a primeira vista


Eu demorei para entrar na peça. Mas quando eu entrei, foi um mergulho profundo. Fiquei com nó na garganta o tempo todo. Não é uma peça melancólica. Longe disso. As duas personagens tratam a descoberta do amor com muita sensibilidade e humor. Não são raros os momentos que a plateia cai na gargalhada. Bom, eu não chorei, se querem saber. Mas fiquei com o coração apertado.

Escrevendo agora sobre a peça para uma amiga, os olhos marejaram. Escrevi porque ela sempre me dizia que o amor não tinha sexo. E acho que a peça sintetiza um pouco esse pensamento. Mais do que amor de casal, a peça fala também do amor da amizade. Aquele amor que transborda.

Em determinado momento, a personagem de Drica Moraes se diz uma mulher prática, que sempre foi prática, mas que o amor não é dessa ordem da praticidade. Porque os sentimentos não são práticos.

Desse momento em diante acho que a peça me fisgou. Porque eu também sempre fui uma pessoa prática. Mas desde que me apaixonei descobri que toda minha praticidade para resolver todos os assuntos do cotidiano e profissionais de nada vale para os relacionamentos. O sim nem sempre significa sim, o não às vezes pode ser talvez, e o talvez, como diz a Roberta Sá, atrapalha.

Relacionamentos são em si complicados. Porque nós seres humanos somos complexos demais. E é difícil atender as espectativas do outro. Afinal, todos nós somos diferentes e nem sempre queremos o que outro quer. Nem mesmo duas pessoas que nasceram no mesmo dia são iguais. Mas, apesar da diferença, todos podem se entender.

A peça quebra o clichê de que precisamos encontrar alguém que nos faça rir. Porque nem sempre alguém que nos faça rir é o suficiente, isto é, se essa risada não vier acompanhada por um punhado de cumplicidade.

E não se culpe por sentir ciúme de alguém. Ou melhor, se não for aquele doentio. Todos nós sentimos ciúme, e não adianta dizer que não. Mesmo se você aceitar um relacionamento aberto ou a amizade. Quem não tem ciúme daquele amigo favorito? O ciúme, se não for voraz, é saudável.

Em 80 minutos, esse texto delicado, que me levou do riso ao pranto, me deu uma aula sobre amizade e amor. Porque os relacionamentos são feitos de todos esses sentimentos. Um pouco de amor, uma pitada de ciúme, um punhado de amizade, três colheres de sopas bem cheia de cumplicidade, uma xícara de alegria. Junte tudo e mexa com bastante vontade. Leve ao fogo e torça pra dar tudo certo!

É arte: gosto muito dos clipes que as produção da peça fez. Abaixo, mais um.

É fato: elas repetem muito a frase: “nada é suficiente”. E, às vezes, a nossa vida é assim. “Nada é suficiente” ou “nada é suficiente”. Gosto dessa ambiguidade.

:: a primeira vista: Texto de Daniel MacIvor, direção de Enrique Diaz. Com Drica Moraes e Mariana Lima. Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos

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