alexander calder e a arte brasileira


Em todos os lugares em que vejo a obra norte-americano Alexander Calder eu fico encantada. Não sei se é pela sensibilidade ou pela matemática escondida no equilíbrio das peças que se movimentam ao mínimo bater dos ventos. Não é a toa que sua invenção ganhou os berços da maioria dos recém-nascidos. Sim, ele é o inventor do móbile, que a indústria e o mercado souberam se apropriar muito bem. Então, imagina, se a síntese da obra desse artista entretém até um bebê, qual seria o seu poder com um adulto? Em mim, funciona quase como um feitiço. Eu passei tempos na exposição admirando aquelas peças que se equilibram em hastes tão finas e pensando: como pode?

Quem batizou suas peças de móbile foi o artista Marcel Duchamp, que significa em francês tanto “motivo” quanto “movimento”. Inspirado na paleta cromática do pintor Piet Mondriam, Calder trouxe para terceira dimensão e deu vida às cores e aos temas geométricos de suas pinturas. Em visita ao ateliê do artista, o filósofo Jean Paul Sartre conta:

 “Um móbile, até aquele momento em repouso, tomou-se de violenta agitação contra mim. Dei um passo para trás e achei que tinha me colocado fora de seu alcance. Mas, de repente, assim que essa agitação passou e ele parecia novamente morto, sua longa cauda majestosa, que não tinha se mexido, se pôs em movimento, devagar, como num lamento, e volteando pelos ares passou pelo meu nariz”.

A descrição de Sarte nos faz intuir que o trabalho de Calder tem vida própria. E não são objetos inanimados como tentam mumificar os museus, onde o público só interage com o olhar atento esperando uma corrente de ar passar para que a obra se mova. (Pelo menos, era assim que eu me comportava a frente de cada escultura.)

A magia e a vida do trabalho do artista estão presentes em um vídeo sobre o circo que ele criou. Um trabalho de uma engenhosidade magnífica capaz de hipnotizar as crianças mais do que a Galinha Pintadinha. Com suas personagens feitas com pedaços de panos, cortiças e arames, o artista dá vida a palhaços, equilibristas, mágicos, domadores de leões… Encantem-se com seus próprios olhos.

A mostra tenta ainda aproximar o trabalho do norte-americano com os de artista brasileiros, como Waltércio Caldas, Hélio Oiticica e Carlos Bevilacqua. Nos quais você encontra semelhanças. A delicadeza e o esforço do equilíbrio de Caldas, a vida de Oiticica, o interesse pelo cinético de Bevilacqua. Um interessante diálogo com o trabalho de um artista que consegue se comunicar tão bem com diferentes públicos, artistas, adultos, crianças, iniciados em histórias da arte e curiosos.

:: Calder e Arte Brasileira – Itaú Cultural, Avenida Paulista, 149 – São Paulo/SP. 3a./6a. 9h às 20h; sábado, domingo e feriado 11h às 20h

Cartaz da Semana de Arte Moderna de 22

90 anos depois: semana de arte moderna de 22


Se você mostrar para o Fábio uma foto de qualquer político do Brasil – sim, ele pode ser do Amapá – não é raro ele te dar a ficha corrida do sujeito. Se você fizer isso comigo, eu vou perguntar kiko? Se você me mostrar uma obra de arte ou citar um nome de uma artista – de preferência do ocidente –, eu provavelmente vou poder te dar alguma informação mesmo que mínima. Bom, dado nossos currículos, você imagina por que eu quis ir ao Palácio dos Bandeirantes e  por que o ele decidiu me acompanhar?

Bom, eu fui lá conferir a exposição sobre os 90 anos da Semana de Arte Moderna de 22. O Palácio, além de dar abrigo ao Governador por 4 ou 8 anos, também tem acervo bueníssimo de arte brasileira. Com obras da coleção, foi montada uma pequena, mas interessante mostra em homenagem à nossa querida Semana. A maioria das obras não participaram da exposição no Theatro Municipal em 22. Mas alguns dos artistas, sim. Por exemplo: Víctor Brecheret, Anita Malfatti e Di Cavalcanti.

Antes que você pense ou diga: não, meu amigo, Tarsila do Amaral não participou da Semana. Ela estava em Paris e com preocupações acadêmicas demais para pensar em modernidade, cubisco, cores nacionais e outras características que invadiriam sua obra. Mas sim, lá você encontra dois bons exemplos da Tarsila antes e depois de Oswald, Mário e Anita. A Samaritana, seu quadro ainda com todos os rigores dos ensinamentos de Pedro Alexandrino, que também está representado na exposição, e Operários, pintado na década de 30, com todas as formas cubistas que lhe são conhecidas.

Outras obras que merecem a atenção é Ventania, de Anita Malfatti, e Daisy, de Victor Brechet. A primeira talvez tenha participado da Semana e uma obra muito pouco exibida. A Segunda vale pela história engraçada que envolve. Brechet fez o busto por encomenda de Oswald de Andrade. Daisy foi a primeira mulher do escritor e morreu muito jovem. Quando ele casou com a Tarsila, queria colocar a escultura em cima do piano da pintora, que, até onde eu sei, não deixou. Bom, eu acho essa história engraçada. E a Daisy tem uma cara tão divertida! A mostra compacta é muito interessante para quem conhece pouco dos pintores modernos e gostaria de conhecer mais.

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Para quem gosta de Política, como o Fábio, o mais legal é ver os retratos dos governadores do estado e estar ali, onde influentes da política paulistana transitam. Bom, você também pode ver o belo jardim, móveis antigos, murais da Maria Bonomi, presentes recebidos pelos governadores, menos o Governador. A área íntima, como o nome diz, é íntima e não tem visitação.

É arte: poder visitar esses ícones modernos brasileiros participantes ou não da Semana. Pode parecer bobo, mas toda vez que eu vejo Operários, da Tarsila, sinto um aperto no coração. Ok, confesso: eu chorei quando pela primeira vez a obra. Mas eu tinha 16 anos, tô perdoada?

É fato: você não pode passear livremente pelo Palácio. Todas as visitas são guiada!

:: 90 anos depois: Semana de Arte Moderna de 22 Palácio dos Bandeirantes (Avenida Morumbi, 4.500). 3a/dom. 10h/17h. Grátis. Até 29/jul.

jogos de guerra


Para ver um trabalho da minha artista favorita, visitei a exposição “Jogos de Guerra”, em cartaz no Memorial da América Latina. Assim que pisei no espaço e tive uma visão geral da mostra, eu entendi a necessidade do trabalho de um cenógrafo. Por mais que as obras estivessem ligadas pela ideia do conflito, a organização de tais lembrava a de uma feira de ciências de colégio. Não sei se a intenção da curadora Daniela Name era causar um conflito entre os trabalhos, mas é isso que a acontece. Obras de vários artistas muito bons, como Nelson Leirner, Cildo Meireles, Adriana Varejão e, claro, Regina Silveira, disputam o campo de visão do espectador, fazendo-o se sentir um cego no meio de um tiroteio de imagens. Porque, sim, o excesso também cega.

É arte: o tema dessa exposição está muito ligado ao tema da próxima Bienal: Arte e Política.

É fato: eu ainda não tive a sorte de ver uma exposição boa no Memorial da América Latina.

:: Jogos de Guerra – Memorial da América Latina: av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, São Paulo, SP. Tel.:  (11) 3823-4600. Ter./dom.: 9h/18h. Até 4/4. Grátis.

ocupação palatnik


Hoje, 10/01, é o último dia para visitar a exposição Ocupação Palatnik, no Itaú Cultural. A mostra é pequena porém precisa. Para quem não conhece o artista é uma excelente oportunidade. No início, há um vídeo de Palatnik contanto um pouco de sua história: um pintor que deixou a tintas e passou a pintar com luzes e engrenagens. A primeira vez que vi uma obra do artista foi em 2002, também no Itaú Cultural. Na época, com 15 anos, lembro de ter pensado: “Ele é um Miró com movimento”. Oito anos depois, quando vi novamente o trabalho do artista a mesma frase me veio a cabeça – mesmo em suas obras estáticas. As telas da série Progressão, um de seus trabalhos mais recente, me lembram os movimentos das cordas do piano – um silêncio musical. A mostra também traz um aparelho Cinecromático, objetos da série Mobilidade, dois Objetos cinéticos entre outros.

É arte: para realizar suas obras o artista utiliza muita matemática e outros conhecimentos de mecânica adquiridos em cursos que fez em Telaviv, nas escolas Herzlla e Montefiori, esta última de especialização em motores de explosão. No entanto, toda ciência exata utilizada para criar desaparece quando se vê a obra pronta. Fica apenas o deslumbre.

É fato: seu aparteliê, como ele chama o apartamento onde vive e trabalha, lembra um quartinho de bagunça. Fica difícil imaginar como o artista se encontra naquele lugar. Mas pensando bem, seu trabalho também é um pouco assim: apesar do rigor técnico, seus objetos causam uma bagunça nos nossos sentidos. Assim como o ambiente onde Palatnik vive.

:: Ocupação Palatnik Itaú Cultural –  Avenida Paulista 149 – Paraíso – São Paulo SP [próximo à estação Brigadeiro do metrô]. Tel.: 11 2168 1777. 3a./ 6a. 10h/21h, sáb./dom. 10h/19h. Grátis.

walker evans


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Ele queria ser escritor, mas se descobriu fotógrafo. Walker Evans não era um bom ladrão de almas como Cartier-Bresson, mas fazia retratos muito bonitos. E também tem uma belíssima série de fotos de uma viagem que fez a Cuba. Evans ficou famoso por suas fotografias de caráter documental sobre a comunidade agrícola norte americana. Mas das 121 que vi na mostra em cartaz no Masp, suas fotos de arquitetura urbana são, de longe, as melhores. Ele sabia, como poucos, como explorar as sombras e as linhas retas da cidade de Nova York. Na exposição há algumas sequências de fotografias que ele mandava ampliar em um tamanho mínimo (acredito não ser maior do que 5×5). Essas são, ao mesmo tempo, gigantes pelo grau de profundidade que conseguia captar. O que me deu ainda mais certeza que menos é sempre mais, muito mais.

É arte: as fotografias de pessoas feitas no metrô. Para Evans, as pessoas no vagão ficavam com “rostos nus”.

É fato: algumas fotos coloridas de anúncios são bem… inexpressivas, eu diria. Mas dá para entender que, ali, ele estava mais interessado em explorar as possibilidades da fotografia colorida — uma novidade.

:: Walker Evans – Masp, Avenida Paulista, 1.578. Tel. (011) 3251-5644. 11h/18h (5.ª até 20h; fecha 2.ª). R$ 15 (3.ª, grátis). Até 10/1.