esperando, esperando, esperando o trem


Desde que eu me mudei para Barueri, aos cinco anos, eu ando de trem. Quando eu era criança, o meio de transporte era sinônimo de diversão. Adorava entrar no vagão com a minha mãe para ir à casa da minha vó. Na adolescência, tornou-se o símbolo da minha independência. Era um máximo poder ir e vir de São Paulo sozinha para fazer os meus  primeiros passeios culturais. Desde que eu chegasse às 22h30 na estação de Barueri para o meu pai me pegar, estava tudo certo. Hoje, é o meu maior martírio. Nada me tira mais o humor do que ter de embarcar no trem da CPTM com suas infinitas panes.

Já vivi muitas histórias naqueles vagões. A mais emocionante foi quando eu cai no vão entre o trem e a plataforma e fui parar lá nos trilhos. Sempre munida do meus potentes fones de ouvidos, é só chegar na estação que, como mágica,  Pedro Pedreiro, de Chico Buarque, começa a tocar. Parece que o Bruce, meu iPod, faz um apelo: “vamos voltar pra casa?”. E com ela abro a minha seleção de músicas sobre trens.

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Quando o trem quebra faltando uma estação para chegar em Barueri ou trafega com velocidade reduzida por problemas na via, eu não consigo não pensar na Maria Fumaça, de Kleiton & Kledir. (Fábio, se eu me atrasar para o nosso casamento, você já sabe a culpa de quem é, né?)

Essa Maria Fumaça
É devagar quase parada
Oh seu foguista
Bota fogo na fogueira

E quantas vezes eu não tive de correr para pegar o último trem da meia noite, porque assim como a mãe do Adoniran Barbosa, minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. E se eu perdesse aquele trem, só amanhã de manhã, mesmo!

Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã.

O bom das minhas viagens de trem é colocar a leitura em dia e o tempo perdido para refletir sobre a vida. Nas coisas que e a gente se esquece de dizer, frases que o vento vem as vezes me lembrar, como já diz a canção Trem Azul, de Lô Borges.

Coisas que o vento vem as vezes me lembrar
Coisas que ficaram muito tempo por dizer
Na canção do vento não se cansam de voar

Na época em que eu estudava com afinco o modernismo brasileiro e era apaixonada pela Tarsila do Amaral e pelos demais modernistas, pensava em entrar na igreja, no dia do meu casamento, ao som do Trenzinho Caipira, do Villa Lobos, no lugar da cafona marcha nupcial. Mas essa ideia já passou! Ufa! Penso, hoje, em uma coisa mais pop. 😉

O fato é que o trem circula há séculos pelo Brasil, mas ainda não evolui muito do café-com-pão de Manuel Brandeira. Aliás, acho que decaiu. Afinal, as paisagens que apreciamos pela janela não são tão bonitas e atualizando o final do simpático poeminha: Que só levo muita gente, muita gente, muita gente…

Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

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