cartas a um jovem terapeuta


Estava lendo o texto de Contardo Calligaris sobre Toy Story e na hora senti uma identificação. Às vezes, me questiono muito: por que manter esse blog? Acredito que esses posts são uma exposição demasiada. Ao ler as lembranças da infância do psicólogo, pensei: “Ele faz a mesma coisa eu. Utiliza sua vivência pessoal para comentar algo”. Claro que não é sempre que ele faz isso e nem eu faço com a mesma maestria. Quando terminei de ler seu saudoso texto, tirei o único livro que tenho de Contardo da estante. Antes abrir, fiquei um tempo com ele nas mãos tentando lembrar algo que tinha lido nele – isso foi em 2007, diz a data marcada com a minha letra. Lembrei que uma amiga estava passando por uma barra pesada e eu não sabia como ajudar. Acho que foi isso que me interessou lê-lo. Porque é um livro para interessados em psicologia e explica um pouco pra que serve essa profissão. Lembrei também de uma passagem sobre primeiro paciente dele. Mas para lembrar disso melhor terei de procurar. Como grifo meus livros, será rápido. Um segundo! Hmmmm.  Achei:

Acho mesmo que fui seu primeiro paciente; não sei se você sabe, mas é o que eu tinha pedido para Nicolle, que me deu seu endereço na época. ‘Quero um analista’, eu lhe havia dito, ‘de quem seri o primeiro paciente. E acho que ela respeitou meu pedido. Queria ser o primeiro paciente porque pensava que, como meus problemas eram meio banais, só um analista debutante me escutaria com toda sua atenção.

Achei essa passagem bárbara, lembro. Acho ainda. Contardo alega que sempre ouviu seus pacientes com a mesma atenção do primeiro, e completou:

Não estranha que ele quisesse ser, de alguma forma, o legitimo primogênito de alguém para quem ele poderia contar “tudo”. A escolha de um terapeuta é sempre guiada por razões um pouco mais complexas e reveladoras do que o próprio paciente imagina.

Há algumas outras passagens sublinhadas e gostaria de compartilhar mais duas:

Pág. 70:

o sofrimento psíquico é como a massinha de modelar de nossa infância; você não a quer num determinado quartinho da casa de boneca, empurra com força, consegue deslocá-la, mas ela não sumiu, panas se insinuou pelas frestas e reaparece no quarto ao lado.

Pág. 76:

é preciso não ser feliz para correr atrás da felicidade e de seus substitutos.

Sei que o sentido que elas fazem para mim hoje não é o mesmo que fizeram quando li há quase três anos. Mas ainda me trazem alguma reflexão, agora sobre outra pessoa e um pouco sobre mim. Achei um comentário que fiz no blog dessa minha amiga:

Tá certo que não sou o Sérgio Rodrigues, mas escolhi esse post para tentar incentivar vc a voltar para sua terapia que mais me agradava: escrever sobre suas afetividades literárias! E os comentários (apesar de às vezes me darem um medinho) me estimulam a continuar escrevendo sobre os assuntos que gosto.
Bem, eu gosto muito do começo do livro, acho o meio chato, enrolado (parece não sair muito do lugar) e, no fim, volta ser muito bom. Um sanduíche ao contrário, eu diria.
E como ele disse que Freud disse: “a gente nunca consegue transmitir o que sabe de melhor”, eu completaria: mesmo assim a gente continua tentando.

I., continue!

Engraçado que agora, quando reli esse meu comentário, parecia que tinha escrito pra mim. Esse blog tem um pouco Contardo, é um pouco meu terapeuta.

:: é arte: alguns textos que psicólogo escreve na Folha S. Paulo toda quinta. É sempre bom dar uma olhada. Às vezes, achamos umas pérolas.

:: é fato: Tirar o livro estante me trouxe mais uma memória. Há um bilhete nele:

“Ao infinito e além! Beijos, tia One”

O bilhete é de uma das pessoas mais especiais da minha vida e que me deu esse livrinho.

:: Cartas a um jovem terapeuta, Contardo Calligaris. Ed. Campus, 2004. 154 págs. R$ 37,90.

Anúncios

Um comentário sobre “cartas a um jovem terapeuta

  1. Muito sensíveis suas observações sobre esses lugares de analista e cliente. Como analista me senti homenageada! Apresento- lhe meu blog celiabrandao.wordpress.com. Abraço. Celia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s