não sei, só sei que foi assim


Foi assim, há 12 anos, quando eu decidi fazer parte do grupo de teatro no colégio onde estudava. Precisamos escolher uma peça para apresentar no fim do ano e a Ana, diretora do grupo, chegou com quatro textos de Suassuna: Auto da compadecida, A farsa da boa preguiça, O santo e a Porca e A pena e a lei. Selecionamos trechos das três peças e montamos o Mamulengo do Cheiroso, com esquetes intercaladas com músicas, dança e poesia. 

Eu e mais quatro amigos éramos as figuras que apresentavam e fechavam cada ato dando a introdução e o encerramento dos trechos das peças declamando um poeminha como os da literatura de cordel — alguns que eu mesma escrevi. O de encerramento era como se fosse a moral da história.

Eu não sei, só sei que foi assim que entrei em contato com a genialidade de Suassuana, com a magia do teatro e me apaixonei pela literatura. Nos palcos, eu subi mais poucas vezes. Mas do teatro, da literatura e do texto do autor do célebre o Auto da Compadecida eu nunca mais me separei. 

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a primeira vista


Eu demorei para entrar na peça. Mas quando eu entrei, foi um mergulho profundo. Fiquei com nó na garganta o tempo todo. Não é uma peça melancólica. Longe disso. As duas personagens tratam a descoberta do amor com muita sensibilidade e humor. Não são raros os momentos que a plateia cai na gargalhada. Bom, eu não chorei, se querem saber. Mas fiquei com o coração apertado.

Escrevendo agora sobre a peça para uma amiga, os olhos marejaram. Escrevi porque ela sempre me dizia que o amor não tinha sexo. E acho que a peça sintetiza um pouco esse pensamento. Mais do que amor de casal, a peça fala também do amor da amizade. Aquele amor que transborda.

Em determinado momento, a personagem de Drica Moraes se diz uma mulher prática, que sempre foi prática, mas que o amor não é dessa ordem da praticidade. Porque os sentimentos não são práticos.

Desse momento em diante acho que a peça me fisgou. Porque eu também sempre fui uma pessoa prática. Mas desde que me apaixonei descobri que toda minha praticidade para resolver todos os assuntos do cotidiano e profissionais de nada vale para os relacionamentos. O sim nem sempre significa sim, o não às vezes pode ser talvez, e o talvez, como diz a Roberta Sá, atrapalha.

Relacionamentos são em si complicados. Porque nós seres humanos somos complexos demais. E é difícil atender as espectativas do outro. Afinal, todos nós somos diferentes e nem sempre queremos o que outro quer. Nem mesmo duas pessoas que nasceram no mesmo dia são iguais. Mas, apesar da diferença, todos podem se entender.

A peça quebra o clichê de que precisamos encontrar alguém que nos faça rir. Porque nem sempre alguém que nos faça rir é o suficiente, isto é, se essa risada não vier acompanhada por um punhado de cumplicidade.

E não se culpe por sentir ciúme de alguém. Ou melhor, se não for aquele doentio. Todos nós sentimos ciúme, e não adianta dizer que não. Mesmo se você aceitar um relacionamento aberto ou a amizade. Quem não tem ciúme daquele amigo favorito? O ciúme, se não for voraz, é saudável.

Em 80 minutos, esse texto delicado, que me levou do riso ao pranto, me deu uma aula sobre amizade e amor. Porque os relacionamentos são feitos de todos esses sentimentos. Um pouco de amor, uma pitada de ciúme, um punhado de amizade, três colheres de sopas bem cheia de cumplicidade, uma xícara de alegria. Junte tudo e mexa com bastante vontade. Leve ao fogo e torça pra dar tudo certo!

É arte: gosto muito dos clipes que as produção da peça fez. Abaixo, mais um.

É fato: elas repetem muito a frase: “nada é suficiente”. E, às vezes, a nossa vida é assim. “Nada é suficiente” ou “nada é suficiente”. Gosto dessa ambiguidade.

:: a primeira vista: Texto de Daniel MacIvor, direção de Enrique Diaz. Com Drica Moraes e Mariana Lima. Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos

pequena prece ao senhor do bonfim


Já disse aqui em outros post que sou uma foliã de carteirinha. Quando pequena, meus pais me levavam às matinês dos bailes de Carnaval para eu soltar minhas serpentinas, jogar confetes e pular bastante. Depois que eu cresci (ok, cheguei apenas a 1,60), comecei a ir sozinha aos bloquinhos de rua de São Paulo e também à quadra da minha escola de coração, a Rosas de Ouro. Mas nesse ano, assim como a Luisa Marilac, eu resolvi fazer algo diferente. Fui à Marques de Sapucaí, no Rio de Janeiro, desfilar pela Portela.

Sempre tive vontade de desfilar, mas nunca pensei que iria até à terra do Cartola para isso. Mas aí, o mundo dá voltas, e você acaba namorando um portelense (apesar de paulistano) que sofreu uma maldição quando nasceu. O Fábio tem 28 anos e, há 28 anos, a Portela não ganha um desfile. Então, no ano passado, decidimos quebrar esse feitiço e começamos a nos organizar para fazer a nossa estreia na passarela do Samba. Pelo croqui, eu escolhi a fantasia que parecia a mais leve. PARECIA. Quando nos enviaram as fotos, eu já comecei a imaginar o perrengue que iríamos enfrentar. Mas, enquanto as fantasias não chegavam, tentávamos decorar o samba.

O samba desse ano da Portela era cotado com um dos melhores de todos os tempos. E, de fato, era uma delícia. Não precisamos ouvir muitas vezes para decorar. Mas ouvimos muitas vezes por gostar dele de verdade. Tirando o verso:   “Vou no gongá/ Bater tambor/ Rezo no altar/ Levo o andor”, decorei de primeira. Caminhando pelas ruas do Rio, o samba era praticamente hit do Carnaval. Tocava em todas as lojas – morra de inveja, Michel Teló. Os elogios à música só aumentava a nossa expectativa. “Vamos ser campeões”, era a nossa certeza.

Chegaram as fantasias. Nada levinha como parecia. Trambolho é a palavra mais adequada que encontro para definir. O costeiro era até tranquilo. Na cabeça, porém, tínhamos de levar um tambor com canecalon. Juro, nem se eu me esforçasse muito, conseguiria vestir algo tão ridículo. Mas vamos lá: é Carnaval, é Portela, é Campeão! Nos vestimos e partimos para a concentração. Marinheiros de primeira viagem, eu e o Fábio ficamos as duas horas de concentração vestidinhos com a fantasia completa. Resultado: faltando dez minutos para entrar na avenida, estávamos esgotados. Tudo doía.

O cansaço estava me nocauteando quando anunciaram que íamos entrar e começaram a nos posicionar nos nossos devidos lugares. A cuíca gritou, o surdo ritmou, a bateria esquentou e o puxador evocou: Canta, canta, canta, minha Portela. Como Roque Balboa, me levantei do chão e começei a pular e parti pra cima e pra vencer. O cansaço, as dores, o mau-humor… tudo vai embora pra dar lugar à alegria. É mágico ver a galera na arquibancada cantando com você, te animando, puxando a escola. É exatamente como diz a letra do samba: “Cheguei, eu cheguei pra festejar”.

Pulando e cantando, você atravessa os 700 metros da Sapucaí e nem sente. Mentira, você sente, sim! Quando você vê que tá acabando, dá uma alegria danada só em pensar que falta pouco pra tirar treco da cabeça e o costeiro. Mas, ao mesmo tempo, ainda sabendo que desfilar dá uma baita canseira, bate uma vontade enorme de voltar para o começo da avenida e começar tudo de novo.

Abre alas, o olodum chegou

É arte: Como não falar desse samba lindo? Pra não repetir, é arte ver a alegria que invade todo mundo naquele momento tão único, em que deixamos de ser um pra ser uma Escola inteira na avenida.

É fato: O Fábio não conseguiu quebrar o feitiço. A Portela não foi campeã e ficou em sexto lugar. Mesmo fazendo um desfile lindo é difícil para uma Escola de poucos recursos, apesar de muito tradicional, vencer o espetáculo de Paulo Barros com a Unidos da Tijuca.

ensina-me a viver


[Para quem me ensina a viver todos os dias]

Ando muito sensível. Acredito que alguém anda aflorando, em mim, uma maior sensibilidade. Ensinando-me a viver de uma maneira mais sublime. Eu li ou ouvi, não lembro, que o amor pode modificar as pessoas. Hoje, um ano depois de um beijo que nos abalou tanto a estrutura, acredito que a máxima seja verdadeira.

Fomos juntos assistir Ensina-me a viver. No começo, achamos que seria uma peça clichê. Talvez, até seja um pouco. Mas a questão é como a história é contada. É impossível não se encantar com a interpretação graciosa de Gloria Menezes, no papel de Maude. E não tem como se divertir com as trapalhadas de Harold, vivido por Arlindo Lopes.

Harold é um jovem de quase vinte anos obcecado pela morte. Maude é uma senhora de 79 anos que ama viver. Amizade entre os dois faz o moço entender que a vida é maior do que tentar chamar atenção da sua fria mãe. A velhinha matusquela lhe ensina os pequenos prazeres que dão sentido à vida. Um campo com margaridas, o cheiro das ruas, o vento batendo no rosto.

A peça, no fim, é uma ode ao amor. Como é importante estarmos sempre apaixonados – seja por alguém ou pela existência. É muito fácil se deixar levar por todos os aborrecimentos cotidianos e se tornar uma pessoa amargurada e egoísta. É muito difícil tentar ser o girassol. Vivar-se para todos os lados procurando por um raio quente e luminoso e tentar ser feliz no meio de uma realidade tão cinzenta. Ser feliz dá trabalho. Mas não custa tentar. Já olhou para o céu e se apaixonou por uma flor hoje?

É arte: eu ainda não vi, mas já ouvi falar muito bem da adaptação do texto de Colin Higgins para o cinema. Está na lista para próxima vez que for a locadora.

[youtube:http://www.youtube.com/watch?v=hR-OojNoVDg&feature=related%5D

É fato: no começo você até reluta, mas é impossível não se render às personagens, à magia, ao sonho, ao encanto. Segundo a salve-salve da crítica teatral Bábara Heliodora:

“A encenação é cuidada e leve. João falcão encontra o tom exato para a mistura de realismo e quase-sonho…
O Elenco está todo em sintonia com o texto. Arlindo tem atuação de ótima qualidade e Glória tem mais uma grande atuação no palco…. A  integração dos trabalhos de Arlindo e Glória é impecável e o espetáculo encanta o público com sua qualidade e seu calor”

Quem sou eu para dizer o contrário?

:: Ensina-me a viver – dir.: João Falcão. Com Glória Menezes e Arlindo Lopes. Texto: Collin Higgins. Teatro do Autor (Av. Rebouças, 3.970, 3º piso – Pinheiros. Tel.: 3034-0075). Até 27/03.

vida


“Viver é sucinto”, dizia Leminki. Na peça Vida, o diretor  Marcio Abreu queria travar um diálogo com a obra do poeta. Mas, ao meu ver, não conseguiu. Não que eu seja uma especialista em Leminski ou coisa do gênero. LONGE DISSO. Já li, porém, alguns livros do autor e não enxerguei um vírgula dele no espetáculo. A peça não consegue ser sucinta, e sim, prolixa. Voltas e mais voltas e nenhuma conclusão. Diálogos que se repetem, repetem, repetem… Eu cortaria facilmente 1h. Um história cíclica, chata, com alguns bons momentos de riso, só. Pensando nisso, talvez o título tenha tudo a ver, afinal, a vida é um pouco assim. Histórias que se repetem, muitos momentos de tédio e alguns felizes.

Numa sala fechada, em que faz calor, quatro pessoas ensaiam uma apresentação. A convivência forçada faz com que eles se relacionem, revelando o comportamento e dilemas de cada um. A clichê mulher TPM que não para de falar. O homem em crise – de idade ou de sexo, não entendi. Um pessoa mais reservada que prefere sempre se manter em silêncio. Outro com características de apaziguador e mais sensível, que não sabe se vai ou se fica. Ali, ninguém se entende, diálogos não se completam e tudo sempre acaba sempre no mesmo: o nada. Alguma coisa semelhante em sua vida? Provavelmente, sim. Muitas das cenas foram colhidas das vidas dos atores. Mas ninguém precisa perder quase duas horas de seu período existencial ouvindo zilhares de vezes: “O que eu digo te interessa?”, “Tá to mundo aqui?”, “O que brilha?”. Viver já é bastante cansativo, não precisamos de outra vida tão entediante.

É arte: de qualquer modo, é sempre bom entrar em contato com a poesia de Paulo Leminski. Vejam esse vídeo e entendam o que ele pensava sobre a linguagem. Acho que ele concordava com Baulaire: “É preciso estar-se, sempre, bêbado”, mesmo que seja de poesia.

É fato: o primeiro contato com essa “droga” e com o poeta aconteceu quando ainda era tica. Polonaise, ao lado de Trem de Ferro, foi meu poema favorito durante toda infância, quando eu ainda não fazia idéia do que era a poesia.

:: Vida, de Marcio Abreu. Com Giovana Soar, Nadja Naira, Ranieri Gonzalez e Rodrigo Ferrarini. 115 minutos. Comédia. Sesc-Santana (v. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, tel. 2971-8700). R$ 5/ R$ 20. 6a./sáb.  21h e dom. 19h30. Até 08/08.

macbeth


Dizem por aí que a peça Macbeth é amaldiçoada. Eu não tenho dúvidas disso. Sempre que eu e ele combinávamos de ver algo no Sesc, alguma coisa dava errado. Há menos de uma semana para vermos Macbeth, ele terminou comigo. Pelo menos, eu consegui ver a peça e deixei o ingresso dele guardado na carteira. Agora, vamos a “A peça escocesa”!

Ver uma montagem de um texto integral de Shakespeare bem interpretado é uma coisa rara. Tão rara que os ingressos se esgotaram em poucos dias. Li Macbeth na faculdade. Nunca soube de quem tinha mais medo: da Lady Macbeth ou da professora Rosangela Petta, que esperneava perguntando: “Quem é o protagonista, classe?”, “JoB, cadê o coro?”.  Lembro de ter ficado muito na dúvida sobre a primeira pergunta. Por mais que soubesse que Macbeth era o protagonista, ele nada seria se não fosse a Lady Macbeth. É ela a grande cabeça de toda trama. Isso me deixava intrigada. Por que ele é a principal se mais parece um fantoche nas mãos da mulher? Devo admitir, porém, que essa é uma visão muito feminista de minha parte: “há sempre uma grande mulher atrás de um (suposto) grande homem”.

Daniel Dantas, que já interpretou grandes bundões na teledramartugia brasileira, faz brilhamente o papel do rei da Escócia. Um soldado que, mesmo vestido com sua armadura, não consegue disfarçar suas fraquezas, indecisões, medos… hum… humanidade? E Renata Sorrah faz uma Lady Macbeth mais demoníaca  que a Narareth. Forte, decidida, fogosa e… cruel! A montagem de Aderbal Freire-Filho desse texto lembra muito sua montagem de Hamlet. Parece-me, no entanto, que, em Macbeth, o diretor o optou em ser mais tradicional, mais clássico. Claro, já diferenciou Borges, “Hamlet é a tragédia de um pensativo em um mundo violento, o som e fúria de Macbeth parecem furtar-se a uma análise”. Ou seja, Hamlet é uma peça pra dentro, de palavras. Macbeth é uma peça de ações, gestos. Aliás, que beleza as cenas de luta. Quem disse que pra ser forte e real precisa ser violento? Aderbal Freire-Filho soube tratar a violência da peça de uma maneira muito elegante.

É arte: a iluminação. Apesar de muito simples e precisa, ela funciona muito bem quando necessária.

É fato: Macbeth é a peça mais curta de Shakespeare, mas a peça tem 160 minutos de duração. Isso sim causa um mal-estar, no corpo, devo ressaltar.

:: Macbeth: de William Shakespeare. Drama. Direção: Aderbal Freire-Filho. 160 min. Sesc Pinheiros (R. Paes Leme, 195, Pinheiros, 3095-9400. R$ 5/R$ 20.). 6ª/sáb às 20h, e dom às 18h). Até 18/07. Ingressos Esgotados!


Como os ingressos estão esgotados, apreciem esse trechinho!

nara


Esses dias li no jornal que o espetáculo Nara foi indicado ao Prêmio Shell na categoria Música. E não é para menos. Para contar a trajetória da cantora Nara Leão, o diretor musical Pedro Paulo Bogossian escolheu as mais belas canções imortalizadas pela musa da bossa nova. Como um musical, Nara foge dos padrões. É quase um show, eu diria. A atriz Fernanda Couto interpreta – muito bem, diga-se de passagem – grandes sucessos da cantora, como “Com açúcar e com afeto”, “O barquinho” e “Berimbau” e nos intervalos narra alguns acontecimentos de sua trajetória. Entre uma música e outra, o público fica sabendo de seu envolvimento  com a bossa nova, do noivado com Ronaldo Boscoli, do casamento com Cacá Diegues, de sua tentativa em estudar psicologia, de seu engajamento político e muito mais. Tudo intercalado com lindas canções.

É arte: o cenário é muito simples, mas boas soluções de iluminação dão um certo requinte e enchem os olhos da platéia com uma certa magia.

É fato: como dura apenas 60 minutos não dá para cansar.  É impossível não sair cantarolando: “o barquinho vai, a tardinha cai…”

:: Nara – Teatro Augusta. R. Augusta, 943  (Consolação), 3151-4141. Qua./Qui. 21h. R$ 30. Até 24/06