eu não possuo meu corpo


A cada dia eu me descubro mais cara-de-pau. Fui à Livraria Cultura pegar um livro que tinha encomendado, não resisti e passei pela estante de poesia. Lá, encontrei Fernando Pessoa – Quando fui outro, uma coletânea de diversos textos e poemas do poeta português, entre eles o clássico Lisbon Revisited (que eu adoro!!! “Não me peguem no braço! / Não gosto que me peguem no braço. / Quero ser sozinho. / Já disse que sou sozinho!”).

Vascullhando as páginas nada parecia novo pra mim, até que cheguei ao poema Eu não possuo meu corpo. Leia:

Eu não possuo o meu corpo – como posso eu possuir com ele? Eu não possuo a minha alma – como posso possuir com ela? Não compreendo o meu espírito – como através dele compreender?

Não possuímos nem o corpo nem uma verdade – nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por fora e por dentro.

Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer – eu sou eu?

Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.

Quando outrem possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.

Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?

Se do que comes, dissesses, “eu possuo isto”, eu compreendia-te. Porque sem dúvida o que comes, tu o incluis em ti, tu o transformas em matéria tua, tu o sentes entrar em ti e pertencer-te. Mas do que comes não falas tu de “posse”. A que chamas tu possuir?

Depois que li, fiquei pensando nessa história de possuir, na diferença entre “possuir” e “ter” algo ou alguém. Convoquei então o tio Houaiss:

Ter: verbo transitivo direto 1 entrar na posse de; receber 31 dedicar-se muito a; apegar-se, ater-se 33 pôr de parte, reservar para si em razão de sentimento, vivência etc.; conquistar para si

Possuir: verbo transitivo direto 1 ter a posse de; ter como propriedade; ser proprietário de 5 deixar-se convencer ou dominar por; imbuir-se de 6 ter relação carnal com (alguém)

Engraçado que, apesar de serem quase sinônimos, o verbo “ter” parece ter mais valor afetivo do que o “possuir” (você pode até possuir uma pessoa, mas, talvez, não a tenha?). Não sei ainda responder a pergunta final do poema “A que chamas tu possuir?”. Quiçá eu não possua nada, mas acredito que tenho muitas coisas.

é arte: algumas máximas de Fernando Pessoa destacadas nos abres dos capítulos. Alguns chegam a doer na alma.

é fato: como dizia no abre desse post, estou espantada com a minha cara-de-pau. Para reproduzir aqui esse poema, eu simplesmente pequei o livro, sentei no chão da livraria e o copiei no Andy (caderno que a Gabriela me deu, cuja capa tem uma imagem de um trabalho de A. Warhol). É Brasil, C-o-p-i-e-i! Bom, foi por uma boa causa. Eu não queria o livro, apenas o poema. Agora todos os (três) leitores desse blog podem tê-lo, ou possuí-lo.

:: “Eu não possuo meu corpo”, in Fernando Pessoa – Quando fui outro. Editora Alfaguara Brasil. 224 pág. R$ 37,90.

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8 comentários sobre “eu não possuo meu corpo

  1. haha, olha o novo layout causando. calma, gente, daqui a pouco eu mudo de novo, hehehe.

    Olha, Lívia, houve uma época que eu gostaria de ter alguma poesia dentro de mim. Mas hoje eu entendo que não nasci pra isso, por isso só aprecio a dos outros mesmo. =)

  2. Maravilhoso, tenho ele aqui bem perto de mim.

    (Copie sempre, meu bem… Ah, meu bem, eu cheguei a tirar fotos (com celular) de alguns poemas que li na livraria cultura…)

  3. Agora eu também tenho, hehe! Vou copiar de tudo agora. Só não tiro foto com celular porque a câmera do meu é muuuuuuito ruim. =)

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