Fim.


Há momentos em que a gente precisa parar e focar. Não é de hoje que esse blog tem seus momentos de férias. Esse talvez seja apenas mais um — ou pode ser definitivo. Tudo o que sabemos nessa vida é que nada sabemos, não é mesmo?

O fato é que preciso reduzir os pontos de foco para seguir no que realmente é importante no momento. Por isso, esse blog/página/perfil vai parar por aqui. Mas você vai poder continuar me seguindo no Instagram (@ksergiogomes), Medium (@ksergiogomes) ou no twitter (@_ksg) para saber o que ando aprontando no mundo cultural ou noutras áreas do meu interesse. (O que não falta aqui é curiosidade.) 

Então é isso. Por aqui, vamos parar. Mas a vida segue seu movimento por diversos endereços das artes e também pelo da academia — quem sabe agora não sai esse mestrado. Obrigada pela audiência e atenção durante todo esse tempo. 😊

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Teresa Cristina canta Cartola e encanta Caetano


Quem me conhece sabe o quanto eu amo a Teresa Cristina. Basta ela anunciar um show que meu coração palpita. Um dos shows mais lindos que vi em 2016 foi o seu incrível Teresa canta Cartola. Desconheço interpretações mais lindas do poeta do que as dela nesse CD que foi o que eu mais ouvi no Spotify e no meu iPod. Ouça você também e veja ao vivo em abril quando ela se apresentar no Teatro Net.

Para coroar 2016, Caetano Veloso resolveu fazer um show para apresentar a cantora aos que a desconheciam – coitados. E lá veio um show mais lindo. Eu já fui à dois shows de Caetano, um dele já clássico com o Gilberto Gil, que derrete em simpatia. Caetano, no entanto, pareceu sempre fingir que cantava para uma plateia vazia. Tanto em Abraçaço e quanto em Dois Amigos, Um Século de Música, ele nem boa noite deu ao público que esteve lá.

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Para minha surpresa, porém, nesse show Caetano se transformou. Depois da presentação simpaticíssima de Teresa Cristina cantado o poeta da Mangueira, ele não poderia fazer feio com o público que estava derretendo de amor pela portelense. Caetano conversou com platéia quase que a cada música explicando um pouco sobre a escolha das conções. Muitas delas só conhecia pela voz da deslumbrante de Gal Costa — também um dos melhores shows que vi em 2016 –, como Tá Combinado, Meu Bem, Meu Mal e Força Estranha.

E para coroar o show mais simpático que vi de Caetano, antes do bis, ele volta com Teresa para fazer meu coração morrer de amor em duos lindos, como Tigresa e Miragem de Carnaval. E, pra mim, ficou claro: o que faz um show se tornar grande são vozes maravilhosas, canções incríveis, violões afinadíssimos — Teresa canta em companhia do talentoso Carlinhos Sete Cordas — e a simpatia. Porque o que a gente quer é interagir e ouvir causos além da música boa. Nem precisa de telão de led e outras pirotecnias. Basta sorrir pra mim que vou sorrir de volta. E voltar n vezes ao show. Como acontece com a Teresa.

 

 

Jóquei


Foi um amor à primeira palavra. Estava na Flip, em 2015, vendo a última do mesa do e vento, a de Cabeceira, quando Matilde leu um poema. Eu infelizmente não vou lembrar qual, mas vou deixar no final um outro que ela leu em uma outra mesa. Foi um amor. Acho que fiquei de boca aberta e escorreu um fio de baba enquanto a ouvia e a via ler. Era tão envolvente. Foi impossível não mergulhar na leitura junto com ela. E olha que eu tenho muita dificuldade de prestar atenção em pessoas lendo. Depois disso saí da cadeira de plástico direto para livraria para comprar Jóquei, seu primeiro livro.

Quem entende de poesia diz que o livro não tem nada de mais. Mas ali em encontrei todo o sentimento que percebi na leitura de Campilho. A mesma intensidade, a mesma suavidade, a mesma sonoridade do seu sotaque português. ❤ Faz tempo que li esse livro, porém, ao ver uma entrevista da autora na internet, resolvi reler meus trechos favoritos que estão grifados:

“A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos atravessando tudo”

“No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará”

“Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho”

Há muitos outros grifados e poemas inteiros marcados. Mas, nesse momento, senti vontade de destacar esses. Matilde tem um olhar atendo e doce para o cotidiano. Sua escrita é fluida e segue como um bate-papo. Não faz uso de muitos recursos estilisticos para engrandecer sua poesia. É como aquele bom café coado servido em copo americano. É simples, é bom e esquenta o coração. 

The Crown


 

Eu não gosto muito de séries. Na verdade, não tenho muita paciência. São muitos episódios, infinitas temporadas. ZzzZZZzz Eu prefiro mesmo uma boa novelona que, no máximo em nove meses, vai acabar. E se eu perder um ou outro capítulo não fará falta. Mas aí que eu fui fisgada pela série The Crown. Eu e o meu marido ficamos totalmente viciados. Largamos mão da novela por uma semana e assistimos à dois episódios por dia terminando a primeira temporada em uma semana. E agora sofro de ansiedade porque deve levar pelo menos mais um ano para sair a segunda. Amigos amantes de série, por que vocês fazem isso com vocês próprios? É muita angústia. Mas eu tenho algumas teorias para explicar porque gostei tanto de The Crown.

 

  1. Ah, a vida do outro. Eu acho que nasci para ser voyeur. Imagine: eu adoro até ficar olhando o quintal do vizinho da minha varanda. Se eu pudesse, comprava um binóculo para observar a vida das pessoas no prédio da frente. Mas o bom senso me impede isso. Obrigada, mãe. Então, imagina uma série que esmiúça a vida da corte britânica? Eu fico louca, Brasil! Depois de assistir à cada episódio, eu ficava numa busca frenética na internet para descobrir mais coisas sobre a vida de cada personagem.
  2. Essas fofocas da vida da família real são muito novelesca. Príncipes, princesas, amores mal resolvidos, vilões, conspirações contra a corte. Cara, isso poderia ter sido escrito pelo Dias Gomes. O enredo tem todos os ingredientes de uma boa novela. Porém, melhor escrito e melhor produzido. Imagine: 10 episódios levam mais de um ano para serem feitos. Enquanto em menos de um ano, para uma novela, são gravados cerca de 200 episódios. A qualidade não tem como ser a mesma.
  3. Os atores estão fabulosos e é incrível a semelhança com seus personagens na vida real. A menos parecida é a Clay Foy, que interpreta a rainha Elizabeth II, mas que dá um show de interpretação. Não é à toa que ela ganhou Golden Globe de melhor atriz de séries. Aliás, The Crown ganhou o Globo de melhor série. Isso é só para ir te convencendo.
  4. E por último, eu gosto de ver coisas bonitas. A fotografia, os cenários, os figurinos… são belíssimos. Tudo impecavelmente bem cuidado. Sabe aquela história de encher os olhos? Seus olhos vão transbordar.

 

Enfim, se eu não te convenci, é uma pena. Tá perdendo uma incrível produção. E agora eu tô aqui morrendo de abstinência porque acabou a primeira temporada e vendo todos os filmes que existem sobre a realeza e os vídeos no youtube. Afinal, sabe-se lá quando vai estrear a segunda temporada. E já se tem notícia de que, na terceira, vai aparecer a Lady Di. CATAPLOFT. Dá-lhe chá de camomila e suco de maracujá.

globo da morte de tudo


“Viu, filho, nem tudo está perdido”, resumiu uma mãe a uma criança após a performance dos motociclistas na instalação, Globo da Morte de Tudo, de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. A frase positiva da mãe me fez refletir e pensar no lado positivo dos acontecimentos. O que nem sempre é fácil.

Ao meu ver, a maioria estava ali para assistir uma quebradeira total dos objetos instalados nas prateleira enquanto os motociclistas rodopiassem com suas motos nos dois globos. As pessoas queria a catarse. Mas saíram com a frustração porque, com a quebra de uma das motos, a vibração não foi suficiente para que tudo viesse abaixo. Estilhaçando apenas poucos vidros e peças de porcelanas e muitos objetos ficando intactos nas prateleiras. E assim é a vida. Quantas vezes não planejamos para que algo aconteça de tal modo, mas nada ocorre exatamente como está no papel. E arte às vezes a imita vida já diz o ditado.

Em uma entrevista, Nuno Ramos disse que “da destruição vem a possibilidade de construir algo novo”. Mas da frustração, eu diria, vem a possibilidade de tentar de novo. E quem sabe de forma diferente ou quem sabe com um resultado melhor. Dia 8  de novembro, hoje, os motociclistas voltam ao Globo para a última e derradeira apresentação. Quem sabe agora tudo virá abaixo provocando a catarse tanto esperada pelo público. Ou não. E tudo relute em continuar como está. E essa é a beleza da vida. A falta de controle e imprevisibilidade. Afinal, talvez nem tudo esteja perdido basta apenas mudar o jeito de olhar.

:: Globo da Morte de Tudo, de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. Sesc Pompeia. R. Clélia, 93 – Pompeia, São Paulo – SP, 05042-000. 3a/sáb.. das 9hàs 21h; dom. das 9h/20h. Ativação do Globo: 08 de novembro às 20h.

 

a morte do pai


Um pouco da minha vida está exposta nesse blog. Em geral, aqui eu conto sobre os livros que li, peças que vi, mostras que visitei em resenhas sempre mescladas com memórias pessoais. Na internet, especialmente nas redes sociais, boa parte das pessoas expõe seus pensamentos e suas vidas. O escritor norueguês Karl Ove Knausgård soube melhor do que ninguém fazer essa exposição em A Morte do Pai, primeiro livro da série Minha Luta — sim, é o mesmo título da biografia do Hitler. Como ainda não li os outros seis livros da sequência, vou me deter nesse primeiro.

Meu primeiro contato com o autor foi na Flip desse ano. Ao vê-lo lendo um trecho de um livro que eu já não lembro mais na Mesa de Cabeceira e cruzando com ela nas ruas tortas de Paraty, eu o achei uma figura simpática. Porém, confesso que não fiquei interessada em ler a autobiografia de uma pessoa que não conhecia. Mas aí apareceu uma promoção na Amazon e o livro dele estava por R$ 13. Que mal fazia comprá-lo para dar uma espiada, né? Foi uma isca muito bem jogada. Logo nos primeiros 5% do livro (li no Kindle, que não mede o volume de leitura por página, mas por posições, porcentagem ou tempo), fiquei totalmente envolvida pela vida daquele estranho.

Eu não faço ideia de quem são aquelas pessoas, de onde ficam aqueles lugares que ele cita. A realidade da Noruega é totalmente distante pra mim. E isso não fez a menor importância. Aprendi com essa leitura que se é ficção ou realidade não faz a diferença se a história é bem contada. E Karl Ove sabe contar história. Ou melhor, sabe muito bem contar a sua própria história.

Não há assassinatos, não há perseguições ou uma linda história de amor. Há uma vida de um garoto que se transforma em um homem. Um homem comum. Que nunca foi um grande aluno, que teve uma banda ruim na escola, algumas namoradas, uma paixão, trabalhos ruins, que perdeu um pai, que se casou, se separou e se casou novamente. Nada que não aconteça com milhões de pessoas em todo esse mundo. Tá, mas o que então te fez continuar pelas 500 página do livro? O estilo e a coragem de mostrar suas fraquezas.

Karl Ove tem uma escrita envolvente e não tem medo de se expor. A Morte do Pai — e imagino que outros volumes também — é como uma sessão de terapia em que o autor expõe sua intimidade e se propõe a analisar passagens difíceis de sua vida. Li algumas pessoas comentarem que os livros falam sobre a vergonha masculina. Não sou homem e, como já disse, não li todos os livros ainda, mas muitas das “vergonhas” que Karl Ove passa, ao meu ver, são vergonhas humanas e indiferente do sexo.

Se aquele de fato é o autor ou se ele criou uma personagem, não me importa. O que fica pra mim dessa leitura é a sensibilidade de uma pessoa em relação ao que é o mais banal e o mais marcante na vida de uma pessoa. Nesse primeiro tomo, a admiração pelo irmão mais velho, o primeiro porre, a primeira transa, um entrevistado mala, a leitura de um livro, a morte de um pai.

:: A Morte do Pai, Karl Ove Knausgård. Cia. Das Letras, 2013. 512 págs. R$ 54, 90 (ebook R$ 32,50).

o útero do mundo


Meus amigos, que não frequentam tanto museus e galerias quanto eu, sempre me dizem: é porque eu acho tão difícil. Realmente, tem mostra que é osso. Tem artista difícil. Tem obra complexa. Mas tem curador, meus amigos, que escreve textos para ninguém ler. E que eu duvido que ele mesmo leia o que escreveu. Mas aí a gente encontra pessoas como a Veronica Stigger pelo caminho.

Ela escreve textos ótimos sobre arte sem ser hermética e esclarece como ninguém o seu pensamento curatorial. No vídeo abaixo ela discorre sobre uma das três partes da exposição “O Útero do Mundo”, no MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo. São 35 minutos que vão dispensar qual quer palavra minha depois (mas eu vou escrever mais um parágrafo. Há!)

Depois de ver esse vídeo, foi como passear no parque. Toda a seleção de obras (passando por uma das primeiras gravuras da Regina Silveira, cof-cof, passando por Cláudia Jaguaribe, Otto Stupakoff, Leonilson, German Lorca, Orlando Britto, Sandra Cinto e outros) fez total sentido. A escolha das obras se encaixam perfeitamente no discurso bem elaborado da curadora. Não fica ponta sem nó. Então, eu recomendo, veja o vídeo e não perca a mostra que vai até 18 de dezembro.

:: O Útero do Mundo. MAM, Avenida Pedro Álvares Cabral  – Parque Ibirapuera – São Paulo. 3a./dom. das 10h às 18h. tel.: 5085-1300. Até 18 de dezembro.