o cavalo perdido e outras histórias


Ganhei esse livro de uma amiga muito especial e de alma sensível, tão sensível quanto a do autor Felisberto Hernández. Antes de se dedicar às letras, Felisberto foi pianista. E muito do seu lado músico está presente em seus contos que se aproximam da literatura fantástica. O escritor tem uma forma delicada de contar histórias. Seus contos têm belíssimas imagens poéticas que seduzem e nos fazem olhar o mundo de outra forma, como depois que você solta um grande suspiro que lhe deixa leve. Perdi a conta do número de vezes e o de pessoas para quem li:

O silêncio gostava de escutar a música; ouvia até a última ressonância e depois ficava pensando no que tinha escutado. Suas opiniões tardavam. Mas quando já era de confiança, o silêncio intervinha na música: passava entre os sons como um gato com sua grande calda negra e os deixava cheios de intenções.

Esse trecho é do conto “O balcão”, mas o meu favorito dessa coletânea é “O Crocodilo”, que conta  a história de um vendedor de meias que aprende a chorar para conseguir vender seu produto. Em todos os contos, além de belas imagens poéticas como a de cima, há um erotismo contido. As personagens demonstram seus desejos de uma maneira muito delicada, tudo fica apenas nas intenções.

É arte: a dedicatória fofa que a Ju fez pra mim:

O livro não se encontra em seu melhor estado, mas garanto que isso não atrapalhará a leitura desses contos de maravilhas, meu bem!

E ela tinha toda razão! A imagem acima é do meu próprio livro, que agora se encontra cheio de anotações e post-it coloridos. Alguém me disse uma vez que livro em mal estado é sinal de bem usado. E esse foi memo.

É fato: estranhei muito a maneira como acabavam os contos. Eles simplesmente acabavam, assim, sem mais. Mas parei de me questionar quando li o diálogo entre um escritor e uma leitora no conto “Ninguém acendia as luzes”:

– Diga-me a verdade: por que a mulher do seu conto se suicidou?
– Oh, seria preciso perguntar para ela.
– E o senhor não poderia fazer isso?
– Seria tão impossível quanto perguntar alguma coisa à imagem de um sonho.

:: O cavalo perdido e outras histórias – de Felisberto Hernández. Editora: CosacNaify. Contos. 2006. 232 págs.

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