de dentro pra fora / de fora para dentro


Eu tenho muitas dúvidas sobre grafite, especialmente sobre essa institucionalização da arte urbana. O que eu acho legal da ação dos grafiteiros é a capacidade de surpreender. Como o grafiteiro Zezão com suas “nuvens” azuis que saem de tampas de bueiros ou aparecem flutuando por paredes imundas. Tela pintada com spray, pra mim, não é grafite, é pintura. E essa história de artista plástico formado na FAAP, Belas Artes serem grafiteiros, é outra lorota, ao meu ver. É um artista que grafita, não um grafiteiro. Mas essas são questões que ainda tenho de refletir mais.

A mostra  sobre grafite no Masp, De dentro pra for/De fora pra dentro, contudo, tem lá o seu valor. A curadoria foi muito perspicaz ao criar um ambiente urbano para alguns desses artistas criarem suas obras. Os seis artistas/grafiteiros são da galeria Choque Cultural, especializada em grafite. No entanto, não consigo considerar a tudo ali arte urbana. Stephan Doitschinoff, por exemplo, fez uma instalação belíssima, mas aquilo tá longe de ser grafite. E a tal perfomance que ele fez em Lençóis foi muito interessante, mas nada muito diferente do que Mônica Nador vem fazendo com o JAMAC, e com um cunho muito mais social.

Eu temo por esses artistas. Seus trabalhos nas galerias perderem o tal elemento surpresa que tinham nas ruas. Temo por eles ficarem estereotipados demais, como estão ficando os desenhos de Osgemeos. Temo por esses caras se tornarem um Romero Britto da vida. (Bem, se isso acontecer, eles ficarão bem ricos pelo menos.) Temo por seus trabalhos se tornarem “SAMO shit”, como diria Jean-Michel Basquiat.

É arte: o ensaio fotográfico da montagem da mostra.

É fato: na verdade, eu acho um tanto injusto pagar 15 reais para ver algo que deveria estar pelas ruas da cidade.

:: De dentro pra for/De fora pra dentro: Masp  – Av. Paulista, 1578 – São Paulo – SP. Tel.: 11 – 3251-5644. 3a./dom. 11h/18h e 5a. 11h/20h. Até 05 de fevereiro. R$ 15/R$7

Atualização:

Domingo, 29/02, saiu uma reportagem na Folha de S. Paulo sobre a institucionalização do grafite. E gostei muito da posição do urador e pesquisador inglês Tristan Manco, autor do livro “Graffitti Brazil”:

Esses trabalhos perdem o sentido quando removidos das ruas e instalados no conforto do lar de colecionadores de arte. “O valor desse tipo de produção está diretamente ligado à possibilidade de ser compartilhada coletivamente. Dentro de casa, deixam de ser “arte de rua”, viram apenas souvenir.”

Para assinantes UOL ou da Folha, a reportagem na integra aqui.

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2 comentários sobre “de dentro pra fora / de fora para dentro

  1. Voltei agora de férias e, assim que a minha vida tomar jeito, retorno aqui para bater-um-papo contigo sobre o assunto ‘arte urbana’. Não concordo com sua fala, Ká.

  2. Oba! Vamos conversar sobre, então! Eu tenho muitas dúvidas sobre esse assunto! Vamos trocar ideias =)

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