bordados


Esse texto estava acumulando de poeira na estante de rascunhos desde 02 de fevereiro. Escrevi parte dele sala de embarque do Aeroparque de Buenos Aires. Hoje resolvi passar um espanador e rescrevê-lo. Meu voo estava atrasado. E minha paciência já estava mais curta do que de costume. Decidi escrever para tentar me acalmar. Cheguei ao aeroporto mais cedo do que devia e fiquei lá mais tempo do que esperava. Horas intermináveis que me permitiram ler Bordados, de Marjane Satrapi, duas vezes. Graça a ela  a espera para voltar para casa se tornou um pouco mais agradável.

Um mini flashback para entenderem a minha relação antiga com Marjane.


Em 2007, a Ludmila, que trabalhava comigo no Guia Quatro Rodas, me apresentou Persépolis, de Marjane Satrapi. Fiquei apaixonada pela leveza com que ela trata assuntos tão pesados. No aniversário de 2010, a Ana, que também trabalhou comigo no Guia, me presenteou com uma edição da série completa, que eu não tinha porque li todos pegando emprestado da Lud.
Na Mostra de Cinema de São Paulo de 2011, o único filme que assisti foi Frango com ameixas, adaptação da própria Marjane  do seu livro homônimo. Saí o do cinema completamente extasiada. Tanto que o Fábio, que não precisa de apresentações, resolveu me dar, de presente de aniversário, a obra literária, que foi devorada nas 4 horas que demoro para ir de Barueri para São Paulo e voltar. Nesse mesmo aniversário, uma amiga querida me deu Bordados, que só me foi entregue em Buenos Aires, quando a Angelita, filha dessa minha amiga, foi me visitar. E assim Deus fez o mundo em seis dias e tirou o sétimo para descansar. AMÉM.

Voltando ao Bordados

Marjane trouxe riso e momentos de alegria para minha entediante espera. De todos que eu li, esse seu quadrinho é mais solto e íntimo. Tanto na forma quanto no conteúdo. A quadrinista não  se prende à estrutura dos quadrados para desencadear a história, elas correm para fora dos balões e se organizam como as boas fofocas: soltas como as linhas de um tricô que vão se amarrando e seguindo seu fluxo e dando novo formato a um conteúdo exclusivo. Como uma boa reunião de tricoteiras, vida íntima de vizinhas e familiares vão sendo contadas de forma deliciosa. Dei boas gargalhadas, mas também me sensibilizei com a falta de perspectivas daquelas mulheres que veem no casamento a   possibilidade de uma vida melhor e cor de rosa e que, na maioria das vezes, é frustrada e se torna mais negra do que os véus que elas carregam para esconder seus cabelos e rostos.

É arte: a edição bem-cuidada da Cia das letras, ou Quadrinhos na Cia, que valoriza ainda mais o trabalho plástico de Marjane. Essa edição é mais artisticamente melhor elaborada do que Persépolis e Frango com ameixas.

É fato: aprendi que a palavra “bordado” também significa, no Irã, a cirurgia de reconstituição do hímen. O que dá um tom mais crítico e político à obra de Marjane.

:: Bordados – Marjane Satrapi. Histórias em quadrinhos. Quadrinhos na Cia. 2010. 136 págs. R$ 37.

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