a elegância do ouriço


… tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.

Nos idos dos meus 16 anos, quando tinha orkut, no campo “quem sou”, colocava “alcachofra”. Se tivesse lido A elegância do ouriço, nessa época, com certeza teria colocado: “ouriço”. Foi difícil terminar esse livro, mas eu consegui! A leitura se arrastava, as duas personagens principais me irritavam. Precisei de um bom punhado de perseverança e lembrar muito da frase: se alguma coisa em alguém lhe irrita é porque provavelmente você tem o mesmo defeito.

Renée tem 54 anos e é zeladora de um prédio de bastadas famílias parisienses. É uma senhora muito culta que entende de filosofia e gosta de Tolstoi. Mas finge ser uma porta porque acha que alguém em seu cargo não pode ser inteligente. Sua melhor amiga é Manuela, uma portuguesa engraçadíssima (minha personagem favorita, devo confessar). A outra protagonista – que eu não vou revelar o nome porque esse só é dito no fim da trama – é uma guria de 12 anos que decide que irá se matar no seu aniversário de 13 (!) porque, para ela, a vida não tem sentido. (Vê se pode??)  Até o meio da história, as duas, cada uma no seu mundo, vão discutindo arte, literatura, psicanálise, cinema… Mas, ao meu ver, de uma maneira um tanto arrogante. Em seus pensamentos, essas duas personagens parecem querer diminuir as outras, que, coitadas, são apenas vasos chiques. Só não parei a leitura mais uma vez porque gostava muito de algumas frases que lia, como:

A música tem imenso papel na minha vida. É ela que me permite suportar… bem… o que há para suportar. […] Se ouço música de manhã, não é muito original: é porque isso dá o tom do dia.

Depois da página 200, o livro flui que é uma beleza! A chegada de um rico empresário japonês, sr. Ozu, transforma a vida daquele prédio. Ele é um exemplo de uma pessoa extremamente culta, inteligente, mas que parece não ter perdido a humildade. E começam as identificações pessoais também. Quando li O pensamento profundo n0. 12, da pré-adolescente suicida, fiquei chocada! Eu pensava igualzinho quando tinha a mesma idade!! Os capítulos 10, Congruência, e 11, Uma existência sem duração, já valem o livro. As reflexões de Renée sobre arte são belíssimas.

A Arte é a emoção sem o desejo

É arte: as referências a artes plásticas, literatura, cinema e música. Mesmo, às vezes, sendo um pouco enfadonhas acho que servem de estímulo.

É arte2: as personagens e algumas situações vividas naquele prédio são bárbaras. Tinha mesmo que ter virado filme! Só não sei ainda será lançado aqui no Brasil ou se veio direto em DVD. Alguém sabe?

É fato (AVISO: NÃO LEIA SE VOCÊ AINDA NÃO LEU O LIVRO): achei o fim meio lispectoriano. Não sei se a autora leu a A hora da estrela, mas o desfecho da personagem é tão parecido com o de Macabéa…

:: A elegância do ouriço: de Muriel Barbery. 2008. Romance. Cia das letras. 352 págs. R$ 45.

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