Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral

sonho de uma terça-feira gorda


Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral

Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral

Já declarei meu amor pelo Carnaval em um post no ano passado. Continuo amando a folia. Aliás, amo mais agora que posso foliar com outrem.

Dizem que amor de carnaval termina na quarta de cinzas, mas eu acho que vim ao mundo para comprovar que conhecer alguém nesses cinco dias pode ser, quiçá, para a vida toda.

Foi num carnaval que nos conhecemos. No seguinte, ele tomou coragem. Nesse, foliamos juntos. Assistimos nossas escolas na TV, pulamos no bloco “Vai quem qué”, curtimos um friozinho debaixo dos cobertores.

Ao ler um poema, de Manuel Bandeira, chamado “Sonho de uma Terça-feira gorda”, ele lembrou de nós dois e me mandou. E nada poderia resumir melhor o que o Carnaval representa para nós.

Sonho de uma terça-feira gorda

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros,
[e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma
[espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
– Dentro de nós, ao contrário, era tudo tão claro e luminoso.
Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes – Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas – deusa disto, deusa daquilo, já tontas e
[seminuas.
A turba ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhe flores.
Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
– A profunda, a silenciosa alegria…

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