Jóquei


Foi um amor à primeira palavra. Estava na Flip, em 2015, vendo a última do mesa do e vento, a de Cabeceira, quando Matilde leu um poema. Eu infelizmente não vou lembrar qual, mas vou deixar no final um outro que ela leu em uma outra mesa. Foi um amor. Acho que fiquei de boca aberta e escorreu um fio de baba enquanto a ouvia e a via ler. Era tão envolvente. Foi impossível não mergulhar na leitura junto com ela. E olha que eu tenho muita dificuldade de prestar atenção em pessoas lendo. Depois disso saí da cadeira de plástico direto para livraria para comprar Jóquei, seu primeiro livro.

Quem entende de poesia diz que o livro não tem nada de mais. Mas ali em encontrei todo o sentimento que percebi na leitura de Campilho. A mesma intensidade, a mesma suavidade, a mesma sonoridade do seu sotaque português. ❤ Faz tempo que li esse livro, porém, ao ver uma entrevista da autora na internet, resolvi reler meus trechos favoritos que estão grifados:

“A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos atravessando tudo”

“No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará”

“Olhei com mais atenção o desenho da estrutura e descobri: a raça humana é toda brilho”

Há muitos outros grifados e poemas inteiros marcados. Mas, nesse momento, senti vontade de destacar esses. Matilde tem um olhar atendo e doce para o cotidiano. Sua escrita é fluida e segue como um bate-papo. Não faz uso de muitos recursos estilisticos para engrandecer sua poesia. É como aquele bom café coado servido em copo americano. É simples, é bom e esquenta o coração. 

vamos comprar um poeta


No Ensino Médio, eu troquei um curso técnico e um cursinho preparatório para o vestibular pelo teatro. O que não deixou meu pai muito feliz na época. Participar do grupo de teatro da escola foi a minha prioridade naqueles três anos. Meu pai dizia que o teatro não me levaria a lugar algum. Realmente, financeiramente e profissionalmente talvez não tenha levado. Não sou atriz e nem nunca quis ser. Mas o teatro me levou a descobrir o mundo.

Antes do teatro, eu só lia as leituras obrigatórias da escola. Depois do teatro, eu passei a ler as da escola, do teatro e complementares. Eu descobri o Manuel Bandeira e a poesia modernista, o mundo encantado do Ariano Suassuna, li peças do Bertolt Brecht e aprendi um pouco de expressionismo alemão. Aprendi a ir para São Paulo sozinha de trem e me apaixonei por artes visuais.

O teatro me custou um atraso de um ano para entrar na faculdade, porém deixou minha vida tão rica que faz esse ano parecer troco de bala. E por valorizar o “inutilismo” e saber o quanto as artes enriquecem a nossa vida, eu recomendo a todos a leitura de Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz. Deveria ser leitura obrigatória em todas as escolas, faculdades e da vida. São 100 páginas que vão te dar um lucro exponencial. Vamos comprar um poeta já está na prateleira dos melhores livros já lidos. Pois como já diria nosso Mário Quintana: “quem escreve um poema salva um afogado”. 

Veja algumas frases que valeram sublinhar

Por que não um artista?
A mãe disse:
Nem pensar, fazem muita porcaria, a senhora 5638,2 tem um e despende três a quatro horas por dia a limpar a sujidade que ele faz com as tintas naqueles objetos brancos.
Telas
Isso.
Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?

*

O que é que esse poeta faz?
Poemas, respondi eu.
Para que servem?
Para muitas coisas. Há poemas que server para ver o mar.

*

O poeta dizia que os versos libertam as coisas. Que quando percebemos a poesia de uma pedra, libertamos a pedra da sua “pedridade”. Salvamos tudo com a beleza. Salvamos tudo com poemas. Olhamos para um armo morto e ele floresce. Estava apenas esquecido de quem era. Temos de libertar as coisas. Isso é um grande trabalho.

 

cidadezinha qualquer


Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

 
Carlos Drummond de Andrade

cabra macho, sim, sinhô!


Sou filha e neta de nordestinos. Na família do meu pai todo mundo conhece bem o significado da palavra retirante. Meus familiares trazem na memória a história de vir para São Paulo montado num pau-de-arara para fazer a vida.

Em casa, nunca faltou farinha para engrossar o caldo do feijão e nem forró para alegrar as festas. Meu pai guarda uma peixeira no armário, caso algum cabra venha desgraçar suas filhas. Minha vó tem aquele canto agudo muito respeitável das mulheres que levavam roupa na beira do rio. Meus tios têm nomes rimados que terminam em ildo, e minha tinhas em nice. E em todos se proferiu o gene da vontade de lutar sempre para conseguir uma vida melhor.

Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta.

(Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto)

é arte: temos muitos exemplos de artistas e eu poderia ficar um dia inteiro lembrando o nome de célebres nordestinos.

é fato: não gosto de comida nordestina. Com todo respeito a quem goste. Mas pra mim, as únicas coisas que se salvam são os doces. Ah, bolo de rolo e tapioca de café da manhã! 🙂

Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral

sonho de uma terça-feira gorda


Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral

Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral

Já declarei meu amor pelo Carnaval em um post no ano passado. Continuo amando a folia. Aliás, amo mais agora que posso foliar com outrem.

Dizem que amor de carnaval termina na quarta de cinzas, mas eu acho que vim ao mundo para comprovar que conhecer alguém nesses cinco dias pode ser, quiçá, para a vida toda.

Foi num carnaval que nos conhecemos. No seguinte, ele tomou coragem. Nesse, foliamos juntos. Assistimos nossas escolas na TV, pulamos no bloco “Vai quem qué”, curtimos um friozinho debaixo dos cobertores.

Ao ler um poema, de Manuel Bandeira, chamado “Sonho de uma Terça-feira gorda”, ele lembrou de nós dois e me mandou. E nada poderia resumir melhor o que o Carnaval representa para nós.

Sonho de uma terça-feira gorda

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros,
[e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma
[espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
– Dentro de nós, ao contrário, era tudo tão claro e luminoso.
Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes – Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas – deusa disto, deusa daquilo, já tontas e
[seminuas.
A turba ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhe flores.
Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
– A profunda, a silenciosa alegria…

vida


“Viver é sucinto”, dizia Leminki. Na peça Vida, o diretor  Marcio Abreu queria travar um diálogo com a obra do poeta. Mas, ao meu ver, não conseguiu. Não que eu seja uma especialista em Leminski ou coisa do gênero. LONGE DISSO. Já li, porém, alguns livros do autor e não enxerguei um vírgula dele no espetáculo. A peça não consegue ser sucinta, e sim, prolixa. Voltas e mais voltas e nenhuma conclusão. Diálogos que se repetem, repetem, repetem… Eu cortaria facilmente 1h. Um história cíclica, chata, com alguns bons momentos de riso, só. Pensando nisso, talvez o título tenha tudo a ver, afinal, a vida é um pouco assim. Histórias que se repetem, muitos momentos de tédio e alguns felizes.

Numa sala fechada, em que faz calor, quatro pessoas ensaiam uma apresentação. A convivência forçada faz com que eles se relacionem, revelando o comportamento e dilemas de cada um. A clichê mulher TPM que não para de falar. O homem em crise – de idade ou de sexo, não entendi. Um pessoa mais reservada que prefere sempre se manter em silêncio. Outro com características de apaziguador e mais sensível, que não sabe se vai ou se fica. Ali, ninguém se entende, diálogos não se completam e tudo sempre acaba sempre no mesmo: o nada. Alguma coisa semelhante em sua vida? Provavelmente, sim. Muitas das cenas foram colhidas das vidas dos atores. Mas ninguém precisa perder quase duas horas de seu período existencial ouvindo zilhares de vezes: “O que eu digo te interessa?”, “Tá to mundo aqui?”, “O que brilha?”. Viver já é bastante cansativo, não precisamos de outra vida tão entediante.

É arte: de qualquer modo, é sempre bom entrar em contato com a poesia de Paulo Leminski. Vejam esse vídeo e entendam o que ele pensava sobre a linguagem. Acho que ele concordava com Baulaire: “É preciso estar-se, sempre, bêbado”, mesmo que seja de poesia.

É fato: o primeiro contato com essa “droga” e com o poeta aconteceu quando ainda era tica. Polonaise, ao lado de Trem de Ferro, foi meu poema favorito durante toda infância, quando eu ainda não fazia idéia do que era a poesia.

:: Vida, de Marcio Abreu. Com Giovana Soar, Nadja Naira, Ranieri Gonzalez e Rodrigo Ferrarini. 115 minutos. Comédia. Sesc-Santana (v. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, tel. 2971-8700). R$ 5/ R$ 20. 6a./sáb.  21h e dom. 19h30. Até 08/08.

para viver um grande amor


Não lembro de ter escrito aqui sobre um livro que ainda não tivesse devorado todas as páginas. Mas como para toda regra há uma exceção, eis a primeira. Faltam poucos minutos para terminar esse frio (porém, de coração quente) 12 de junho. E acabei de ganhar, de alguém especial, Para viver um grande, de Vinicius de Moraes. Quem me deu sabe que eu gosto de poesia. Sabe que eu adoro ganhar livros. Sabe o que estamos vivendo agora. Por isso talvez o presente tão sugestivo.

A reunião de poemas e textos, feita pelo próprio poetinha, é dedicada à Lucinha, uma de suas nove mulheres, com quem viveu “um grande amor” durante cinco anos aproximadamente. Muitos poemas ele escreveu pra ela, Teu nome e Retrato de Maria Lucia, por exemplo. Mas há também os que expressam outros grandes amores, como pelos amigos e pelo time do coração, o Botafogo.

Sentados na mesa de um tradicional restaurante japonês, lemos alguns trechos e poemas inteiros. Vinicius transita  pelos clássicos sonetos, versos de rimas pobres, rimas muito ricas e pelos de rimas brancas. Há algumas crônicas também, como a que da título ao livro e começa assim:

“Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor”

(Ficamos chocados quando lemos “muita seriedade e pouco riso”. Como assim, pouco riso? Justo nós que temos um riso tão solto especialmente quando estamos relembrando músicas de “alta poesia”, hahaha)

Bom, mas é melhor parar por aqui. Pois ainda há muito o que ser lido naquelas páginas pólen e muito ainda o que ser vivido na vida real – mas isso só interessa a quem me deu o livro e a mim, sorry!

É arte: as primeira páginas com fotos e reproduções dos rascunhos de Vinicius.

É fato: apesar do título, não são todos os poemas que falam de amor. Muitos, aliás, falam de dor, por exemplo, o sugestivo Um beijo:

Um minuto o nosso beijo
Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes
Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração!
Quanto cadáver sozinho
Em mesa de necrotério
Quanta morte sem carinho
Quanto canhenho funéreo!
Que plantel de prisioneiros
Tendo as unhas arrancadas
Quantos beijos derradeiros
Quantos mortos nas estradas!
Que safra de uxoricidas
A bala, a punhal, a mão
Quantas mulheres batidas
Quantos dentes pelo chão!
Que monte de nascituros
Atirados nos baldios
Quantos fetos nos monturos
Quanta placenta nos rios!
Quantos mortos pela frente
Quantos mortos à traição
Quantos mortos de repente
Quantos mortos sem razão!
Quanto câncer sub-reptício
Cujo amanhã será tarde
Quanta tara, quanto vício
Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto
Quanta paixão, quanto luto!…
Tudo isso pelo encanto
Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.

:: Para viver um grande amor – de Vinicius de Moraes. Editoa: Companhia das Letra. Poesia. 1991. 240 págs. R$ (Valor afetivo não se conta em números).