Após a tempestade


reportagem de capa para edição #17 da revista Sorria
A natureza é turbulenta. Assim também é nossa vida. Vítimas e culpados, cada um de nós está sujeito a inundações de mágoa e rancor. Mas podemos, por entre as nuvens pesadas, resgatar um facho que restaure a paz. A chave para isso é o perdão
Texto: Karina Sérgio Gomes // Fotos: Rodrigo Braga // Photodesign: Felipe Gressler // Beleza: Élcio Aragão (Maizena) (Agência First) // Produção de moda: Marcelo Ultra

Após a tempestade

Perdoar é… optar por sofrer menos, como Masataka, que se livrou da vontade de vingar a morte do filho

29 de agosto de 1997. Masataka Ota e sua esposa, Keiko, fechavam mais um negócio para expandir a rede de lojas de R$ 1,99 do casal, em São Paulo. Costumavam voltar para casa sempre depois das 19 horas, mas naquele dia Masataka quis retornar mais cedo. Às 19h10 estavam na rua em que moravam. Chegariam antes, não fossem os semáforos vermelhos e o trânsito lento pelo caminho. A poucas quadras da residência, Keiko comentou ao ver viaturas da polícia:

– Que será que houve no vizinho?

Assim que estacionaram, a filha mais velha, Vanessa, trouxe a notícia:

– Sequestraram o Ives.

Dez minutos antes, um motoboy disfarçado de entregador de flores havia invadido a casa dos Ota e levado consigo o caçula de 8 anos.

Nos 11 dias seguintes, Masataka quase não dormiu. “Ficava ao lado do telefone, com um bule de café e o maço de cigarros, esperando uma ligação”, lembra. Os criminosos fizeram três contatos, exigindo bilhões de reais.

Em 11 de setembro, o telefone tocou novamente. Era a polícia, dizendo que havia encontrado Ives. Antes de ouvir o fim da notícia, a família começou a comemorar. Então desabaram ao saber a verdade por inteiro: Ives fora achado, porém morto. Os sequestradores haviam assassinado o menino na madrugada do dia 30 de agosto, horas depois de o terem capturado. Apelaram para a maior das barbáries quando perceberam que o garoto os havia reconhecido. Dois dos três criminosos eram seguranças de uma das lojas de Masataka.

“Quando a gente vê um filho no caixão, o que vem é o ódio, a vontade de se vingar”, conta o pai. “Logo após o enterro eu vou buscar esses caras de qualquer jeito”, pensava. E começou a planejar a represália. O julgamento seria o dia perfeito. Na véspera da audiência na corte, Masataka pegou a arma que tinha em casa, limpou-a com cuidado e a encheu de balas. Ia entrar no tribunal atirando.

Sem conseguir dormir, buscou amparo no altar que tem na sala de casa. “Deus, dizem que o Senhor é tão bom. Por que permitiu isso?”. Rezou até a exaustão, e enfim pegou no sono. No dia seguinte, em vez da arma, levou a Bíblia.

A fim de preservar Masataka, o juiz pediu para que ele reconhecesse os indiciados através do olho mágico da sala onde estavam. Mas o empresário preferiu abrir a porta e ficar cara a cara com eles. “Olhem para mim! Olhem para o pai do garoto que vocês mataram, se são homens!” Os três, algemados, permaneceram de cabeça abaixada. Num ímpeto, Masataka disse algo cujo significado completo só entenderia algum tempo depois: “Eu não vim aqui para matá-los. Vim para perdoar cada um de vocês”.

Dos deuses aos homens

Em meio a um turbilhão de sentimentos, Masataka utilizou-se de um recurso tão poderoso que, durante muitos séculos, foi considerado restrito às divindades. No Velho Testamento, é a Deus que todos se voltam em busca da expiação das culpas. E ainda hoje as religiões mantêm rituais em que os erros são confessados às forças divinas em troca da absolvição.

Os especialistas divergem sobre o momento histórico em que o perdão se tornou passível de ser concedido por meros mortais. Segundo o professor de psicologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Júlio Rique Neto, que dedicou o doutorado ao assunto, a indulgência se tornou humana no início da Era Cristã: “Ao catequizar os homens, Jesus Cristo ensinou que todos teriam o poder de perdoar e pedir perdão. Com essa atitude, o ritual deixou de ser exclusivamente divino”. Outros dizem que isso só aconteceria no século 18, quando os iluministas pregavam a autonomia moral do homem em relação a Deus.

“O perdão é para você, e para ninguém mais.
É a sensação de paz que emerge quando você
se torna herói, e não vítima, da história que relata”

Talvez a humanidade tenha inicialmente identificado o perdão como divino devido ao seu caráter antinatural. “Toda ação requer uma reação, segundo a definição biológica. Quando você perdoa, acontece uma quebra, porque não há a reação”, explica o filósofo Mário Sérgio Cortella, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Segundo ele, perdoar é um conceito ético, um comportamento ligado ao que há de nobre na condição humana.

Vencer essa tendência à retaliação exige tempo e esforço. E foi isso que Masataka começou a descobrir naquele dia no tribunal. Logo depois de depor, ele foi embora. Soube da sentença pelos jornais. O motoboy Adelino Donizete Esteves foi condenado a 43 anos de prisão. E os seguranças (que também eram policiais militares) Paulo de Tarso Dantas e Sérgio Eduardo Pereira de Souza, a 45.

Mesmo assim, Masataka não estava em paz. “Às vezes, estava dirigindo e a imagem dos  três vinha à minha mente. Eu socava o volante do carro e brecava bruscamente”, lembra. Para conseguir dormir, bebia meia garrafa de uísque.

No começo dos anos 2000, um programa de TV chamou a atenção do empresário. Era o quadro A Hora da Verdade, apresentado no Fantástico, no qual vítimas e criminosos eram postos frente a frente. Masataka decidiu participar. Enquanto combinava os detalhes com a equipe de jornalistas, voltou a maquinar a vingança: “Vai ser a oportunidade de ficar próximo dos três. Vou matá-los de uma vez só”.

No dia anterior à gravação, novamente buscou forças na espiritualidade. Por mais de uma hora, repetiu a si mesmo: “Eu amo. Vocês, Paulo de Tarso, Eduardo e Adelino, amam também. Eu e vocês somos um só perdão de Deus”. Quando chegou ao presídio, em Avaré (SP), Masataka ficou confuso. Não sabia se desistia de encontrá-los, se planejava uma agressão ou se enfim os perdoava.

Aos poucos, retomou a calma e entrou na sala para ficar de frente com o criminoso – apenas um dos sequestradores, Adelino, aceitou participar do programa. “Sabe o que vim fazer aqui?”, perguntou Masataka. “É duro para um pai perdoar o assassino do seu filho. Mas eu estou aqui para te salvar.” O criminoso ficou em silêncio. Quando acabou a gravação, o empresário o chamou novamente: “Você tem uma filha, né?”. Adelino arregalou os olhos. “Desejo a ela o contrário do que você fez com o Ives. Que ela cresça, case-se, tenha filhos e seja feliz.”

Dessa vez, Masataka sentiu que conseguira perdoar de verdade. “Quando saí do presídio, foi como se tivesse deixado todo o peso do ódio e da vontade de vingança atrás daquele  portão. Daquele dia em diante, passei a dormir melhor”, conta. Ele ainda tentou se encontrar com os outros dois sequestradores, mas os criminosos não aceitaram vê-lo. “Hoje, eles não me interessam mais. Agora estou bem comigo mesmo. Eu não fiz isso só por mim, fiz pelo meu filho também. Eu acho que ele está feliz agora.”

As palavras de Masataka deixam claro que, ao decidir perdoar, ele estava pensando mais em si do que nas pessoas a quem dirigiu a desculpa. Será esse um comportamento errado, egoísta? O psicólogo Fred Luskin, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, acha que não. “O perdão é para você, e para ninguém mais”, afirma o especialista no livro O Poder do Perdão (Editora Francis). “É a sensação de paz que emerge quando você assume a responsabilidade sobre como se sente, e torna-se um herói e não uma vítima na história que relata. Significa que, embora ferido, você opta por sofrer menos”, completa.

Além de fazer bem para quem perdoa, a prática beneficia toda a sociedade. “Você pode ajudar muitas pessoas com o exemplo de como superou a adversidade e a dor”, afirma Fred. E é isso que Masataka, hoje com 54 anos, e sua esposa, Keiko, da mesma idade, têm feito. Após a morte do filho, eles criaram o Instituto Ives Ota, que ajuda vítimas de violência. Por mês, o casal chega a dar 30 palestras pregando a importância do perdão. “Quero que nossa atitude seja propagada”, afirma o pai.


Ser perdoado é… receber uma chance de reerguer a vida e as relações afetivas. como a ex-viciada em drogas Milena

Ritual de recomeço

Perdoar só depende de nós: Masataka nunca ouviu um pedido de desculpa, mas isso não foi impedimento para que optasse por concedê-la. Já ser perdoado é diferente. Pode exigir um esforço individual tão grande quanto o de quem perdoa, e ainda tem a necessidade de encontrar no outro a mesma disposição de superar o ocorrido. Foi o que aconteceu com Milena Gertner, de 22 anos.

Aos 14, ela passou a ser observada diariamente por um detetive particular. Foi o que sua mãe, Sulamita, decidiu fazer quando descobriu que a filha estava consumindo álcool e maconha. “Eu só podia ir da escola para casa e da casa para a escola. Qualquer desvio no caminho, minha mãe era acionada”, conta.

A estratégia funcionou por dois anos, período no qual Milena ficou afastada das drogas. Mas, aos 17, quando ela entrou na faculdade, a vigilância materna afrouxou, e a filha se sentiu livre para fazer o que viesse à telha. Além de maconha, ela passou a usar cocaína. “Não me drogava mais para me divertir. Era uma necessidade de sobrevivência”, diz.

Aí a vida inteira desandou. A fim de conseguir dinheiro para comprar drogas, Milena passou a assaltar e chegou até a se prostituir. Fugia de casa, ficava dias sem dar notícias e maltratava a família. Sua irmã Camila, na época com 13 anos, às vezes a seguia para tentar impedi-la de se drogar. Certa vez, encontrou-a já bem alterada, usando cocaína na rua, e tentou tirar-lhe o pó. Milena partiu furiosa para cima dela. “Eu fui para matar. Eu sei que ela queria meu bem, mas eu não entendia assim”, lembra Milena. Depois disso, Camila ficou com tanto medo da irmã que desistiu de dividir o dormitório com ela: mudou-se para o quarto de serviço.

Aos 20 anos, Milena já não aguentava mais o inferno em que sua rotina se transformara e decidiu pedir apoio à família. Sua mãe a levou ao Narcóticos Anônimos, onde a filha iniciou um processo de desintoxicação. Paralelamente, passou a fazer psicoterapia. Deu certo. Milena conseguiu superar o vício e passou a refletir sobre tudo o que havia aprontado naqueles últimos anos.

“Depois de um ano limpa, comecei a ter consciência do mal que eu causei aos outros”, diz. “É muito difícil assumir que você magoou pessoas que ama. Eu sou a primogênita, deveria ser um exemplo para minha irmã. Em vez disso, eu a machuquei.”

O apoio da família já era uma demonstração clara de que o período conturbado não havia rompido os laços de amor. Mas Milena sentia que devia assumir verbalmente seus atos e seu arrependimento. “Às vezes, você não precisa falar para praticar o perdão”, afirma o professor Júlio Rique Neto. “Algumas pessoas, porém, necessitam de um ritual, precisam pedir ou dizer que perdoam, fazendo daquele momento um marco do fim do rancor”, completa.

Na volta de uma das reuniões do Narcóticos Anônimos, Milena conversava amenidades com Sulamita. De repente, pairou um silêncio e ela disse:
– Mãe, desculpa aí.
– Desculpar o quê?
– Me perdoa pelo mal que eu fiz nos últimos anos?

As duas começaram a chorar. “Ela sabia  que eu não tinha feito tudo aquilo por mal. Mas eu precisava dizer a ela que esperava ser uma filha melhor”, conta. Milena também pediu perdão à irmã – e as duas voltaram a dividir o quarto. “Hoje, eu evito até ficar nervosa perto dela para não assustá-la.” A jovem também se desculpou com os amigos, dos quais tinha se distanciado, e com o dono do mercadinho perto de casa, que ela havia assaltado para comprar drogas.

“O benefício mais importante do perdão é a afirmação de que não somos vítimas do passado”, afirma Fred Luskin. “Devemos encontrar uma maneira de resolver as lembranças dolorosas. E é o perdão que fornece a chave para isso”, complementa. Oswaldo Leite Netto, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, acrescenta: “O perdoado ganha uma oportunidade de rever suas atitudes e melhorar como ser humano. Perdoar é um gesto extremo de consideração”.


Perdoar-se é… encarar o remorso e aprender com ele, mesmo quando sabemos que não tivemos culpa nenhuma. Como o médico Maurício

Paz para si

Milena reconstruiu suas relações com todos a quem tinha ofendido. Só não está certa se a questão foi resolvida consigo mesma: “Eu me arrependo muito pelo que fiz, mas não sei se consigo me desculpar”. Muitas vezes, essa é a parte mais difícil. “É generalizado o fato de as pessoas não saberem praticar o autoperdão”, diz Fred Luskin. “Muitos passam a vida aprisionados pela culpa e pela vergonha referentes a ações do passado.”

Esse remorso pode surgir mesmo quando temos consciência de que os fatos que lamentamos não aconteceram por nossa culpa. Mesmo quando sabemos que fizemos o que deveríamos, e que, se tivéssemos uma nova chance, agiríamos da mesma forma.

A história do ortopedista Maurício Monteiro, de 59 anos, é assim. Em 1978, ele trabalhava no hospital Stella Maris, em Guarulhos (SP). Uma noite, uma senhora com mais de 80 anos chegou à emergência com o fêmur fraturado. Fez-se uma série de exames, os quais garantiram que ela tinha condições de passar por uma operação. No dia seguinte, ao lado da maca, Maurício a acompanhava à sala de cirurgia.

– Doutor, eu não quero ser operada. Acho que vou morrer.
– Calma, não tem por que ter medo.

Tinha tudo para ser um procedimento simples. Durante a cirurgia, porém, a pressão da paciente baixou e ela não conseguia respirar. Maurício interrompeu a operação. A equipe tentou reanimá-la. Mas a senhora não resistiu.

“Não somos vítimas do passado. Devemos encontrar
uma maneira de resolver as lembranças dolorosas.
E é o perdão que fornesse a chave para isso”

Era a primeira vez que Maurício perdia um paciente. “Na hora eu pensei que talvez não tivesse sido correto, porque ela havia pedido para não ser operada”, lembra. Pelo resto daquele dia, e muitas outras vezes durante a vida, a imagem daquela mulher surgiria em sua mente. “Eu me sentia culpado por ter abreviado a vida dela. Não pela cirurgia. Porque, se eu não a operasse, ela viveria, com sorte, em torno de uma semana. Não poderia nem sentar-se e, naquela idade, certamente teria complicações”, explica.

Hoje, ele sabe que fez o certo. Não se sente culpado nem se arrepende. Mas aquele plantão segue vivo em sua memória. Como um lembrete da responsabilidade de sua profissão. Como uma experiência que o transformou em alguém mais consciente das lições da vida.

Seja a si mesmo ou aos outros, perdoar não é esquecer. É aceitar que muitas coisas não estão sob o nosso controle. Que injustiças e perdas – algumas permanentes – acontecem. Que todos somos passíveis de erros. Mas também é entender que, se a natureza nos fez capazes de magoar, por outro lado nos conferiu a possibilidade de reconhecer a falha e mudar de comportamento. E, se sentimos rancor, também sabemos oferecer uma nova chance. O perdão exige tempo, esforço, reflexão. E talvez por isso mesmo seja uma força tão poderosa e transformadora. Não consegue evitar tempestades, é verdade. Mas permite que, depois delas, venham a paz e o recomeço que inspiram as calmarias.


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