menino do mato


“Eu sempre guardei nas palavras os meus desconcertos”

Chegamos ao post 100! \o/

Eu tinha preparado um outro texto para esse momento, mas como minha vida tá cheia de espera e angustia tive de aquietar meu coração de alguma forma. Em uma rápida olhada na Livraria da Vila achei o melhor ansiolítico de todos os tempos: Manoel de Barros.

Menino do mato está entre as leituras mais delicada que fiz. Sua busca por um olhar inocente perante a vida e as coisas da natureza é tocante. Em suas palavras: “porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore”.

Li seus lindos poemas na volta pra casa. Eles me tocaram a alma e me fizeram lembrar do quanto eu esqueci, nos últimos meses, de deixar minha criança livre.  Acho que chegou o momento de ouvir mais a Karininha, que deve viver ainda perdida em algum lugar desse meu coração já cansado de amargura.

Nosso conhecimento não era de estudar em livros.
Era de apalpar de ouvir e e outros sentidos.

Seria um saber primordial?
Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor
e não por sintaxe.

A gente queria o arpejo. O canto. O gorjeio das palavras.
Um dia tentamos até de fazer um cruzamento de árvores
com passarinhos
para obter gorjeios em nossas palavras.
Não obtivemos.
Estamos esperanto até hoje.
Mas bem ficamos sabendo que é também das percepções
primárias que nascer arpejos e canções e gorjeios.
Porém naquela altura a gente gostava mais de palavras
desbocas.
Tipo assim: Eu queria pegar na bunda do vento.
O pai disse que o vento não tem bunda.
Pelo que ficamos frustrados.
Mas o pai apoiava a nossa maneira de desver o mundo
que era a nossa maneira de sair do enfado.

A gente não gostava de explicar as imagens porque
explicar afasta as fals da imaginação.
A gente gostava dos sentidos desarticulados com a
conversa dos passarinhos no chão a comer pedaços de
mosca.
Certas visões significavam nada mas eram passeios
verbais.
A gente sempre queria dar brazão às borboletas.
A gente gostava bem das vadiações com as palavras do
que das prisões gramaticais.

Quando o menino disse que queria passar para as
palavras suas peraltagens até os caracóis apioiaram.
A gente se encostava na tarde como se a tarde fosse
um poste.
A gente gostava das palavras quando elas perturbavam
os sentidos normais da fala.

Esses meninos faziam parte do arrebol com
os passarinhos.

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