a paixão segundo g.h.


Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que vai se aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil mas chama-se alegria.
C.L.

Eu já tinha tentando ler A paixão segundo G.H. três vezes. Três vezes sem sucesso. Largava antes da página 10. Talvez a minha alma ainda não estivesse formada. Mas o fato é que eu tinha medo de me entregar a desorientação. E até março deste ano eu tinha pavor do que não conhecia muito bem. Foi preciso muita coragem para assumir aquilo e me aventurar. Quando eu me permitir, foi de uma alegria feroz e eu comecei a me perder. A vida ganhou mais gostos e cores. Eu disse pela segunda vez com toda a verdade que eu tinha dentro de mim a frase hoje tão banalizada por muitos casais. Permiti que aquele sentimento tão forte e nobre nascesse. Tentei cuidar dele como o Pequeno Príncipe cuidava de sua rosa. Prematuramente, porém, tive de me despedir. Desci ao inferno. Pedi insistentemente por aquela mão, por uma ajuda. Eu me perdi. Procurei respostas num mundo místico, já que no racional parecia impossível. Chorei mais do achava que podia. Virei noites em baladas tentando gastar energia para não ter forças para lembrar e sofrer. Fiz tudo o que de costume não faço. Fui desmontada. Segundo uma amiga, finalmente eu tomei atitudes de pessoas normais. Mas essa vivência ainda não se tornou uma lembrança. Ainda me dói.

“É curioso porque eu estava na pior das situações, tanto sentimental como de família, tudo complicado, e escrevi A paixão…, que não tem nada a ver com isso”, disse Clarice na época. Nele, foi a primeira vez que ela escreveu um romance em primeira pessoa. O livro é curto, porém, muito profundo. É preciso estar na mesma sintonia que escritora para a leitura fluir. É preciso estar no processo de desmontagem humana para entender essa busca da personagem pelo essencial, pelo neutro, pelo encontro do ser. Há um grande esforço de utilização linguagem. E quando a palavra já não é o suficiente vem o silêncio. O indizível. Como ela diz antes de começar a leitura, é difícil, mas dá alegria. Uma alegria de  você, junto com a personagem, tivesse conseguido se remontar – por mais que isso não seja exatamente a realidade.

É arte: quando escrevi sobre Clarice, ressaltei uma passagem de A paixão…. Mas ela é tão linda que deve ser lembrada de novo, e agora mais completa:

Às vezes – às vezes nós mesmos manifestamos o inexpressivo – em arte se faz isso, em amor de corpo também – manifestar o inexpressivo é criar. […] pois quando a arte é boa é porque tocou o inexpressivo, a pior arte é a expressiva, aquela que transgride o pedaço do ferro e o pedaço de vidro, e o sorriso e o grito.

É fato: valeu a pena esperar. Acho que agora eu consigo entender melhor a escritora. Li na biografia, que Clarice dizia muitas pessoas comentavam que seus livros se tornavam melhores quando lidos pela segunda vez. Acho que esse é momento de reler algumas de suas obras.

:: A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Romance. Rocco. 2009. 180 págs. R$31.

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4 comentários sobre “a paixão segundo g.h.

  1. Já aconteceu de eu ler Clarice e mesmo sem imaginar claramente a cena sugerida, eu podia senti-la com perfeição, se é que se podem definir impressões tão abstratas mas beirando a realidade. E é isso mesmo que se deve fazer ao pegar uma obra dessa minha autora favorita. E a cada momento epifânico dela, eu tinha dois, rabiscando meus livros, interagindo também materialmente. Sou totalmente imparcial, sei. E adorei o post ; )

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