Jóquei


Foi um amor à primeira palavra. Estava na Flip, em 2015, vendo a última do mesa do e vento, a de Cabeceira, quando Matilde leu um poema. Eu infelizmente não vou lembrar qual, mas vou deixar no final um outro que ela leu em uma outra mesa. Foi um amor. Acho que fiquei de boca aberta e escorreu um fio de baba enquanto a ouvia e a via ler. Era tão envolvente. Foi impossível não mergulhar na leitura junto com ela. E olha que eu tenho muita dificuldade de prestar atenção em pessoas lendo. Depois disso saí da cadeira de plástico direto para livraria para comprar Jóquei, seu primeiro livro.

Quem entende de poesia diz que o livro não tem nada de mais. Mas ali em encontrei todo o sentimento que percebi na leitura de Campilho. A mesma intensidade, a mesma suavidade, a mesma sonoridade do seu sotaque português. ❤ Faz tempo que li esse livro, porém, ao ver uma entrevista da autora na internet, resolvi reler meus trechos favoritos que estão grifados:

“A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos atravessando tudo”

“No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará”

“Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho”

Há muitos outros grifados e poemas inteiros marcados. Mas, nesse momento, senti vontade de destacar esses. Matilde tem um olhar atendo e doce para o cotidiano. Sua escrita é fluida e segue como um bate-papo. Não faz uso de muitos recursos estilisticos para engrandecer sua poesia. É como aquele bom café coado servido em copo americano. É simples, é bom e esquenta o coração. 

a morte do pai


Um pouco da minha vida está exposta nesse blog. Em geral, aqui eu conto sobre os livros que li, peças que vi, mostras que visitei em resenhas sempre mescladas com memórias pessoais. Na internet, especialmente nas redes sociais, boa parte das pessoas expõe seus pensamentos e suas vidas. O escritor norueguês Karl Ove Knausgård soube melhor do que ninguém fazer essa exposição em A Morte do Pai, primeiro livro da série Minha Luta — sim, é o mesmo título da biografia do Hitler. Como ainda não li os outros seis livros da sequência, vou me deter nesse primeiro.

Meu primeiro contato com o autor foi na Flip desse ano. Ao vê-lo lendo um trecho de um livro que eu já não lembro mais na Mesa de Cabeceira e cruzando com ela nas ruas tortas de Paraty, eu o achei uma figura simpática. Porém, confesso que não fiquei interessada em ler a autobiografia de uma pessoa que não conhecia. Mas aí apareceu uma promoção na Amazon e o livro dele estava por R$ 13. Que mal fazia comprá-lo para dar uma espiada, né? Foi uma isca muito bem jogada. Logo nos primeiros 5% do livro (li no Kindle, que não mede o volume de leitura por página, mas por posições, porcentagem ou tempo), fiquei totalmente envolvida pela vida daquele estranho.

Eu não faço ideia de quem são aquelas pessoas, de onde ficam aqueles lugares que ele cita. A realidade da Noruega é totalmente distante pra mim. E isso não fez a menor importância. Aprendi com essa leitura que se é ficção ou realidade não faz a diferença se a história é bem contada. E Karl Ove sabe contar história. Ou melhor, sabe muito bem contar a sua própria história.

Não há assassinatos, não há perseguições ou uma linda história de amor. Há uma vida de um garoto que se transforma em um homem. Um homem comum. Que nunca foi um grande aluno, que teve uma banda ruim na escola, algumas namoradas, uma paixão, trabalhos ruins, que perdeu um pai, que se casou, se separou e se casou novamente. Nada que não aconteça com milhões de pessoas em todo esse mundo. Tá, mas o que então te fez continuar pelas 500 página do livro? O estilo e a coragem de mostrar suas fraquezas.

Karl Ove tem uma escrita envolvente e não tem medo de se expor. A Morte do Pai — e imagino que outros volumes também — é como uma sessão de terapia em que o autor expõe sua intimidade e se propõe a analisar passagens difíceis de sua vida. Li algumas pessoas comentarem que os livros falam sobre a vergonha masculina. Não sou homem e, como já disse, não li todos os livros ainda, mas muitas das “vergonhas” que Karl Ove passa, ao meu ver, são vergonhas humanas e indiferente do sexo.

Se aquele de fato é o autor ou se ele criou uma personagem, não me importa. O que fica pra mim dessa leitura é a sensibilidade de uma pessoa em relação ao que é o mais banal e o mais marcante na vida de uma pessoa. Nesse primeiro tomo, a admiração pelo irmão mais velho, o primeiro porre, a primeira transa, um entrevistado mala, a leitura de um livro, a morte de um pai.

:: A Morte do Pai, Karl Ove Knausgård. Cia. Das Letras, 2013. 512 págs. R$ 54, 90 (ebook R$ 32,50).

Citação

#aspadesegunda aos meus amigos


– O mapa do país não é mau, o problema é a casa dos governantes.

Frase do livro, Aos meus amigos, de Maria Adelaide Amaral. Autora também da novela das 21h que começa hoje na Globo, Alei do amor. Achei que a aspa combinava com esse dia pós-eleição.

Citação

#aspadasegunda: a morte do pai


“Desliguei a TV e passei a folhear um livro de arte que peguei da estante acima do sofá. Era sobre Constable, eu acabara de comprar. Óleos sobre tela, estudos de nuvens, paisagens, marinhas. Bastava eu bater os olhos nas imagens e eles se enchiam de lágrimas, tal era o arrebatamento que algumas das pinturas me causavam. Outras, por sua vez, me deixavam indiferente. Era meu único parâmetro para avaliar pinturas, o sentimento que despertavam em mim. O sentimento de inexauribilidade. O sentimento de beleza. O sentimento de presença. Tudo concentrado em instantes tão intensos que às vezes era difícil suportar. Além do mais, eram completamente inexplicáveis.”

A morte do pai (Minha luta), de Karl Ove Knausgård

vamos comprar um poeta


No Ensino Médio, eu troquei um curso técnico e um cursinho preparatório para o vestibular pelo teatro. O que não deixou meu pai muito feliz na época. Participar do grupo de teatro da escola foi a minha prioridade naqueles três anos. Meu pai dizia que o teatro não me levaria a lugar algum. Realmente, financeiramente e profissionalmente talvez não tenha levado. Não sou atriz e nem nunca quis ser. Mas o teatro me levou a descobrir o mundo.

Antes do teatro, eu só lia as leituras obrigatórias da escola. Depois do teatro, eu passei a ler as da escola, do teatro e complementares. Eu descobri o Manuel Bandeira e a poesia modernista, o mundo encantado do Ariano Suassuna, li peças do Bertolt Brecht e aprendi um pouco de expressionismo alemão. Aprendi a ir para São Paulo sozinha de trem e me apaixonei por artes visuais.

O teatro me custou um atraso de um ano para entrar na faculdade, porém deixou minha vida tão rica que faz esse ano parecer troco de bala. E por valorizar o “inutilismo” e saber o quanto as artes enriquecem a nossa vida, eu recomendo a todos a leitura de Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz. Deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas, faculdades e da vida. São 100 páginas que vão te dar um lucro exponencial. Vamos comprar um poeta já está na prateleira dos melhores livros já lidos. Pois como já diria nosso Mário Quintana: “quem escreve um poema salva um afogado”. 

Veja algumas frases que valeram sublinhar

Por que não um artista?
A mãe disse:
Nem pensar, fazem muita porcaria, a senhora 5638,2 tem um e despende três a quatro horas por dia a limpar a sujidade que ele faz com as tintas naqueles objetos brancos.
Telas
Isso.
Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?

*

O que é que esse poeta faz?
Poemas, respondi eu.
Para que servem?
Para muitas coisas. Há poemas que server para ver o mar.

*

O poeta dizia que os versos libertam as coisas. Que quando percebemos a poesia de uma pedra, libertamos a pedra da sua “pedridade”. Salvamos tudo com a beleza. Salvamos tudo com poemas. Olhamos para um armo morto e ele floresce. Estava apenas esquecido de quem era. Temos de libertar as coisas. Isso é um grande trabalho.

 

não sei, só sei que foi assim


Foi assim, há 12 anos, quando eu decidi fazer parte do grupo de teatro no colégio onde estudava. Precisamos escolher uma peça para apresentar no fim do ano e a Ana, diretora do grupo, chegou com quatro textos de Suassuna: Auto da compadecida, A farsa da boa preguiça, O santo e a Porca e A pena e a lei. Selecionamos trechos das três peças e montamos o Mamulengo do Cheiroso, com esquetes intercaladas com músicas, dança e poesia. 

Eu e mais quatro amigos éramos as figuras que apresentavam e fechavam cada ato dando a introdução e o encerramento dos trechos das peças declamando um poeminha como os da literatura de cordel — alguns que eu mesma escrevi. O de encerramento era como se fosse a moral da história.

Eu não sei, só sei que foi assim que entrei em contato com a genialidade de Suassuana, com a magia do teatro e me apaixonei pela literatura. Nos palcos, eu subi mais poucas vezes. Mas do teatro, da literatura e do texto do autor do célebre o Auto da Compadecida eu nunca mais me separei. 

Faça acontecer


Trabalho numa empresa que verificou em mim a capacidade de ser gestora. E desde então venho participando de cursos para líderes e sobre gestão de pessoas. E entre as tarefas para essa formação estava ler um livro sobre liderança. Escolhi Faça Acontecer, de Sheryl Sandberg, simplesmente porque minha roomie ja tinha em casa e assim evitaria gastos.

A princípio fiquei muito irritada com Sheryl. Detesto essa guerrilha dos sexos. Mulheres isso, homens aquilo. Mulheres lutem pelo seu espaço. Vivo num país chefiado por uma mulher, sempre tive excelentes chefes mulheres. Escrevi um livro sobre uma artista mulher que odiava diferenciação por gênero. E sigo nessa toada e acho muito chato essas questões sexistas.
Mas tirando esses detalhes, achei mais interessante suas dicas sobre liderança, gestão e desenvolvimento de carreira. Pesquei ali dicas preciosíssimas. Especialmente sobre a escolha de seu companheiro de vida. Hahahahahaha. Explico: para Sheryl, é fundamental que nos, mulheres, escolhamos bem nossos maridos. Pois é importantíssimo que essa pessoa divida realmente conosco as responsabilidades domésticas para que possamos decolar em nossas carreiras.
Com isso eu de fato concordo. A vida domestica não pode ser um fardo nem para a mulher, nem para o homem. E, se juntos puderem dividir os perrengues, melhor será para os dois. Mas o que mais prendeu no livro foi suas historias de como chegou ao cargo de chefia. Suas escolhas, seus exemplos, suas angústias e vitórias.
Acho que, dado o momento que vivo hoje, o meu aproveitamento foi livro parcial. No futuro, quando já estiver casada, quiçá com filhos e ocupando um cargo maior de chefia, pretendo voltar a leitura para aproveitar mais suas angustias de uma mãe que tem de cuidar da carreira familiar e profissional.