globo da morte de tudo


“Viu, filho, nem tudo está perdido”, resumiu uma mãe a uma criança após a performance dos motociclistas na instalação, Globo da Morte de Tudo, de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. A frase positiva da mãe me fez refletir e pensar no lado positivo dos acontecimentos. O que nem sempre é fácil.

Ao meu ver, a maioria estava ali para assistir uma quebradeira total dos objetos instalados nas prateleira enquanto os motociclistas rodopiassem com suas motos nos dois globos. As pessoas queria a catarse. Mas saíram com a frustração porque, com a quebra de uma das motos, a vibração não foi suficiente para que tudo viesse abaixo. Estilhaçando apenas poucos vidros e peças de porcelanas e muitos objetos ficando intactos nas prateleiras. E assim é a vida. Quantas vezes não planejamos para que algo aconteça de tal modo, mas nada ocorre exatamente como está no papel. E arte às vezes a imita vida já diz o ditado.

Em uma entrevista, Nuno Ramos disse que “da destruição vem a possibilidade de construir algo novo”. Mas da frustração, eu diria, vem a possibilidade de tentar de novo. E quem sabe de forma diferente ou quem sabe com um resultado melhor. Dia 8  de novembro, hoje, os motociclistas voltam ao Globo para a última e derradeira apresentação. Quem sabe agora tudo virá abaixo provocando a catarse tanto esperada pelo público. Ou não. E tudo relute em continuar como está. E essa é a beleza da vida. A falta de controle e imprevisibilidade. Afinal, talvez nem tudo esteja perdido basta apenas mudar o jeito de olhar.

:: Globo da Morte de Tudo, de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. Sesc Pompeia. R. Clélia, 93 – Pompeia, São Paulo – SP, 05042-000. 3a/sáb.. das 9hàs 21h; dom. das 9h/20h. Ativação do Globo: 08 de novembro às 20h.

 

Tiamm Schuoomm Cashsh!


Uma obra de arte pode ter vários objetivos: incomodar, questionar, enebriar, chocar, provocar… As que mais me encantam são as que me chocam por beleza e engenhosidade. A instalação Tiamm Schuoomm Cashsh!, de José Spaniol, na @pinacotecasp, é dessas que você não sai incólume ao passar por ela.

Os barcos que parecem leves, mas pesam 430 kg, estão suspensos por varas de bambus — elemento que por muitos anos foi usado na construção civil. Minha irmã que é engenheira sempre diz que os bambus, de aparente fragilidade, podem ser mais resistente do que barras de ferro.

Nesse jogo de dualidade, de aparente leveza e delicadeza, o artista simula uma tempestade, que nas onomatopeias escritas em resina no chão insinuam um mar revolto em que os barcos tem de se equilibrar. Um dos trabalhos mais bonitos que já ocuparam o octógono do museu. Não percam a oportunidade de deixar seus olhos navegarem por essa por essa instalação.

meialuz e derrapagem – regina silveira


Sempre que convido alguém para ir a uma exposição de Regina Silveira comigo, ouço: “Você ainda não cansou?”. Quase sempre respondo: “Já viu mãe cansar de filho?” Claro que a artista não é minha filha, mas o trabalho que fiz sobre ela é, e sempre será, o meu filho dileto. Por isso não canso de nada relacionado a ele/ela.

No mês de março, nós, paulistanos, fomos presenteados com uma exposição e uma instalação da artista. Primeiro, foi a fachada da loja UMA, na Vila Madalena. A artista imprimiu suas Derrapagens nas paredes brancas da botique. E inspirada no trabalho de Regina, a estilista Raquel Davidowicz criou incrível uma coleção com as marcas de pneus.

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Outro local onde se pode apreciar a obra da artista é o Centro Cultural Maria Antônia, onde está a exposição MeiaLuz. Certa vez, Regina comentou comigo que tinha sido convidada para expor no Maria Antônia e pensava em fazer umas derrapagens. Comentei que gostaria de ver o céu de Ficções saindo por aquelas colunas gregas do prédio. Claro que a ela não se lembrou disso. Coincidência ou não, a artista levou obras que dialogam com o céu. Numa sala escura há três trabalhos. Uma maquete de estudo de Entrecéu, corredor celestial que ela criou no Museu da Vale do Rio Doce. Twilight é uma fina cortina (que eu gostaria de ter em casa) de um lindo céu azul do dia que encobre uma noite estrelada. O vento leve do ar-condicionado faz a cortina levantar revelando a noite – uma miragem. A versão de 1001 dias traz, no lugar da porta da exposição Ficções, uma espécie de barriga na parede que dá a ilusão estamos vendo o céu por meio de uma bola de sabão. É incrível o momento em que a noite se concentra naquela bolha e depois vai clareando, clareando, clareando até o dia “explodir”. Esse vídeo está, sem dúvida, entre os trabalhos mais bonitos da artista que eu já vi.

É arte: essa capacidade da artista se reinventar e utilizar vários meios.

É fato: eu sinto muita saudade do meu TCC (momento divã).

:: Derrapagem: Loja UMA. Rua Girassol, 273, Vila Madalena, São Paulo – SP.

:: MeiaLuz: Centro Universitário Maria Antônia. R. Maria Antônia, 258 – Vila Buarque – Centro. Tel: 3255-7182. Até 23/05

cascavel


Quando a gente está começando, é comum seguirmos modelos e elegermos mestres. Eu tive (ainda tenho, vai?) uma incrível. A Gabriela, de quem fui assistente por dois anos, me ensinou muuuito de edição, texto, pauta. Acredito que até mais do que aprendi na faculdade. Na época até ouvi zunzunzuns na redação de que eu era uma Gabrielinha (o que me orgulhava muito). Se isso acontece no jornalismo, acredito que em artes é mais comum ainda.

Flora Assumpção e Renato Pera são assistentes de duas grandes artistas plásticas, respectivamente, Ana Maria Tavares e Regina Silveira (essa, meus queridos três leitores, imagino que já conheçam bem). A dupla está com uma instalação no Ateliê Oço, um espaço (não sei se posso chamar de alternativo) onde jovens artistas se encontram para fazer e discutir arte.

Assim como a obra de suas “mestras” (não sei se eles as consideram assim), o trabalho desses jovens artistas é coerente e de grande apreensão estética. Renato certa vez me disse que seu trabalho, tal como o de Regina, tem um quê de publicitário. Causa um primeiro impacto, depois um deslumbre, aí, aos poucos, você entende a mensagem. Outro elemento em comum é a relação com a arquitetura: modificam a poética do lugar. (Artista adora essa palavra, poética. Eu prefiro dizer que a presença da obra no ambiente traz um outro significado para o local.) Essas são duas características que aparecem em Cascavel, de Flora e Renato. A instalação dá ao Ateliê Oço um clima um tanto assustador. Ali, não é mais apenas o espaço onde  artistas se reúnem, agora é  o covil de uma cobra, que se arrasta pela escada, se enrola na parede e vai se aninhar… bem, você vai ter de ir até lá para conferir.

É arte: conhecer e acompanhar o trabalho desses jovens e bons artistas. E existir esses espaços em que eles possam expor o que estão fazendo.

É fato: eu sou uma péssima cinegrafista. Não recomendo, para quem tem labirintite e todos os outros ites, ver o vídeo acima. Mas olha, sou uma editora de vídeo bem mais ou menos. Essa foi a primeira vez que mexi no imove. Me aguardem nos próximos.

:: Cascavel: Ateliê Oço,  Praça Carlos Gomes, 117, bem próximo do Metrô Liberdade.