livro das perguntas


Li o Livro das perguntas em um momento que procurava por respostas. Mas, fazendo um mini-flashback, desde que me conheço por gente, eu sempre fui um ser de perguntas à procura de respostas. Talvez seja essa a explicação mais plausível para ter ido parar na faculdade de jornalismo. As perguntas de Neruda parecem ingênuas, bobas, infantis…

Há alguma coisa mais triste no mundo que um trem imóvel na chuva?

Mas seus poemas enigmáticos carregam em si a resposta para questões que nós, na racionalização de tudo,  não as encontramos porque sempre complicamos o que, na verdade, é fácil, simples. Perdemos a capacidade de nós entregarmos aos mistérios da vida e vivê-los. Passamos a viver em busca de explicações. Quando deveríamos nos deixar levar ao sabor da dúvida  É como Neruda diz no poema: XLIV

Onde está o menino que eu fui?
Está dentro de mim ou se foi?

Sabe que jamais o quis?
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para nos separarmos?

Por que não os dois
quando minha infância morreu?

E se minha alma se foi
por que segue meu esqueleto?

É arte: É impossível não comentar sobre as ilustrações de Isidro Ferrer. Fotomontagens que deixariam a Barbara Kruger morrendo de inveja. Ok, a relação é incoerente. Mas é que gosto muito das montagem de Kruger. E o mesmo “muitão” que gosto do trabalho da artista americana foi o tanto que gostei do trabalho de Ferrer. O artista transformou o poeta em personagem de se seus poemas, que viaja pelo mundo, seja da fantasia ou de algo mais palpável, à procura das respostas de suas perguntas. Mas de maneira não óbvia, claro!

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É fato: Lendo os poemas-questões de Neruda não teve como não lembrar do clássico Ou isto, ou aquilo, de Cecília Meireles.

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

:: Livro das perguntas, de Pablo Neruda. Ilust.: Isidro Ferrer. Trad.: Ferreira Gullar. Editora: CosacNaify. Poesia. Págs. 1984. R$ 49,00.

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