam cerca de R$ 1 milhão. Outro caso famoso foi o roubo das obras O Lavrador de Café, de Portinari, e Retrato de Suzanne Bloch, de Picasso, do Masp (Museu de Arte de São Paulo) em 2007. O museu não contava com seguro nem sistema de segurança equipado com alarmes e sensores.

A sete chaves – O seguro de obra de arte é como qualquer outro. A diferença é que às vezes o valor da coleção fica tão alto que o próprio segurado desiste do negócio. A coleção mais valiosa que a empresa de seguros Chub cobriu foi avaliada em R$ 300 milhões. O segurador Guilherme Olivetti explica que o valor foi aumentando tanto, por conta de novas aquisições, que o segurado desistiu do negócio. No caso da artista plástica Tomie Ohtake, que solicitou o seguro de suas obras, foi a Chub que não quis segurar. “Imagina a gente falar: Tomie Ohtake, o seu quadro não vale isso. Na época a gente sugeriu o seguinte, eu faço o seguro, quanto você vai gastar pra repor a tela, a tinta, a moldura. Esse custo eu reponho, se pegar fogo. Mas o valor da peça era muito complicado”,  conta Olivetti.

“O seguro varia entre 0,3% a 1,5% do valor total da coleção”, diz o segurador. Para avaliar as peças, a empresa envia um profissional que fotografa e especifica os detalhes, como tamanho e técnica, das obras. Depois o colecionador é encarregado de levar essa documentação a um especialista que determinará o valor das peças. A partir desse orçamento, a quantia do seguro é calculada. Atualmente a Chub só faz seguro de coleções particulares, já que o número de museus que procuram as seguradoras é muito baixo e o risco, muito alto.

No MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo), no entanto, as obras são seguradas. “Se a obra sofrer algum risco, como um roubo ou um vandalismo, por exemplo, a seguradora indeniza”, diz Paulo Roberto Amaral Barbosa, diretor do acervo do museu. “Mas pra nós não é interessante nem pensar nisso. Se você risca ou estraga uma obra, ela não é nem mais aquela obra”, observa.

Há todo um cuidado com o acervo. O empréstimo de peças, por exemplo, para outras instituições, seja fora ou dentro do país, segue um procedimento rigoroso. “As nossas obras quando saem daqui passam por um processo de aclimatação de 48 horas numa caixa de transporte, que é especializada pra isso”, explica Paulo Roberto. O preço dessas caixas varia de R$ 15 mil a R$ 18 mil. Segundo o diretor, é preciso analisar a temperatura do local onde a obra será exposta, pois variações climáticas podem causar danos nas peças. “Toda obra que sai do museu precisa ficar embalada num ambiente estabilizado em vinte e dois graus”, informa.

Quando é solicitado o empréstimo de uma peça, quem arca com todos os custos é o interessado. Inclusive o serviço do courrier – pessoa do museu encarregada de acompanhar a obra até ser exposta e depois o seu retorno. “Uma vez na parede, em caso de quadros, a obra é de responsabilidade do pessoal da casa e o courrier volta pra cá. Quando a exposição é encerrada, ele volta pra buscar a obra”, explica Paulo Roberto.

NA PONTA DO LÁPIS – Cada mostra, organizada pelo MAC, não sai por menos de R$ 120 mil. “Nossa verba mensal é da ordem de R$ 400 mil pra pagar tudo o que se possa imaginar”, afirma. “Uma vantagem que temos sobre os outros museus é que pelo menos a mão de obra, que somos nós, é paga pelo Estado. Museus ou instituições particulares vivem na corda bamba porque sempre tem custos a pagar”, observa. Para o curador do MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo), Felipe Chaimovich, o maior auxílio, por parte do Estado, vem da Lei Rouanet. “A gente vai atrás de patrocinadores para adquirir as obras. Os patrocinadores usam o recurso de abatimento de imposto garantido pela Lei Rouanet”, explica.

A ajuda do Governo também foi importante para que o artista Marcius Galan conseguisse expor uma obra no exterior. “Talvez, sem incentivo do governo, do Ministério da Cultura, eu não conseguiria ter ido pra Houston fazer meu trabalho lá”, conta Galan. O auxílio governamental consistia no pagamento da passagem para Houston, mediante a apresentação de um projeto, em que o artista expunha a importância de sua obra, da mostra que iria participar e do museu onde aconteceria a exposição.

Galan ainda não vive só de arte. “Eu trabalho como designer. Faço um monte de coisa. Porque pra mim é muito mais cômodo não depender só do mercado de arte”, conta o artista. “É algo que seria ótimo, mas eu não tento lutar pra que isso aconteça. Seria depender de algo que é instável. Eu fico mais seguro tendo os outros projetos”. No começo da carreira, a permuta era a forma de vender suas obras. “Eu trocava trabalho meu por molduras”, exemplifica.

Hoje o trabalho de Galan ultrapassa o limite das molduras. “Arte vai mudando e o mercado acaba absorvendo as coisas”, aponta. Algumas de suas obras são instalações  que se relacionam com a arquitetura. Um exemplo é Seção diagonal, que está em negociação com Museum of Fine Arts, de Houston.  Nesses casos de site specific, quem compra não leva o trabalho para casa, como um quadro, e sim o projeto. “Qualquer pessoa pode fazer aquele trabalho em qualquer lugar. São os trabalhos pouco convencionais que fazem a coleção ter uma força”, afirma.

Quem representa Marcius Galan, em São Paulo, é a galeria Luisa Strina. “A galeria tem o papel fundamental de inserção do artista no mercado”, diz. Akio Aoki, representante de vendas internacionais da Vermelho, concorda: “uma instituição que procura um jovem artista precisa de um filtro e o primeiro filtro é a galeria”. Quando a obra é comprada, normalmente, o valor da venda é dividido igualmente entre os dois. O preço, no caso de Galan, é determinado por um consenso entre ele e a galerista. “Faço uma lista com os preços que eu acho justos baseados nos trabalhos antigos e a Luísa fala se tá caro, se tá barato”, conta o artista.

Os valores negociados no mundo da arte podem causar espanto, mas como reza o velho ditado: “olhar não custa nada”. A entrada em galerias e em alguns museus, como o MAC, é franca. Outros, como o Masp e o MAM, tem pelo menos um dia na semana em que não é cobrado o ingresso.

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2 comentários sobre “O negócio da arte

  1. Curioso esse negócio das artes. Adoro pensar que uma tela possa valer mais que a minha própria casa. Ótima matéria!

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