Eu deveria ter percebido que não existia, para você, nenhuma relação com uma legalização, uma socialização da nossa união. Ela deveria significar tão somente que nós estávamos juntos pra valer, que eu estava pronto para concluir com você aquele pacto para vida inteira, pelo qual um prometia ao outro sua a sua lealdade, a sua devoção e a sua ternura. Você sempre foi fiel a esse pacto, mas não estava segura de que eu, de minha parte, soubesse manter fiel a ele. Minhas reticências, meus silêncios alimentavam as suas dúvidas. Até aquele dia de verão em que você me disse calmamente que não queria mais esperar minha decisão. Você era capaz de compreender que eu não quisesse passar a vida ao seu lado. Nesse caso, preferiria deixar-me antes que o nosso amor se desgastasse em brigas e traições. “Os homens não sabem romper”, você dizia. “As mulheres preferem que a ruptura seja clara.” O melhor, segundo você, era a gente se separar por um mês para me dar tempo de decidir o que eu queria.
Eu soube naquele momento que não tinha necessidade de nenhum prazo para refletir; que teria saudade para sempre se a deixasse partir. Você foi a primeira mulher que eu consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda; meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontrei paralavras que nunca soubera pronunciar; palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre. 
Carta a D., André Gorz. P. 17-18.

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