só para mulheres


Há um ano, eu brinco de casinha todos os finais de semana em apartamento de verdade. Mas nunca imaginei que criaria um carinho pela vida doméstica. Descobri que adoro organizar armários, fazer comidinha (com alimentos e fogão verdadeiros) e esperar o ma… digo, o namorado chegar do trabalho pra jantarmos juntos (Vale lembrar que isso sempre acontece porque eu trabalho em casa. Essa vida louca de freelancer. Não é nada de submissão, ok?). Eu que sempre brinquei tão pouco com essa realidade quando menina – o  meu negócio sempre foi montar quebra-cabeça e dar aula para as bonecas -, me descobri encanta com esse mundo.

Me desculpem as feministas por talvez distorcer um pouco a mensagem de Simone de Beauvoir, mas acho que ela tem toda razão ao dizer que não se nasce mulher, torna-se. No meu caso, foi essa descoberta de ser “mulherzinha”. E não vejo isso apenas por esse apego às coisas de casa. Hoje, me interesso também muito mais por assuntos que eu antes abominava, com maquiagens, moda, culinária, decoração, tratamento de celulite… Todos os  nhé-nhé femininos me atraem. (Talvez essa seja uma boa explicação por eu ter me tornado uma telespectadora assídua da GNT, ;D)

Por estar tão envolvida com esse mundo feminino, fui ler um livro que há tempos pegava pó na minha estante: “Só para mulheres”, de Clarice Lispector. O título traz uma reunião de artigos sobre assuntos femininos  que ela tratava em colunas de jornal para os quais escrevia sempre usando pseudônimos.  Há receitas, dicas de etiquetas, truques para tirar manchas de roupas, como lavar o cabelo a seco, conselhos para educar o filho e aguentar o marido.

A maioria dos textos tem um toque de humor (vide a imagem acima). E alguns são mais ácidos, como o que ela fala sobre a “felicidade conjugal”:

“Aliás, apenas um casal em seis, se considera tão feliz, quanto desejaria ser. Um casal em vinte se sente realmente infeliz. A maioria fica entre esses grupos e cerca de oitenta porcento é, mesmo, moderadamente feliz.

Os entendidos no assunto costumam dizer que os casamentos mais felizes são aqueles em que se impera um sentimento de camaradagem, compatibilidade amorosa e mútua determinação de fazer com que o mesmo tenha êxito.

Pelo menos dois desses ingredientes devem estar presentes, para que o casamento tenha possibilidades de sucesso e seja razoavelmente feliz.”

Bom, eu sempre desconfiei dessa tal felicidade conjugal mesmo. Achava que o casamento prejudicava o amor. Mas é tão bom conviver com que a gente ama (pelo menos em 4 dias da semana) que eu passei a reconsiderar essa teoria. Afinal, eu tenho um bom exemplo dentro de casa de um casal companheiro de verdade! E em 2010, ganhei mais um exemplo de um casamento que continua feliz e cheio de romance mesmo depois de mais de 30 anos de casados. Acho que o truque é aquela história de molhar sempre a plantinha e  se juntar com alguém que você realmente admire – pelo menos alguma coisa, o jeito dele ler o jornal ou a maneira dela pentear o cabelo. Como a própria Clarice diz:

“Pode-se dar amor natural, comum. Pode-se ter pena da pessoa ou ser fisicamente atraída por ela, e enganar-se pensando que essa é reação é amor. Mas para que o amor realmente exista é preciso que você admire alguma coisa nele ou nela. Theodore Reik acha que o “amor só é possível quando você atrbui um valor mais alto à pessoa do que a você, quando você vê nela ou nele uma personalidade que, pelo menos em algum sentido, é superior à sua”

É arte: o tratamento gráfico é muito lindo e cuidadoso, apesar de ser um livro um tanto ruim de carregar na bolsa.

É fato: Pensar que alguns conselhos dali, como os de noivado ou como segurar o marido, deviam ser mesmo seguidos a risca na década de 60. Eu fiquei esconjurada com história de que os homens não gostavam de mulheres inteligentes. Ai, como é bom viver nos anos 2000…

:: Só para mulheres, de Clarice Lispector. Contos (a quem classifique como Auto-ajuda). Rocco, 2008. 160 págs. R$ 44.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s