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a morte do pai


Um pouco da minha vida está exposta nesse blog. Em geral, aqui eu conto sobre os livros que li, peças que vi, mostras que visitei em resenhas sempre mescladas com memórias pessoais. Na internet, especialmente nas redes sociais, boa parte das pessoas expõe seus pensamentos e suas vidas. O escritor norueguês Karl Ove Knausgård soube melhor do que ninguém fazer essa exposição em A Morte do Pai, primeiro livro da série Minha Luta — sim, é o mesmo título da biografia do Hitler. Como ainda não li os outros seis livros da sequência, vou me deter nesse primeiro.

Meu primeiro contato com o autor foi na Flip desse ano. Ao vê-lo lendo um trecho de um livro que eu já não lembro mais na Mesa de Cabeceira e cruzando com ela nas ruas tortas de Paraty, eu o achei uma figura simpática. Porém, confesso que não fiquei interessada em ler a autobiografia de uma pessoa que não conhecia. Mas aí apareceu uma promoção na Amazon e o livro dele estava por R$ 13. Que mal fazia comprá-lo para dar uma espiada, né? Foi uma isca muito bem jogada. Logo nos primeiros 5% do livro (li no Kindle, que não mede o volume de leitura por página, mas por posições, porcentagem ou tempo), fiquei totalmente envolvida pela vida daquele estranho.

Eu não faço ideia de quem são aquelas pessoas, de onde ficam aqueles lugares que ele cita. A realidade da Noruega é totalmente distante pra mim. E isso não fez a menor importância. Aprendi com essa leitura que se é ficção ou realidade não faz a diferença se a história é bem contada. E Karl Ove sabe contar história. Ou melhor, sabe muito bem contar a sua própria história.

Não há assassinatos, não há perseguições ou uma linda história de amor. Há uma vida de um garoto que se transforma em um homem. Um homem comum. Que nunca foi um grande aluno, que teve uma banda ruim na escola, algumas namoradas, uma paixão, trabalhos ruins, que perdeu um pai, que se casou, se separou e se casou novamente. Nada que não aconteça com milhões de pessoas em todo esse mundo. Tá, mas o que então te fez continuar pelas 500 página do livro? O estilo e a coragem de mostrar suas fraquezas.

Karl Ove tem uma escrita envolvente e não tem medo de se expor. A Morte do Pai — e imagino que outros volumes também — é como uma sessão de terapia em que o autor expõe sua intimidade e se propõe a analisar passagens difíceis de sua vida. Li algumas pessoas comentarem que os livros falam sobre a vergonha masculina. Não sou homem e, como já disse, não li todos os livros ainda, mas muitas das “vergonhas” que Karl Ove passa, ao meu ver, são vergonhas humanas e indiferente do sexo.

Se aquele de fato é o autor ou se ele criou uma personagem, não me importa. O que fica pra mim dessa leitura é a sensibilidade de uma pessoa em relação ao que é o mais banal e o mais marcante na vida de uma pessoa. Nesse primeiro tomo, a admiração pelo irmão mais velho, o primeiro porre, a primeira transa, um entrevistado mala, a leitura de um livro, a morte de um pai.

:: A Morte do Pai, Karl Ove Knausgård. Cia. Das Letras, 2013. 512 págs. R$ 54, 90 (ebook R$ 32,50).

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